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Parceiros na educação

11/08/2011
Roteiro proposto pela professora carioca Carla Lopes leva o aluno a percorrer a história para pensar sobre como a relação entre a família e a escola pode enriquecer o aprendizado.

Professora do Colégio Estadual Professor Sousa da Silveira, no Rio de Janeiro, a coordenadora pedagógica Carla Lopes propõe neste roteiro de aula, que tem como referência o ensaio “Abrigo de Tensões” (ver link nesta página), uma reflexão sobre a melhor parceria entre a família e a escola.

As atividades têm inspiração em uma notícia publicada na imprensa sobre um fato ocorrido no interior de Minas Gerais: um casal, apesar de dedicado à família, corre o risco de perder a guarda dos filhos por tê-los tirado da escola e estar lecionando para eles. Estes pais decidiram assumir a educação escolar dos filhos por julgarem poder fazer melhor do que a escola. A lei brasileira proíbe a iniciativa, entendendo que os pais ferem o Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente, pois são obrigados a matricular e a fiscalizar a freqüência de seus filhos na rede pública ou particular de ensino. Caso semelhante foi julgado pelo Superior Tribunal de Justiça em 2002 e também condenou os pais. O casal está disposto a lutar pelo que acredita ser seu direito: educar os próprios filhos.

É a partir desse fato e das questões que se desvelam por ele que a professora estimula o debate em sala de aula sobre a relação família-escola, propondo as seguintes perguntas:

- Conhecemos o processo e a história da escolarização do saber?
- Como se compreende a família? Como se compreende a escola?
- De que maneira se relacionam família e escola?
- Como podem se estabelecer e sustentar relações família-escola, no sentido de promover o enriquecimento das oportunidades educativas e dos recursos pedagógicos?

Referências
. Link da notícia: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0,,AA1675729-4005-0-0-16032008,00.html
. NOGUEIRA, Maria Alice e VIANA, Maria José Braga. Abrigo de tensões in Revista ONDA JOVEM, São Paulo: março/maio 2008, n.10, ano 4.

AULA 1


Tema: O surgimento e o estabelecimento da escola como instituição educacional.

Objetivos:
- apresentar a evolução histórica dos modelos de educação e dos formatos de instituição de ensino;
- apresentar o ponto de estabelecimento do modelo vigente a partir do séc. XIX;
- apresentar a escola no País desde o período colonial.

Atividades em sala de aula:

- pesquisar em livros da História Antiga e Medieval buscando a identificação do processo educacional nas sociedades antigas e medievais;
- pesquisar em livros da História do Brasil sobre a escola desde o período colonial;
- montar um mural com as principais características da escola no percurso da história.

Recursos materiais:
- livros de História, cartolina e canetas coloridas.

Comentários:

Nesta primeira aula o aluno deve ser capaz de diferenciar modelos educacionais constituídos ao longo do período da Antiguidade até a Modernidade.

A família e a comunidade tinham as práticas da transmissão do conhecimento. As famílias eram grandes e sua constituição permeava-se pela comunidade como um todo, a qual era responsável pela formação dos seus novos membros, que aprendiam pela convivência, pela atribuição de tarefas e de responsabilidades.

À medida que o conhecimento, principalmente o letrado, passa a ser diferencial de sucesso na sobrevivência, os grupos que o detinham passam a ter preponderância. Os que dominavam leitura e escrita influenciavam e até mesmo exerciam o poder.

No Egito a Escola de Kap formava a corte do Faraó e os príncipes estrangeiros de outras nações, no conceito da não-dominação somente pela força militar, mas pelo predomínio do conhecimento.

Na Roma do Alto Império a educação é prático-social. Essencialmente práticas sociais são os meios: o exemplo, o treinamento ministrado pelo pai que faz o filho participar na sua atividade agrícola, econômica, militar e civil, a tradição doméstica e política - mos maiorum; e a religião - pietas - entendida como prática litúrgica.

Na Idade Média, as escolas episcopais eram os locais para instrução escolar. Quem controlava a educação era o clero católico em mosteiros, locais onde os monges se dedicavam, entre outras coisas, a ler e copiar manuscritos antigos. Com isso a igreja conseguiu deter boa parte do conhecimento durante a Idade Média. O clero se tornou a elite intelectual e suas escolas eram os lugares exclusivos de ensino na Europa Ocidental.

No século IX, fundaram-se escolas junto às catedrais. Na sua evolução, vieram as universidades e algumas delas são conhecidas até hoje, como exemplo: Oxford e Cambridge.

Ao longo da Idade Média e na passagem para a Modernidade percebemos que a convivência entre adultos e crianças no seio da família sofre profundas transformações, estreitamente ligadas à ação dos reformadores religiosos dos séculos XVI e XVII. O advento do protestantismo irá preconizar e assegurar que o universo da criança deve ser separado dos adultos e que, portanto, a sua educação também deve ficar a cargo de pessoas capacitadas e externas ao núcleo familiar. Família e escola passam a ter funções diferenciadas: a primeira está circunscrita no campo do privado e a segunda no campo público.

Na Modernidade nos deparamos com a ascensão de uma nova classe social e o estabelecimento de um novo modelo econômico – o capitalismo --, que norteiam os novos rumos da sociedade ocidental. A concepção burguesa e o mundo capitalista irão acirrar as disputas e as desigualdades entre as classes sociais e o ensino cada vez mais será um divisor de águas.

No Brasil colonial a família latifundiária e escravista, formadora da elite brasileira, cuidava da educação elementar de seus membros, cabendo à escola a formação necessária para a sedimentação da visão do colonizador. Os encarregados desta educação eram os jesuítas, e portanto, a doutrina cristã era um meio de justificar e manter esta situação política e econômica. Durante o período do Império pouca coisa irá mudar neste sentido.

Durante o século XIX, mobilizadores políticos e reformadores sociais conseguiram implantar a concepção de escola, tal como a conhecemos hoje, impondo a idéia de que a comunidade local, a família e a igreja eram obstáculos para o que concebiam como progresso político e social. Obstáculos para a aspirada homogeneização da sociedade que se pretendia transformar em nacional, isenta das expressões locais, dos símbolos particulares, das crenças religiosas e das relações de parentesco, modos de pensar e de atuar que se transformavam em hábitos contrários à idéia de "uma comunidade de sentimentos e interesses que assegura o respeito aos direitos do homem e do cidadão".

A escola que conhecemos hoje foi colocada em prática por ideais responsáveis pelo modelo de cidadania divulgados no século XIX, adotados na sociedade brasileira a partir do regime republicano.

Referências
. ARIÈS, Philipe. História Social da Criança e da Família (tradução: Dora Flaksman). 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
. ZOOTI, Solange Aparecida. Sociedade, Educação e Currículo no Brasil: dos jesuítas aos anos de 1980. Campinas, SP: Autores Associados; Brasília, DF: Plano, 2004.

AULA 2


Tema:
Os conceitos de família e escola.

Objetivos:
- identificar os significados e os conceitos de Família e Escola;
- analisar as transformações históricas nos conceitos de família e escola.

Atividades em sala de aula:
- pesquisa de vocábulos no dicionário;
- distribuição de recortes de jornais e revistas que apresentem diferentes arranjos familiares e instituições escolares.

Recursos materiais:
- Recortes de jornais e revistas, dicionário, Constituição Brasileira 1988.

Atividades extra-classe:
- elaboração pelos alunos de uma enquete sobre a relação família-escola em duas frentes:
a) junto a suas famílias (pais, mães, tios, irmãos, avós, sobrinhos, primos e demais membros);
b) junto ao corpo docente e corpo administrativo da escola.

Comentários:

Nesta aula o professor deve levar os alunos a refletir sobre os diferentes conceitos de família e escola, entendendo que estas mudanças conceituais são marcadas por diferentes momentos históricos.

Para iniciar, sugiro que sejam distribuídos recortes de periódicos contendo imagens representando diferentes tipos de família e que se faça consulta ao dicionário sobre o significado do vocábulo família.

Mudanças econômicas, políticas e sociais são fatores que têm promovido alterações em nossas concepções sobre família e escola ao longo da história. A Constituição brasileira de 1988 considera famílias os grupos formados não só pelo casamento civil ou religioso, mas também pela união estável de homem e mulher ou por comunidade dirigida somente por um homem ou por uma mulher. Nela deixaram de caber classificações como "família ilegítima" e "filho ilegítimo".

É importantes traçar a trajetória do conceito de família e identificar os respectivos papéis de seus membros e considerar que arranjos familiares se configuram dinamicamente e, ainda, que uniões entre parceiros do mesmo sexo buscam legitimação para além da realização da felicidade -- querem alcançar os benefícios sociais previstos para as uniões estáveis.

Faça outra consulta ao dicionário sobre vocábulo escola. Indague aos alunos sobre o papel da escola, identifique com eles os membros desta instituição e suas respectivas funções. Faça observações sobre os diferentes tipos de escolas e seus respectivos papéis ao longo da história.
Promova uma pesquisa em nossa Constituição sobre as definições do papel do Estado na educação.

Avalie como a educação escolar tornou-se universalizadora a partir da escolarização compulsória desde o século XIX com uma organização que se especializou, compondo-se de professores, coordenadores pedagógicos, diretores e outros profissionais, sistematizada em níveis com currículos, sistema de avaliação e diplomações.

A escola tendo o reconhecimento social de lugar da educação pública (distinta da educação familiar), foi encarregada da reprodução da cultura letrada (dominante), dos valores sociopolíticos e da qualificação para o trabalho, assumindo funções econômicas e ideológicas.

Considere com seus alunos se conjuntos de conhecimentos, que estavam no âmbito da educação familiar, deixaram de ser valorizados por terem passado a ser vistos como saberes e fazeres populares.


Referências
. ABRAMOVAY, Miriam (Org.). Escolas Inovadoras: Experiências bem-sucedidas em escolas públicas. Brasília: UNESCO / Ministério da Educação, 2004.
. BRASIL. Constituição Brasileira de 1988.
.ZOOTI, Solange Aparecida. Sociedade, Educação e Currículo no Brasil: dos jesuítas aos anos de 1980. Campinas, SP: Autores Associados; Brasília, DF: Plano, 2004.





AULA 3

Tema: Interações família-escola.

- Essa interação é uma ação natural? Os estudantes querem esta relação? Os pais a desejam? A escola a deseja? Quem a propõe? Por quê? Quais os benefícios dessa interação?

Objetivos:
- analisar as visões trazidas pela enquete e debatê-las;
- analisar as condições em que a escola pode propor uma relação com a família;
- elencar as possíveis modalidades de relação e suas aplicações práticas;
- identificar as dificuldades (e impossibilidades) para efetivar a relação;
- identificar os benefícios relativos a cada integrante da relação: família, aluno e escola.

Atividades em sala de aula:
- exposição e interpretação do resultado das enquetes realizadas pelos alunos;
- elaboração de propostas de interação família-escola.

Recursos materiais:
- cartolina e canetas coloridas.

Comentários:
Encadeando as ações das aulas anteriores, relembre como família e escola foram divididas nas tarefas educacionais e então promova uma análise e um debate sobre os resultados da enquete, explorando junto com os alunos as visões que família e escola têm uma da outra.

Existem relações família-escola em curso na sua unidade escolar? Como estão avaliadas?
São reconhecidos como canais de diálogo? É identificado algum tipo de distanciamento? É identificado algum tipo de conflito? Há manifestações de vontade de relacionamento de parte a parte?

Atualmente a relação família-escola vem sendo pensada para uma parceria em busca do sucesso escolar, na procura de soluções para o aprendizado, socialização do ambiente escolar e gestão institucional democrática.

Um tradicional entendimento de relação família-escola é o apoio solicitado aos pais no acompanhamento dos deveres escolares, a partir da idéia de que as mães, particularmente, dispõem de tempo para o monitoramento dessas tarefas, em uma compreensão estereotipada da mulher colocada no universo familiar, ocupada exclusivamente com afazeres domésticos.

Que modelo familiar é este? A que classe social esse modelo corresponde? Esse tipo de parceria é de fato efetiva? Que pais têm “capital tempo” e “capital cultural” para fazerem esse acompanhamento? Esse tipo de apoio solicitado aos pais é uma parceria ou é uma transferência de responsabilidade?

É calcada no cumprimento de metas acadêmicas que essa parceria família-escola tem que ser proposta? Ou pode ser também orientada na busca de uma compreensão da contribuição educacional da família e das diferenças culturais, étnicas e de classe social nas quais os indivíduos estão inseridos?

Avaliando o conjunto de arranjos familiares do corpo discente e suas aspirações junto à instituição escolar, cruzando-os com as metas educacionais estabelecidas pela escola procure dos seus alunos propostas viáveis e sustentáveis para o estabelecimento desta parceria.

Referências
. ABRAMOVAY, Miriam (Org.). Escolas Inovadoras: Experiências bem-sucedidas em escolas públicas. Brasília: UNESCO / Ministério da Educação, 2004.
. Araújo, Ulisses F. A construção de escolas democráticas: histórias sobre complexidade, mudanças e resistências. São Paulo: Moderna, 2002.
. Fazendo a diferença: Projeto Escola Aberta para a Cidadania no Estado do Rio Grande do Sul. Brasília: UNESCO / Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, 2006.
. PUIG, Joseph M. et. al. Democracia e participação escolar: propostas de atividades. São Paulo: Moderna, 2000.





AULA 4

Tema: Como construir relações de integração família-escola?

Objetivos:
- fomentar a implantação do Conselho Escolar, sob a perspectiva do Plano Nacional de Educação, aprovado pela Lei nº 10.172 de 2007, como forma de participação da comunidade escolar, composta também pela família, e instrumento para a melhoria do funcionamento das instituições de educação e do enriquecimento das oportunidades educativas e dos recursos pedagógicos;
- organizar o Dia Nacional da Família na Escola.

Atividades em sala de aula:
- planejamento do Dia Nacional da Família na Escola

Recursos materiais:
- Lei de Diretrizes e Bases nº 9394/96, Plano Nacional de Educação – Lei nº 10.172 de 09 de janeiro de 2001 e Constituição brasileira de 1988.

Comentários:
Atualmente as políticas oficiais de ensino e diversas iniciativas não-governamentais passaram a defender a necessidade de a escola abrir cada vez mais espaços e canais de comunicação com a família.

Ao se discutir parceria e interação família-escola é importante debater sobre as relações de poder existente no universo escolar para que esta relação seja realmente frutuosa e não sirva como campo de tensões entre estes atores sociais.

Nesta aula o professor deve apresentar o papel do Conselho Escolar e suas atribuições, bem como as legislações que o sustentam que são a LDB nº 9394/96 – inciso VIII, artigos: 3º, 14º e 17º; a Constituição Brasileira de 1988 – art. 206, e o Plano Nacional de Educação – Lei nº 10.172 de 09 de janeiro de 2001.

As atribuições do Conselho Escolar devem ser explicitadas e comentadas de forma que os alunos entendam como a interação família-escola via este colegiado pode ser efetivada em sua unidade escolar. É importante salientar o papel das comunidades escolar e local nas decisões sobre as metas administrativas e pedagógicas como resultado de uma implementação de cultura participativa e cidadã.

Como proposta de culminância deste planejamento, indicamos que os alunos, professores e corpo administrativo escolar iniciem esta tarefa realizando o Dia Nacional da Família na Escola como um primeiro passo de implementação de uma gestão democrática e participação familiar junto à escola. Oficialmente o Ministério da Educação instituiu nacionalmente o dia 24 de abril no calendário escolar como sendo este dia o espaço de discussão destas propostas. A partir desta culminância e sensibilizando pais, alunos e docentes será possível implementar o Conselho Escolar em seu colégio.

Referências

. BRASIL. Constituição Brasileira de 1988.
. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Lei nº 9394/96.
. BRASIL. Plano Nacional de Educação – Lei nº 10.172 de 09 de janeiro de 2001. In http://portal.mec.gov.br/seb/index2






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