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Resgate de memórias

27/02/2013
Veja um bom exemplo de como incentivar a leitura e a escrita entre os jovens.

O Onda Jovem reúne nesse espaço experiências de educadores que, através de alguma ideia inovadora fizeram a diferença em relação a educação para jovens. O objetivo é divulgar esses projetos e incentivar outros profissionais da área á seguirem caminhos diferentes na hora de passar o conhecimento.

Nosso primeiro relato é o do professor cearense Antonio Oziêlton de Brito Souza, ganhador do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 em 2012, promovido anualmente pela Fundação Victor Civita. Diante do descaso dos seus alunos do 8º ano com a literatura e a escrita, o professor de língua portuguesa resolveu criar um projeto baseado nas memórias escolares de cada um. O resultado foi encantador. Leia aqui todo o processo dessa empreitada, assista o vídeo no final e inspira-se para repetir com seus alunos ou enviar sua própria declaração:

 

Professor cearense explora as recordações dos próprios alunos em projeto

 

Divulgação/Fundação Victor Civita

O cenário era comum ao de muitas salas de aula do Brasil: alunos desmotivados e sem o aprendizado adequado ao ano em que estavam matriculados, numa escola pública da zona rural. No início de 2011, essa era a realidade de uma das classes de 8º ano da EEF Odilon de Souza Brilhante, em Ocara (CE), a 100 quilômetros de Fortaleza. Um texto, para eles, era um amontoado de palavras a decodificar, sem muito sentido. Por isso, a maior parte deles mostrava aversão à leitura. Não à toa, em escrita o nível de proficiência era equivalente ao de estudantes do 3º ou do 4º ano.

Ex-aluno da Odilon, o jovem e inconformado professor de língua portuguesa Antonio Oziêlton de Brito Souza, de 27 anos, alterou o roteiro dessa história e não deixou a turma rumar ao fracasso. Sensível ao estágio em que os alunos se encontravam, ele apostou no gênero memória literária para conquistar a motivação do grupo. “São crianças de famílias baixa renda, boa parte filhos de pais agricultores analfabetos, com pouco ou nenhum acesso a bens culturais. Mas memória todos nós temos e então foi com isso que decidi trabalhar”, conta. Por meio de um projeto bem planejado, intitulado “Memória todo mundo tem”, Oziêlton trabalhou as práticas de leitura e de produção de textos, com especial atenção às questões gramaticais. Como resultado, aquela que era considerada a turma mais apática da escola tornou-se a que mais visitou a biblioteca – e que dela tomou livros emprestados – em 2011. E mais, no final do ano, já podendo se considerar escritores, lançaram uma publicação própria, com textos autorais em homenagem a diversos professores da escola. Provaram, afinal, o que deveria ser o norte de qualquer educador: que todos os alunos podem aprender.

O projeto rendeu ao professor Oziêlton o Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, promovido anualmente pela Fundação Victor Civita. Em sua 15ª edição, a premiação seleciona dez docentes e um diretor, autores projetos educacionais de sucesso (leia mais aqui).

Reconhecendo dificuldades
No primeiro contato com a turma de 34 alunos com idades entre 12 e 14 anos, Oziêlton confessa que ficou bastante assustado. Os relatos na escola não eram nada bons e o desafio, enorme. “Eu só ouvia reclamações de que eles não aprendiam, não rendiam, eram hostis.

Com paciência e sem precipitações, Oziêlton dedicou um bimestre à observação e ao diagnóstico da situação. Constatou que o desinteresse dos estudantes tinha raízes na forma como os conteúdos eram trabalhados, quase sempre sem sentido, desconectados da realidade do grupo. “No começo, não entrava na minha cabeça: por que eles não gostavam da escola? Na minha época, eu adorava. Por que não havia aquele carinho, compreensão e dedicação de antes?”, questionava-se. E foi exatamente dessas lembranças que surgiu a ideia de trabalhar os conteúdos de língua portuguesa explorando as recordações dos próprios alunos. O rótulo de turma difícil não impedira uma relação de afeto entre eles e a comunidade escolar nos anos anteriores. “Todos temos uma memória de alguém de quem gostamos”, pensou.

Com o mote definido, Oziêlton partiu para diagnósticos mais precisos do nível da turma em relação à leitura e à produção de texto. O professor provocou a turma com gravuras que remetiam à Educação e pediu que cada um escolhesse uma imagem e contasse oralmente um pouco da própria trajetória escolar. Vencida a resistência inicial de alguns, os relatos se sucederam. A tarefa seguinte foi escrever um texto registrando essas memórias: quais os melhores momentos, os professores e os fatos mais marcantes?

Ainda nesse primeiro módulo de atividades, chamado de “Meus professores inesquecíveis”, os alunos foram convidados a assistir e a fazer uma leitura critica do filme “Meu adorável professor” (EUA, 1995) e a listar no quadro todas as características que fazem um professor se tornar inesquecível. Com a ajuda do dicionário, os estudantes procuraram entender a diferença entre os termos memória e memórias. A cada produção textual, questões gramaticais ganharam foco e significado. Ao produzirem a lista no quadro, por exemplo, Oziêlton explicou o uso e a importância da letra maiúscula.

No segundo módulo, “Meu professor inesquecível”, o objetivo era fazer a turma ler, compreender e analisar textos de memórias. O título dessa etapa era propositadamente o mesmo de um texto do escritor Marcos Rey, lido pelos estudantes. Quais eram, para eles, os professores inesquecíveis? O que eles haviam feito de especial? Depois de muita troca de ideias sobre essas perguntas, os alunos listaram nomes, criaram caricaturas de seus preferidos e registraram, para cada um, uma atitude admirável, ideias legais, valores e caminhos por eles trilhados e que mereciam ser seguidos. Por fim, apresentaram oralmente seus escolhidos para o grupo.

Profundidade no tema
O terceiro módulo, “Conhecendo outras memórias”, ampliou o universo do tema. A meta era ampliar o repertório e, ao mesmo tempo, levar aos jovens assuntos como coesão, coerência e vocabulário. O destaque dessa fase, atividade realizada em grupos, foi transcrever do oral o relato das memórias da bibliotecária da escola. “Ouvir o depoimento dela e depois transforma-lo em palavras foi um desafio para eles”, relembra o professor. Os textos foram avaliados de forma coletiva e, posteriormente, reescritos.

A quarta etapa, denominada “Visitando memórias”, levou os alunos mais uma vez à biblioteca, onde todos realizaram leituras silenciosas de textos de memórias e emprestaram livros para levar para casa. Outros textos foram pesquisados na internet e depois discutidos em sala, para a montagem de um painel.

Oziêlton propôs então uma comparação dos textos novos com as produções iniciais dos alunos – e, ao mesmo tempo, analisou com eles o uso dos tempos verbais e pronomes. Foram destacadas as características principais de um texto de memória, como a presença do narrador-personagem e dos pronomes em primeira pessoa.

A produção final
O quinto módulo (“Memórias que eu vivi”) privilegiou o ensino das regras de pontuação com base na reescrita das produções iniciais e na leitura dramatizada de um texto de Fernando Sabino. Munidos da caricatura de seus docentes preferidos, os estudantes começaram a produzir seus textos finais, retomando o tema “Meu professor inesquecível”.

A sexta etapa, “Lembranças que me fazem autor”, serviu para a revisão e a consolidação da coletânea, em dois volumes, que recebeu o nome de “Leituras marcantes, escrita constante”. No evento de lançamento, professores homenageados nos textos apreciaram uma sessão de leitura pelos próprios autores. “Tinha aluno que nunca havia lido nada em voz alta”, ressalta Oziêlton. “Foi um intenso processo de interação social, no qual eles se sentiram agentes do conhecimento.”

Orgulho
A autonomia que os alunos ganharam na leitura e na escrita deu ao jovem professor a sensação de missão cumprida. “A escola é o único contato sistematizado deles com o letramento e a escrita. Eles tinham aversão ao texto, não tinham uma relação amorosa e cotidiana com as palavras e sei que isso mudou”, afirma Oziêlton. “Eu tinha duas opções quando me deparei com a situação: reclamar e esperar que algo acontecesse ou tentar intervir. Escolhi a segunda, mais trabalhosa, mas muito mais gratificante.”
Oziêlton ainda conta que o projeto melhorou o relacionamento dos estudantes com os docentes. “Percebi que eles gostavam de alguns, apesar dos problemas, e vi que podia usar isso a favor do ensino. Todo mundo tem um professor por quem guarda algum carinho”, diz.

Destino traçado
Oziêlton formou-se em letras com 23 anos pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), e, desde então, começou a lecionar. Atualmente, dá aulas para o 3º ano do Ensino Fundamental e para os dois últimos do Ensino Médio.

Sempre estudou em escola pública – o Ensino Fundamental foi realizado inteiramente na Odilon, que hoje tem 460 alunos da creche ao 9º ano. “Voltar para a escola foi um marco na minha vida. Foi incrível reencontrar pessoas que foram meus professores e me acompanharam por tantos anos e, agora, são meus amigos”, conta, orgulhoso. Ele já está lá há dois anos. “Esse retorno era meu sonho e, quando consegui, cheguei com uma nova visão: a de professor.”

Ao contrário de muitos jovens, Oziêlton sempre quis seguir essa profissão. “Eu sempre gostei de liderar – sempre me engajei e na escola e na faculdade ocupei cargos de representante da turma”, lembra. “Sempre quis guiar as pessoas no caminho da aprendizagem.”

Para ver um vídeo sobre o projeto do professor Oziêlton, clique aqui.

Fonte: Todos pela educação

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