Feito com as mãos
A ação do Instituto Sou da Paz tornou-se referência no combate à violência ao combinar foco especial na juventude, mobilização e parcerias
05/03/2012
Por Lélia Chacon
| Sete anos atrás, uma manifestação fincava 53 cruzes no Parque do Ibirapuera para denunciar a violência na cidade de São Paulo. “Era o número de assassinatos nos fins de semana na capital”, lembra Denis Mizne, 31 anos, fundador e diretor executivo do Instituto Sou da Paz, que promovia o ato. Neste ano, no último fim de semana de julho, foram registrados três homicídios. “O frio naqueles dias, que tirava as pessoas da rua, pode ter tido influência, como disseram, mas, no fim de semana anterior àquele, houve 14 assassinatos. A redução tem sido contínua. É para comemorar!”, diz Denis. O que mais entusiasma Mizne é ver uma nova abordagem dando resultados: uma combinação de políticas de prevenção e segurança pautadas por valores democráticos e focadas, em especial, na juventude. Era essa sua aposta como líder estudantil ao conduzir, com outros movimentos de estudantes, a campanha “Sou da Paz pelo Desarmamento”, em 1997, que deu origem à criação do Instituto, dois anos depois. “Éramos estudantes, mas conseguimos um movimento de gente grande, atraindo parceiros estratégicos, com grande mobilização na sociedade e visibilidade na mídia”, lembra Denis, que na época presidia o centro acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Foco, parceria, mobilização e visibilidade fizeram o sucesso da campanha e também explicam a trajetória bem-sucedida do Sou da Paz, em apenas oito anos de atuação. Criado em 1999, até o início de 2000, o Instituto e sua causa ocupavam algumas noites e fins de semana de 15 pessoas, todas voluntárias. Hoje, a instituição tem uma estrutura com 60 profissionais, todos funcionários, vários projetos em andamento, sendo quatro no segmento de juventude, e um orçamento de R$ 4 milhões em 2007, em razão de parcerias, em especial com empresas. “Acho que surgimos no lugar certo, na hora certa, com a idéia certa”, diz Denis. A hora e o lugar certos vinham a reboque de uma pesquisa que colocava, pela primeira vez, a violência e a segurança como primeiras preocupações do paulistano. Outros estudos divulgavam que quem mais matava e morria eram jovens, que em 90% dos casos o crime envolvia armas de fogo e que 60% desses homicídios tinham motivos banais. “A motivação para nós, estudantes, agirmos era gritante: nossa gente está se matando à toa”, lembra Denis. Na idéia que resultou na campanha, certeira foi a abordagem: “Não pedíamos repressão, vingança. A proposta era inovadora, falava de paz, mudança de atitude. Assim, conquistamos parceiros importantes e a visibilidade necessária, inclusive o símbolo que se tornou nacional: a pomba feita com as mãos”, conta Denis. O símbolo virou marca do Sou da Paz, que nasceu quebrando o paradigma que envolvia o debate sobre violência – “histérico e estéril”, segundo Denis. De um lado, a visão conservadora, de resolver a questão com mais repressão. De outro, o discurso progressista postulando somente o ataque das causas sociais, ainda que isso demore décadas. “Não acreditávamos em porrada ou em cesta bá-sica, mas em combinar prevenção com repressão, na perspectiva dos direitos humanos, atuando nas comunidades com os jovens, o governo e a polícia. A solução estava na resolução pacífica de conflitos e, para isso, era preciso trabalhar a violência nos lugares violentos, o que nenhuma organização fazia na época. Foi um de nossos diferenciais estratégicos”, afirma Denis. Outro foi o foco na juventude. Os dados mostravam os maiores índices de homicídios na faixa de 15 a 24 anos, principalmente nos bairros da periferia de São Paulo. “A juventude é fase de aprendizado, inquietação, questionamento. A escolha de trabalhar positivamente essa potência tem efeito estratégico para a construção da paz”, diz Marcus Góes, 30 anos, coordenador da Área de Adolescência e Juventude do Instituto. |
| Valor da militância O primeiro projeto da organização, Grêmios em Forma, iniciado em maio de 2000, somou as definições estratégicas com o passado de militância estudantil do grupo. “A gente vinha dessa realidade e resolveu apostar nessa experiência para fomentar a criação de grêmios em escolas públicas como forma de diminuir a violência”, explica Denis. O financiamento para o projeto resultou de outra característica que o Sou da Paz preza como meta permanente: o diálogo com o poder público, construído na época da campanha do desarmamento. O programa Paz nas Escolas, da Secretaria dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, apoiou a iniciativa. Um mapeamento com a polícia definiu os alvos de atuação: os bairros com os maiores índices de criminalidade na cidade. Uma consulta a interlocutores nas comunidades apontou as escolas mais problemáticas. Foram 9 em 2001, até chegar a 21 escolas, em 2005, último ano do projeto. “Atuávamos com as diretorias das escolas, aumentando o diálogo da instituição com os alunos. Com os jovens, trabalhávamos muito a questão das relações, do acolhimento, da diversidade. De tudo isso, resultava a instalação do grêmio. O retorno era maior participação e melhor convivência do aluno na escola e menos agressões e depredações”, diz Góes. Diones Costa Gomes Ferreira, 18 anos, participou da experiência em uma escola do Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. “Já tínhamos um grêmio, que só servia para organizar festa. Aprendemos a transformá-lo num canal real de participação, de desenvolvimento de projetos e até de melhoria do ensino na escola. Os projetos mobilizavam os estudantes. Antes, sem motivação, eles brigavam à toa. Pessoalmente, meu aprendizado foi fantástico. Fui eleito presidente do grêmio, ganhei muita responsabilidade, era cobrado, tinha de servir de exemplo. Mas ganhei no troco: tinha reconhecimento na comunidade. Hoje, meu vice é o presidente”, conta Diones. Em algumas escolas os grêmios não tiveram continuidade. O projeto foi repensado. Segundo Marcus, três eram os principais “gargalos”: a falta de uma cultura de participação política por parte dos jovens; falta de projeto pedagógico nas instituições de ensino, e constante troca de diretores nas escolas, comprometendo o diálogo com os estudantes. “Era a hora de inovar diante da dificuldade”, diz Denis. O projeto, rebatizado de Rede de Grêmios, ganhou nova metodologia, envolvendo o professor. “Ele agora é a figura de referência para o grêmio e para a cultura de diálogo e participação que se abre na escola. O professor e os alunos têm encontros mensais”, diz Góes. |
| Confiança para a paz Outros três projetos do Sou da Paz envolvem diretamente os jovens: o Criança Esperança que, em São Paulo, é tocado pela instituição e consiste na requalificação de centros comunitários para oferecer atividades a crianças, adolescentes e jovens; o Praças da Paz, que é a segunda edição do projeto Pólos da Paz; e o Juventude e Gênero em Espaços Públicos, iniciativa que surgiu de um questionamento no Pólos da Paz – por que as meninas ocupam menos o espaço público do que os meninos? – e virou ação. Nesse projeto, realizado nos bairros do Campo Limpo e Jardim Ângela, seis grupos de jovens foram capacitados para dar formação em encontros comunitários, discutindo relações de gênero e realizando experiências artísticas. Uma exposição refletirá o diálogo construído. O Praças da Paz, iniciado este ano, objetiva revitalizar praças públicas na periferia de São Paulo, criando espaços para cultura, esporte e cidadania. Os principais agentes da paz são os jovens, mobilizados para o cuidado, o investimento e a ocupação democrática das praças. “A ocupação promovida pela revitalização dos espaços de forma coletiva restabelece as relações de confiança. O espaço público se torna um local de aprendizado para a negociação de interesses coletivos e a resolução dos conflitos pelo diálogo”, diz Marcus, acrescentando que todos os programas com jovens envolvem oficinas de formação, que os preparam para atuar em suas comunidades na perspectiva de garantir direitos humanos. “Os programas sempre se iniciam com a construção de vínculos na comunidade, para a construção de relações de confiança. Vão quatro, cinco reuniões até algo deslanchar. Enfrentamos resistências, disputas, mas a gente fica e logo diz que não vai ficar para sempre, que temos metas, prazos. Vamos especialmente ajudando a abrir portas, criando espaço real de participação e decisão, agindo como facilitadores na abertura de pontes para o diálogo”, conta Denis. |
| Boas práticas e desafios A atuação nas comunidades é combinada ao trabalho com órgãos policiais, como o projeto Polícia Escola, de capacitação de policiais militares para atuar com segurança nas instituições de ensino, e o Prêmio Polícia Cidadã, em que o Sou da Paz acompanha, identifica e premia boas práticas policiais. “Essa ação valoriza o policial, incentiva a replicação da boa prática e permite que a população saiba dela e reclame sua adoção por todos os policiais”, explica Denis. O conjunto de ações permitiu ao Sou da Paz acumular conhecimento sobre as questões da violência e as políticas de segurança pública, tornando-se um parceiro desejável para a implantação de projetos na área. E ser referência gera receita. O Instituto já deu consultorias, por exemplo, para os municípios de Diadema, São Bernardo e a Prefeitura de São Paulo. Nesta, o projeto piloto São Paulo em Paz foi transformado este ano, por decreto, em um programa municipal. “A gente quer isso: influenciar a ação do poder público, não substituí-lo”, diz Denis. Projetos de intervenção estratégica que articulem cada vez mais as comunidades com o poder público e a polícia são uma das metas do Instituto. Até 2011, a organização também tem planos de trabalhar em três novas áreas: cultura e valores, para influenciar diretamente o comportamento relativo à violência; justiça criminal, contemplando o aprimoramento de leis, e sistema prisional. “Sempre pensamos grande. Nosso lema é dar passos até 1/3 maiores que as pernas”, diz Denis. |



