Você está aqui: Página Inicial Notícias Diretrizes do MEC reavivam debate sobre o interesse dos jovens na escola

Diretrizes do MEC reavivam debate sobre o interesse dos jovens na escola

27/05/2011

O Brasil desperdiça os talentos de cerca de 50% da população de 15 a 17 anos. Os últimos dados sobre o ensino médio, de 2009, mostram que não é somente a qualidade que deixa a desejar. Nessa faixa etária, 33% dos jovens ainda estão atrasados no ensino fundamental e 15% estão fora da escola.

A evasão escolar é causada principalmente pela falta de motivação desses alunos, segundo afirma pesquisa da Fundação Getulio Vargas.

"Às vezes, [o jovem] chega ao ensino médio sem entender o que estão dando para ele", diz Wanda Engels, do Instituto Unibanco.

A recente aprovação pelo Conselho Nacional de Educação do PNE (Plano Nacional de Educação) -- que apenas explicitou a flexibilização já prevista na lei de 1996 -- reavivou a discussão sobre o interesse dos jovens.

O PNE pretende guiar uma reforma no ensino médio a começar pelo currículo que será flexibilizado. Os conteúdos, obrigatórios e eletivos, devem ser articulados em áreas: ciência, trabalho, tecnologia, cultura e esporte.

Por trás dessas linhas está o objetivo de fazer com que a escola -- e a educação que se oferece – se torne não só útil, mas atraente aos jovens.

"A divisão em áreas aponta para a superação da divisão em disciplinas. Essa fragmentação do conhecimento, distanciada das questões da sociedade, é um dos grandes fatores de desinteresse e reprovação no ensino médio", afirma Luis Marcio Barbosa, do Colégio Equipe (zona oeste de São Paulo).

"Mas é preciso pensar se o direito de escolha do aluno será garantido. E se na escola próxima a ele forem oferecidas áreas com as quais ele não tem afinidade? Na rede privada, esse direito está posto", diz Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).

Além disso, para dar certo, a proposta depende de um profissional diferente. "Precisamos repensar a formação do professor", diz Mozart Ramos, conselheiro do Todos pela Educação.

O Colégio Magister (zona sul de São Paulo), que acolhe as diretrizes, decidiu criar mecanismos internos para qualificação dos professores. "Se a escola não assumisse isso, teríamos problemas para trabalhar", afirma Marcelo Feitosa, coordenador do ensino médio.

Mas as mudanças na rede pública devem levar ainda mais tempo.  "Depois que o projeto for finalmente aprovado, vem a parte da adequação. Haverá a fase estadual e a municipal", diz Carlos Jamil Cury, professor da PUC-MG.

A Secretaria da Educação paulista afirmou que "aguardará deliberação do Conselho Estadual de Educação" para se pronunciar. Enquanto isso, há apenas modelos experimentais nas redes públicas.

É o caso de Pernambuco. Funcionando desde 2010, o "ensino médio inovador" foi implantado em 17 escolas do Estado, segundo o secretário de Educação de Pernambuco, Anderson Gomes.

Na escola Senador João Cleofas de Oliveira, em Vitória de Santo Antão (47 km de Recife), a nova proposta atinge 240 estudantes. O foco escolhido pelos gestores é a tecnologia, mas são as aulas de teatro e cinema as que mais animam os jovens.

Jefferson dos Santos, 18, diz que o "ensino inovador" o encorajou a estudar. "Agora aprendi a gostar de ler."

Para Santos, a adesão ao programa só não é maior porque muitos o confundem com curso técnico. "É difícil mostrar que não tem nada a ver uma coisa com a outra."

A visão do jovem não fica muito longe da análise de Jô Fortarel, coordenadora do Colégio Sidarta, em Cotia (31 km de São Paulo).

"Talvez, em âmbito nacional e em situações específicas, seja interessante. Por exemplo, no caso em que uma escola em uma região industrial der destaque à tecnologia. Mas entendemos ser mais limitador do que enriquecedor. Nossos alunos querem buscar um espaço no campo de trabalho e não apenas no entorno, mas nas inúmeras possibilidades dentro e fora do país".

Modelo alemão

Em Berlim, os alunos começam a traçar rumos diferentes a partir do sétimo ano de estudo. De acordo com o histórico dos seis anos da educação básica, eles são aconselhados a seguir a vida escolar em um dos dois modelos educacionais existentes desde a reforma de 2010 - Ginásio ou Escola Secundária Integrada.

Voltado à preparação dos alunos ao mundo acadêmico, o Ginásio é reservado para os que têm as maiores notas. E, no primeiro ano, quem não tiver bom desempenho deve mudar para a secundária.

Já o modelo da Escola Secundária Integrada tem aulas em tempo integral e aprovação automática. Além disso, essas escolas podem usar o contraturno para aulas de reforço e de aprofundamento das disciplinas tradicionais. Esse modelo também foca a formação profissional.

Mas em ambos os modelos é possível realizar o Abitur, exame para o ingresso na universidade. Segundo o governo local, o objetivo é oferecer as melhores possibilidades adequadas à realidade de cada aluno.

Fonte: Folha de São Paulo

comments powered by Disqus