Você está aqui: Página Inicial Notícias Em 150 municípios brasileiros, apenas 28% dos entrevistados assumem preconceitos

Em 150 municípios brasileiros, apenas 28% dos entrevistados assumem preconceitos

30/05/2011

Esse é um dos dados da pesquisa Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil, realizada pela Fundação Perseu Abramo nos anos de 2008 e 2009, em parceria com a organização alemã Rosa Luxemburgo Stiftung (RLS). O trabalho, coordenado pelo sociólogo da Universidade de São Paulo, Gustavo Venturi, será publicado em livro no mês de junho.

O estudo aponta crescimento da tolerância com minorias, ao registrar que 28% de 2.014 pessoas entrevistadas em 150 municípios brasileiros têm preconceito contra lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros (LGBT). Quando comparado a outras pesquisas sobre racismo ou preconceitos contra idosos, o número é sete vezes maior. Apenas 4% dos entrevistados nesses levantamentos assumiram-se preconceituosos.

"As pessoas se sentem menos constrangidas de assumir o seu preconceito contra gays e lésbicas”, nota Gustavo Venturi.

Foi diante desse quadro de intolerância e urgência de uma política de enfrentamento à  homofobia, que o governo federal suspendeu a distribuição de um kit contra homofobia nas escolas do país. O material foi considerado de um tom não apropriado pela presidente Dilma Roussef, que sofreu pressões da bancada evangélica no legislativo para barrar a distribuição.

Na contramão dessa decisão, a pesquisa apontou como uma das variáveis que mais determina o nível de preconceito das pessoas é a escolaridade. Há uma grande diferença de preconceito entre quem nunca foi à escola e quem concluiu o ensino superior. A educação, por sua vez, é citada pela maioria dos entrevistados como a melhor forma de combater a homofobia.

Venturi avalia que o Estado precisa intervir, "por isso é tão fundamental uma política pública de enfrentamento a essa questão cultural que trata com maior tolerância a homofobia”.

O professor acredita que se o Estado não pode intervir na educação familiar, "deve considerar a educação em um segundo momento, quando as crianças vão para a escola”.

A suspensão do kit também foi criticada pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), que considerou a decisão um retrocesso no combate ao problema.

O pesquisador considera que a "pressão conservadora”, em especial no legislativo brasileiro, é uma reação às conquistas do movimento social LGBT.

"Eles tentam barrar o avanço no legislativo, mas o Supremo (Tribunal Federal), por outro lado, reconhece a união estável homoafetiva”, relembra Gustavo Venturi.

O sociólogo aposta que a mudança no sentido de um reconhecimento dos direitos da população LGBT é inevitável e que o movimento deve fazer-se ainda mais forte. "O padrão heteronormativo nunca foi tão confrontado como está sendo hoje”, avalia.

A pesquisa foi realizada em dois módulos: uma amostragem geral e outra com lésbicas e gays. O segundo módulo de entrevistas revelou um alto índice de preconceito institucional, ou seja, que foram praticados por agentes do Estado. Os entrevistados relataram terem sido submetidos a um tratamento diferenciado por sua orientação sexual pela polícia, em escolas, equipamentos de saúde, dentre outros. "Em um Estado democrático, isso é inaceitável”, afirma o sociólogo.

Como forma de combater essa realidade, Gustavo Venturi assinala quatro frentes: política pública, legislação, controle social da mídia e difusão do conceito de orientação sexual. Sobre essa última, o pesquisador acredita que é preciso difundir a ideia de que as pessoas não escolhem a sua orientação sexual. "Não se trata de uma preferência, mas de uma orientação, de algo que vem de dentro”, afirma

Fonte: Adital

comments powered by Disqus