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Para que família?

11/08/2011
É a pergunta que a educadora Paula Bourroul propõe apresentar aos jovens para debate e reflexão em sala de aula, com atividades que abordam o papel familiar.

É do espaço do jovem na família, de suas possibilidades, responsabilidades e direitos que a pedagoga Paula Bourroul ([email protected]) -- orientadora pedagógica e educacional, diretora de escola de educação infantil, coordenadora pedagógica de ensino fundamental e médio, consultora para avaliação de evolução e desempenho escolar -- trata neste roteiro de ofcinas. A referência para o trabalho é o ensaio Abalo Juvenil, publicado na edição 10 da revista Onda Jovem.

Citando a psicóloga Maria Tereza Maldonado (Cá entre nós, ed. Integrare, 2006, pg. 141), Paula abre o tema destacando as contradições, oscilações e turbulências que marcam a vida juvenil -- fase de desafios e oportunidades, perdas e ganhos, angústias e busca de sentido para a vida – e que são capazes de transformar a rotina de pais e irmãos, tantas vezes, em uma imensa dificuldade e confusão, em um conflito sem fim, em um mundo difícil de se conviver. “Mas o que acontece no interior de nossas casas para que tanto tumulto nos invada? Este é um fato intrigante, que proponho tomar do seu começo...e o começo de tudo é...por que família? Para que família? Será que precisamos realmente uns dos outros, devendo permanecer agregados por tantos anos a algumas pessoas que acabam sendo tão diferentes de nós, com desejos e necessidades tão distintos?”, questiona a educadora.

No desenvolvimento dessa abordagem, este plano de aula trata a seguir das seguintes questões:

- o processo de socialização do homem, sua inserção na cultura
- o lugar da família na vida do indivíduo
- a ação da família na infância
- a construção familiar e o lugar de cada um
- pilares da vida familiar
- adolescência como fase de transição
- principais necessidades dos adolescentes
- o estranhamento que o adolescente causa
- necessidades dos pais na adolescência
- atitudes dos pais
- diálogo e negociação em casa
- conflitos com irmãos

Para começar, Paula propõe que os educadores, em primeiro lugar, e depois os adolescentes, reflitam sobre o lugar da família na vida de cada um de nós (“...desejo que você, educador, se aproprie da linha de raciocínio que pretendo desenvolver para, então, propor aos adolescentes uma reflexão mais rica”).

Segundo o professor Mário Sérgio Cortella: “Comparados a outros seres, somos um animal frágil: possuímos reduzida força física, não temos muita velocidade de deslocamento, nossa pele é pouco resistente ao clima e agressões, não nadamos bem e não voamos, não resistimos mais que alguns dias sem água e alimento, nossa infância é muito demorada e temos de ser cuidados por longo tempo...vivemos em um planeta que oferece condições de vida muito especializadas; um animal como nós não teria chance nas regiões polares, nas desérticas, nas florestas equatoriais, nas de inverno inclemente, nos oceanos etc. Supondo que fôssemos um animal que nada construísse, e só vivesse daquilo que nosso “equipamento natural”, o corpo, nos permite, seríamos em número muito menor e em poucos locais da Terra...
Por não sermos especializados nos tornamos um animal que teve que se fazer, se construir e construir o próprio ambiente...
Temos de enfrentar a realidade natural ( que chamaremos mundo ), lutar contra ela, romper a adaptação...
Nossa relação de interferência no mundo se dá por intermédio da ação; entretanto, não é uma ação qualquer o que nos distingue, pois todos os animais têm ação. Nossa ação, porque altera o mundo, é ação transformadora, modificadora, que vai além do que existia, alguns outros animais também têm ação transformadora.
O que vai nos diferenciar, de fato, é que só o animal humano é capaz de ação transformadora consciente, ou seja, é capaz de agir intencionalmente ( e não apenas instintivamente ou por reflexo condicionado) em busca de uma mudança no ambiente que o favoreça.
Essa ação transformadora consciente é exclusiva do ser humano e a chamamos trabalho ou práxis; é conseqüência de um agir intencional que tem por finalidade a alteração da realidade de modo a moldá-la às nossas carências e inventar o ambiente humano...
Se o trabalho é o instrumento, qual é o nome do efeito de sua realização? Nós o denominamos Cultura (conjunto dos resultados da ação do humano sobre o mundo por intermédio do trabalho).
Em suma, o Homem não nasce humano e, sim, torna-se humano na vida social e histórica, no interior da Cultura...
Um dos produtos da cultura são os valores, por nós criados para o existir humano pois, quando os inventamos, estruturamos uma hierarquia para as coisas e acontecimentos, de modo a estabelecer uma ordem na qual tudo se localize e encontre seu lugar apropriado. Só assim a vida ganha sentido ( na dupla acepção de significado e direção )...
Os valores que criamos produzem uma “moldura” em nossa existência individual e coletiva, de modo a podermos enquadrar nossos atos e pensamentos, situando-os em uma visão de mundo ( uma compreensão da realidade ) que informe ( dê forma ) os nossos conhecimentos e conceitos...
Todo símbolo ( e valores e conhecimentos o são ) está marcado pela relatividade, ou seja, só ganha sentido em relação a um determinado grupo social, situado em determinado lugar e inserido em determinado tempo histórico... sua construção é coletiva, dada a impossibilidade de existir algum humano originalmente apartado da vida social.
O principal canal de conservação e inovação dos valores e conhecimentos são as instituições sociais como a família e a Igreja, o mercado profissional, a mídia, a escola etc. ..ao contrário dos outros seres vivos, nós os humanos, dependemos profundamente de processos educativos para nossa sobrevivência ( não carregamos em nosso equipamento genético instruções suficientes para a produção da existência ) e, desse prisma, a Educação é instrumento balisar para nós...
A Educação pode ser compreendida em duas categorias centrais: educação vivencial e espontânea, o “vivendo e aprendendo” ( dado que estar vivo é uma contínua situação de ensino/aprendizado ), e educação intencional ou propositada, deliberada e organizada em locais predeterminados e com instrumentos específicos ( representada pela Escola e, cada vez mais, pela mídia ).
(A Escola e o Conhecimento, Mario Sérgio Cortella, Ed. Cortez, 1998, pág 33 a 49 )

É assim que, para sobreviver, o homem precisa ser educado, tornando-se um ser social. E será na família, no seio de um pequeno grupo de homens, algumas vezes formado por apenas um casal, um homem e uma mulher, que um pequeno ser virá ao mundo. E dependerá destes homens para sobreviver física, mental e emocionalmente. E será através destes homens que o novo ser será acolhido e receberá a cultura.

Pelo ato educativo dos adultos com as crianças e jovens se dá a transmissão da cultura de uma geração à outra, o que significa a sustentação e continuidade da própria sociedade, sua conservação e manutenção. Filiar um sujeito à cultura é dar-lhe um lugar, inscrevê-lo na sociedade.

Esta inscrição social é simbólica, portanto o registro do universo humano é simbólico, onde é a palavra, a linguagem, que dá ao homem a referência de mundo, pois é ela que organiza a vida do homem neste mundo. É a palavra que dá uma forma de representação das coisas para o indivíduo, é o ato educativo que inscreve cada sujeito na sociedade e é nesta relação de transmissão que o homem se humaniza, se socializa e se subjetiviza.

Diz-se que a relação educativa subjetiviza pois é muito particular a forma de cada ser humano entrar na lei coletiva; ele receberá leis universais, consensos, relativos a todas as áreas do conhecimento, e terá que fazer as suas próprias escolhas, viver a sua história de maneira única e particular.

Percebe como é apenas no seio de um pequeno grupo de homens, que representa a cultura, que toda criança começa a se humanizar? E que, devido à sua fragilidade física e instrumental, terá que, por muito tempo, relacionar-se com este pequeno grupo humano, a família, aprendendo com ele os símbolos sociais para, aos poucos, amadurecer e fazer sua história no mundo?

A escola será a outra instituição, além da família que, de maneira ímpar, contribuirá para a inserção do ser humano no social, na lei social, na cultura; ambiente em que o homem também passará um longo período de tempo antes de iniciar seu percurso produtivo na sociedade e na história de sua cultura (refiro-me, aqui, à infância, adolescência e juventude).

Vamos, então, ao trabalho com nossos jovens.

Atividade 1

Reunidos em duplas ou trios, os alunos devem pensar nas questões abaixo e, após discutirem entre si, tentar chegar a respostas que serão socializadas com o grupo-classe:

- O ser humano nasce como um ser social? Em que medida?
- Qual o papel da família na socialização do ser humano? E da escola?

Pedir, em seguida, que os grupos leiam o texto do Professor Cortella e procurem fundamentar as idéias que apareceram nos grupos de discussão sobre a importância da família na socialização dos indivíduos.

Atividade 2

A partir da compreensão do papel da família na transmissão da cultura às novas gerações humanas, podemos propor que os alunos, segundo sua vivência e observação, levantem as ações principais dos pais, avós... no sentido de colaborar com a hominização das crianças durante o período de recém-nascido aos 10 anos. Ex: acolhimento físico e emocional, alimentação, agasalho, sono, o desenvolvimento motor e da fala, de hábitos de higiene, manifestações de afeto e braveza ... (devem surgir aqui atitudes dos pais que colaboram para a socialização da criança e sua inserção nas regras sociais).

Tais ações podem ser representadas por palavras, desenhos ou recortes em um painel a fim de que possam ser visualizadas e complementadas ao longo das discussões sobre o assunto, podendo ser, inclusive, comparadas ao que será realizado mais adiante pelo grupo, pontuando as ações das famílias de adolescentes que também têm a intenção específica de instrumentalizá-los e inseri-los na ordem social.

Atividade 3

Leitura do texto “O abalo juvenil”, de Cynthia Sarti – parágrafos 3 a 6, pedindo aos alunos que identifiquem as idéias principais, as quais poderão ser, após a leitura, desenvolvidas pelo professor:

- cada família constrói sua história, nas relações que desenvolve, de maneira única e particular, com elementos comuns à cultura em que se encontra;
- o início do processo de socialização está na construção deste olhar particular de mundo que cada família desenvolve: a organização do mundo externo e interno;
- o processo simbólico que a socialização permite, proporcionando a todos e a cada indivíduo a ocupação de um lugar específico, que se altera ao longo do crescimento de todos;
- a singularização dos indivíduos e os lugares que estes ocupam na família ao longo do seu crescimento.

Atividade 4

Podemos afirmar que a família se sustenta em 4 pilares fundamentais: o amor (sentimento que normalmente dá origem à construção de uma família e que deve ser incentivado de maneira incondicional entre seus membros, de modo que todos se sintam respeitados em sua individualidade ), o relacionamento ( a convivência entre os membros da família que deve ter continuidade e intensidade ), o diálogo ( a comunicação que se efetiva na rotina do grupo familiar por palavras e ações ) e a confiança ( sentimento que, ao longo do tempo e da intimidade que se desenvolve entre os membros da família, deve aumentar e se fortalecer ).

Converse sobre estes 4 pilares necessários à construção da vida familiar com os alunos e proponha que eles identifiquem na vida deles próprios, no período da infância, as principais manifestações da presença dos mesmos na vida familiar.

Comece, então, a falar do momento da adolescência, etapa que marca uma transição, numa passagem da dependência da criança para a interdependência do adulto. Os próprios alunos poderão comentar quando foi que começaram a sentir as primeiras necessidades diferentes, por volta dos 10 ou 12 anos, em relação à sua vida na rotina (necessidades de afirmar seus desejos e intenções diferentes dos pais, de ter mais liberdade e independência, cortando os laços com a infância, a sensação de ruptura, de “separação psicológica” dos pais). Toda esta vivência, absolutamente normal a partir desta idade, é vital para o desenvolvimento dos mesmos como pessoas, para a construção de suas próprias identidades.

Pode-se explicar para os jovens que, para conseguir se tornar um ser autônomo, a gente precisa se afastar dos nossos pais, como que para desgrudar deles, de forma a tentar não se tornar xerox deles mesmos, mas alguém que pensa e age à sua própria maneira, fazendo suas próprias escolhas. Isso não quer dizer que faremos tudo do avesso, mas que precisamos de espaço para sentirmos nossas possibilidades de vir a ser gente grande.

Acontece que, para os pais, este é um momento muito complicado, uma vez que eles estavam acostumados a ter seus filhos sob controle quase que absoluto e bastante disponíveis para acatar sua visão de mundo, seus desejos na forma de atuar neste mundo, seus gostos e preferências.

Como a responsabilidade dos pais é atender as necessidades básicas de seus filhos em cada etapa de seu crescimento, é importante que os mesmos conheçam as características da fase da adolescência para que possam, não só conviver com elas, como crescer também eles na relação com os filhos e como pessoas, continuando a construir sua história.

Procure levantar com os alunos quais as necessidades que eles sentem como adolescentes e registre para que depois os mesmos possam voltar a elas e pensar na atuação possível junto de seus pais.

(Principais necessidades dos adolescentes: Amor/ afeto/ segurança, aceitação/respeito/compreensão, privacidade/presença dos pais,ambiente familiar tranqüilo, grupo de amigos – positivos e saudáveis-, liberdade para tomar decisões, auto-estima positiva, projeto de vida, valores éticos )

Atividade 5

É importante constatar que comumente os jovens encontram bastante facilidade em levantar aquilo que é desejo e necessidade deles, mas agora vem o pedaço mais difícil: eles compreenderem que suas atitudes, freqüentemente rebeldes e agressivas, através das quais eles imaginam estar conseguindo se desprender dos pais, são interpretadas por estes como falta de respeito e enfrentamento.

É mesmo difícil alcançar o sentimento que nossas atitudes e posturas causa nos outros, que estão fora de nós, vivendo outro momento de seu crescimento pessoal e história de vida. Assim, podemos tentar ajudá-los a olhar este momento de seu desenvolvimento do ponto de vista dos pais deles.

Procure fazer com seus alunos a leitura de outra parte da matéria de Cynthia Sarti, a que fala do lugar do jovem, os parágrafos 7 a 12. Eles podem comentar (pois adoram fazer isto!) o conteúdo deste segmento do texto, em que é possível se perceber qual o papel do discurso do jovem na família: o estranhamento que seus pensamentos, seu vocabulário e suas ações provocam em casa, a influência dos amigos e o lugar da mídia e da internet na vida deles.

A psicóloga Rosely Sayão escreveu uma crônica muito interessante, intitulada “Pai de adolescente tem que se reinventar”, a qual vale a pena, neste momento do trabalho com os jovens, ser lida para os mesmos e, talvez, enviada aos pais que, se estiverem acompanhando o trabalho desenvolvido com seus filhos na escola, sobre juventude e família, poderão ser grandemente beneficiados com sua leitura e até promover, em família, uma conversa sobre o tema.
(Como educar meu filho?, Rosely Sayão, Publifolha, 2003, pág 253 )

Atividade 6

Partindo do princípio que os jovens já alcançaram o impacto que suas atitudes causam em seus pais e porque isto ocorre, é interessante dar condições aos mesmos de, ao mesmo tempo em que têm que viver suas questões pessoais de crescimento, auto-afirmação e independentização, desenvolvam recursos de diálogo e confiança em seus pais a fim de continuar obtendo deles a necessária segurança, orientação, encorajamento e estímulo à busca de um caminho de vida saudável.

A pesquisa “Valores dos jovens de São Paulo”, realizada por Yves de La Taille e Elizabeth Harkot de La Taille, em 2005, com jovens de 14 a 18 anos, estudantes da grande São Paulo, constatou que a família é a instituição social mais merecedora de confiança dos jovens, com praticamente 100% das avaliações “confio muito” ( 80,7% ) e “confio” (16,6% ). Da mesma forma, os agentes do espaço privado (pais e amigos ) são os que são considerados como mais influentes sobre os seus valores (pais: 67,6% com muita influência e 25,1% com média influência e amigos: 25,6% com muita influência e 47,2% com média influência ).

Outra pesquisa significativa foi realizada pelo UNICEF, em 2007, que entrevistou mais de 3000 adolescentes de todas as regiões brasileiras para identificar seus interesses, valores e motivações. Segundo seus resultados “em um mundo marcado pela instabilidade dos valores, a desconfiança com as instituições sociais e as incertezas com relação ao futuro, a família representa um ponto de referência afetiva e de estabilidade. Essa instituição é extremamente valorizada pelos entrevistados: 92% têm uma relação positiva ou muito positiva com a família. Ao serem indagados por que consideram a relação com sua família muito positiva ou positiva, os entrevistados apontam: por sermos muito amigos/termos uma relação de amizade ( 35% ), por sermos muito unidos ( 29% ), por termos uma relação de diálogo ( 26% ), pela ajuda/apoio que damos uns aos outros (11% ). Do outro lado, os 7% que têm uma relação negativa apontaram as brigas, a falta de diálogo e a desunião como os motivos principais”.

Assim, procurar fazer com que os alunos reconheçam o quanto desejam liberdade e autonomia é importante, assim como identificar com os mesmos o quanto ainda necessitam de seus pais como colaboradores no sentido de fortalecê-los em seu caminho, para que ultrapassem estes anos de crescimento com conquistas pessoais sólidas, a fim de que se tornem forças positivas na sociedade, dando continuidade ao processo cultural.

Na atuação com os adolescentes, eles devem identificar basicamente 3 atitudes indispensáveis em seus pais nesta fase:

- Dar amor e limites juntos, para que sejam eficazes e solidifiquem seu vínculo afetivo como pais e filhos. Limites bem colocados significam proteção e orientação, e não punição ou demonstração de poder.

- Monitorar e observar, saber onde e com quem andam. Nesta etapa da vida em que se está construindo a capacidade de auto-proteção, saber com quem o filho está e a que horas retorna é cuidado e não controle.

- Atuar como modelo e consultor, provendo e protegendo. Os pais devem poder ouvir os sonhos e planos de seus filhos, ajudando-os a encontrar bons caminhos para sua realização.

Se for possível aos jovens perceber que tais atitudes dos pais são necessárias ainda ao seu auto-conhecimento e construção pessoal, poderá ser mais fácil desenvolver com eles um diálogo franco e uma negociação constante de liberdade e independência.

Aqui os jovens podem complementar aquela atividade em que identificaram ações dos pais na infância, agora com atitudes dos pais na adolescência.

Para que este momento seja frutífero, você, professor, que conhece seus estudantes, deve procurar uma forma de convidá-los a conversar com seus pais sobre as questões aqui colocadas para que tragam, em seguida, para o grupo-classe, comentários e posições de suas respectivas famílias em relação ao tema, enriquecendo o grupo com novas possibilidades de atuação na relação pais e filhos.

Atividade 7

Proponha aos jovens que digam o que entendem por “diálogo”, descrevam como ocorre ou não o diálogo em suas casas com seus pais e quais regras poderiam ser levadas em conta para que o mesmo se efetivasse a contento para todos.

Em seguida, faça com a classe a leitura do texto da educadora Tânia Zagury sobre o diálogo com os jovens:

“Dialogar significa “travar ou manter entendimento com vista à solução de problemas comuns”. Portanto, só se pode dizer que houve diálogo quando se chega a algum nível de entendimento. Através do diálogo chega-se ao consenso (concordância de todos sobre o assunto) ou apenas a um nível de entendimento, mas que permita sejam tomadas decisões, até, por exemplo, a de permanecer, cada um, com a sua própria idéia inicial...
Embora as reclamações dos jovens por vezes procedam, elas ocorrem muitas vezes quando o que desejam não pode ser atendido, tenha ou não havido diálogo. Quando não alcançam o que querem, “quebram o diálogo” com acusações de “autoritarismo”...
Há aí um engano na compreensão do processo dialógico, que deve levar ao entendimento sim, mas nem sempre ao atendimento do desejo da pessoa ou do grupo. E é isso que torna o diálogo tão difícil e, às vezes, impossível: a expectativa utópica e equivocada de que, conversando, todos os anseios serão concretizados...
O importante é que todos possam expressar suas opiniões e que haja vontade de entender o ponto de vista do outro...
No diálogo verdadeiro, não há vencedores nem vencidos, ninguém quer “vencer” ninguém. Há, isso sim:

- pessoas decididas a se ouvirem e se entenderem, de fato;
- análise e tomada de decisões a partir dos argumentos apresentados por todos;
- canais de comunicação abertos nos dois sentidos, isto é, uma hora um fala, depois o outro fala;
- respeito às posturas do outro: intenção real de analisar argumentos e reivindicações;
- mudança de atitudes ou decisões, quando racionalmente convencidos pelos argumentos e
- aceitação das decisões finais tomadas pelo grupo ou autoridade, ainda que nem sempre contemplem o que todos ou cada um desejava”
(Os Direitos dos Pais, Tânia Zagury, Ed. Record, 2004, pág 171 a 174 )

Estimule os alunos a falar de suas vivências com relação ao diálogo em suas casas (com certeza você conhecerá um pouco mais suas famílias, posturas e valores e isto lhe será muito útil como educador).

Segundo Cynthia Sarti “O jovem afirma-se ao se opor, fazendo do conflito algo necessário e imprescindível a seu processo de tornar-se sujeito, na família e no mundo social. O conflito é, assim, intrínseco à família, o que faz pensar nos limites do que é ou não negociável nas relações familiares, com base na indagação sobre o que constitui conflito para a própria família ( não como uma definição externa e disciplinadora), que permita a elaboração dos problemas, valendo-se de recursos que podem estar no próprio âmbito familiar. Para isto, fica a indagação: será que somos capazes de falar na hora certa e escutar mais?”.

Atividade 8

Tendo abordado o tema do diálogo com os pais, agora procure fazer com que seus alunos reconheçam as negociações que eles têm conseguido estabelecer com seus pais e irmãos.

“É na adolescência que a negociação ganha uma força especial, segundo Içami Tiba, por causa da autonomia comportamental . Da dependência infantil nasce o adolescente para uma vida nova cujo referencial passa a ser ele próprio.
É a manifestação saudável da individualização, uma espécie de separação mental e física dos pais. Agora o adolescente está atrás da sua identidade social.
Como a maioria dos seus desejos agora está mais voltada para o seu próprio eu, ele precisa aprender a negociar suas vontades com as da família...
Com os adolescentes combinam-se os resultados e as conseqüências. Quem falhar com o combinado, pais ou adolescente, que arque com as consequências já contratadas. Faz parte do amadurecimento o princípio da coerência, constância e conseqüência”.
( Adolescentes: Quem ama, educa, Içami Tiba, Ed. Integrare, 2005, pág 175 e 176 )

Assim, pode ser extremamente interessante que pelo menos alguns alunos do grupo consigam dar exemplos reais de negociação em casa, como elemento motivador a outros que ainda não o façam com sucesso.

Atividade 9

Finalmente, você proporcionará aos jovens a oportunidade de refletir e falar um pouco sobre a relação deles com seus irmãos, sejam mais velhos ou mais novos. Sabemos que no convívio entre irmãos nem tudo são flores, há muitas dificuldades, mas também realizações e alegrias. Observa-se que a maioria dos irmãos se relaciona de forma solidária, mesmo quando brigam e implicam uns com os outros. Solicite aos seus alunos que procurem identificar quais os principais motivos de seus desentendimentos com seus irmãos. Provavelmente aparecerão o ciúme, a competição, a insegurança, a sensação de menos valia ou de preferência na relação com os pais.

Proponha que eles pensem que oportunidades eles encontram, na convivência com seus irmãos, de desenvolver sentimentos e atitudes que são importantes e úteis na vida social. Eles mencionarão a possibilidade de fazer acordos, a ajuda mútua, os planos comuns, o dividir pertences e espaços, o respeito pelas coisas, sentimentos e maneiras do outro agir.
E o que será que eles podem dizer das brigas infindáveis com seus irmãos? Elas são ou não oportunidades de treinamento de resolução de conflitos interpessoais, tão necessário à vida social?

Segundo Maria Tereza Maldonado, “ A única regra a ser colocada com firmeza é: nada de violência! Os conflitos não precisam ser resolvidos à base de socos, empurrões, gritos e xingamentos. Todos ganharão aprendendo a controlar a própria raiva de modo que ninguém se machuque. Aprender a atacar os problemas sem atacar as pessoas é a base da inteligência emocional”.

Em seu livro “O Adolescente por ele mesmo”, Tânia Zagury apresenta os resultados de uma pesquisa com adolescentes brasileiros, feita em 7 capitais, na qual os mesmos falam o seguinte de sua relação com irmãos: apenas 8,8% têm um nível de competição e rivalidade a ponto de desejar que os mesmos não existissem. Por outro lado, somando os que se dão razoavelmente bem com os que se dão muito bem, temos 50,2% dos entrevistados. Isto significa que metade dos irmãos, apesar das brigas e desentendimentos, se gosta e até se ama! Ainda 34,8% afirmam ter com os irmãos sentimentos muito fortes e ambíguos ( ora amam, ora odeiam ). A autora afirma que este parece ser um sentimento comum inclusive entre irmãos adultos.

Para finalizar, o UNICEF traz importante reflexão para pais e educadores de adolescentes:

“A adolescência é acima de tudo uma grande oportunidade. Oportunidade para o próprio adolescente que vive a fase de construção da autonomia, da identidade e aprendizagens que se aceleram e abrem múltiplas perspectivas e descobertas.
A adolescência é também uma oportunidade para a família do adolescente. Enquanto na infância os pais protegem as crianças, organizam suas vidas, determinam suas rotinas, na adolescência inicia-se uma interlocução diferenciada. Se a família consegue abrir-se para um diálogo progressivo e um processo de permitir a participação dos filhos na vida e nas decisões da família, a adolescência consolida esse processo participativo e vai trazer para o contexto familiar novas relações, novas culturas e linguagens que vão ajudar os pais a revisarem suas próprias convicções e valores....pensar a adolescência como uma oportunidade implica tratar os adolescentes como sujeitos de sua própria história e não como objetos das expectativas dos adultos”.

RECADO DO ADOLESCENTE PARA A FAMÍLIA:
“O PAI MODERNO QUE NÓS QUEREMOS E PRECISAMOS NÃO É O QUE NOS DEIXA FAZER TUDO, QUE FALA PALAVRÕES E BEBE CONOSCO – O PAI QUE QUEREMOS É AQUELE QUE FALA CONOSCO, SEMPRE, MUITO E SOBRE TODOS OS ASSUNTOS, QUE NOS OUVE, RESPEITA E ORIENTA, MAS QUE TAMBÉM NOS ENSINA NOSSOS DEVERES E DIREITOS.
EMBORA MUITAS VEZES NÃO PAREÇA, NÓS AMAMOS VOCÊS, PAI, MÃE, IRMÃOS. QUEREMOS QUE ENTENDAM QUE ESTAMOS CRESCENDO E PRECISAMOS TER VIDA PRÓPRIA, MAS AINDA PRECISAMOS DEMAIS DE SEU CARINHO, ATENÇÃO, AFETO E ORIENTAÇÃO”.
( O adolescente por ele mesmo, Tânia Zagury, Ed. Record, 1996 )

Indicações bibliográficas para o professor:

Cortella, M.S.: A escola e o conhecimento – SP – Cortez Editora, 1998
De La Taille, Yves e de La Taille, E.H.: Valores dos jovens de São Paulo –in Revista Idéia, Ed. SM, ano III, no. 4
Maldonado, M.T.: Cá entre nós – SP – Ed. Integrare, 2006
Sayão, R.: Como educar meu filho? – SP –Publifolha, 2003
Tiba, I.: Adolescentes: quem ama, educa !- SP – Ed. Integrare, 2005
UNICEF – Pesquisa: Adolescentes e jovens do Brasil: participação social e política –www.unicef.org.br
Zagury, T.: O adolescente por ele mesmo – RJ – Ed. Record – 1996
Zagury, T.: Os direitos dos pais – construindo cidadãos em tempos de crise –RJ - Ed. Record - 2004

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