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Educando corações

A psicóloga americana Diane Tillman, que dirige o Programa Vivendo Valores na Educação, com ações em 85 países, inclusive no Brasil, diz que a promoção da paz não pode se basear apenas na educação das mentes

05/03/2012

05/03/2012

Por Cecília Dourado

Pequenas demonstrações de respeito podem mudar a vida de uma criança ou de um jovem, criando as condições para que se viva em um ambiente de paz e amor. Esta foi uma das descobertas feitas por Diane Tillman nos 23 anos em que trabalhou como psicóloga em escolas públicas nos Estados Unidos, fazendo aconselhamento para pais e lidando com jovens e crianças com problemas de comportamento. 

Respeito, amor e paz estão entre os doze valores em que se baseia o seu trabalho atual, como diretora e principal autora de livros do Programa Vivendo Valores na Educação (VIVE), que tem o apoio da Unesco e atua em 85 países, inclusive no Brasil, onde trabalha em parceria com a organização Brahma Kumaris (www.vivendovalores.org.br). Esta instituição desenvolve projetos para educadores e também atua diretamente com jovens e crianças em situação de risco – moradores de rua, usuários de drogas, vítimas de guerras e catástrofes. A metodologia se apóia em 12 valores básicos e universais, com o objetivo de dar a esses jovens e crianças uma nova perspectiva de vida e a possibilidade de alterar comportamentos inadequados e agressivos. 

Tudo começou com uma pesquisa, realizada em 1995, em que os entrevistados eram solicitados a visualizar e descrever “um mundo melhor”. Milhares de pessoas, crianças e adultos foram entrevistados em 129 países, e as respostas revelaram que, na essência, o sonho era o mesmo para todos, independentemente da religião, cultura e classe social, e sempre se baseava em 12 valores: paz, respeito, amor, cooperação, liberdade, felicidade, honestidade, humildade, responsabilidade, tolerância, simplicidade e união. 

No ano seguinte, um grupo de educadores se reuniu na sede do Unicef, em Nova York, para discutir o resultado da pesquisa e daí surgiu a VIVE (LVEP, na sigla em inglês), que trabalha pela adoção desses valores. 

Autora de 12 livros, Tillman está, aos 58 anos, escrevendo um livro para crianças. Ela deu a seguinte entrevista para Onda Jovem.
Onda Jovem: Como esses doze valores se aplicam aos jovens?

Diane Tillman: Os doze valores são universais, ou seja, são valores humanos. Ensinam-nos a tratar com dignidade todas as pessoas, o que promove o bem-estar dos indivíduos e da sociedade. A experiência nos mostra que todo jovem se importa com os valores e tem a capacidade de criar e aprender, desde que tenha oportunidade. O jovem reage diferentemente quando você acredita que ele é bom e o respeita. Criando-se uma atmosfera baseada em valores, o aluno vai para frente e aprende a fazer escolhas com consciência social. Temos muitos casos de jovens violentos que se tornaram exemplos de convivência pacífica com colegas e líderes. 
Qual é o papel da escola e do sistema educacional na promoção da paz?

É essencial que a escola promova a paz, pois a educação é o meio básico de criar mudança na sociedade. A maioria das escolas em todo o mundo ensina os alunos “a fazer” e “a saber”. Como diz Jacques Delors no seu livro Educação, um Tesouro a Descobrir, também devemos ensinar “a aprender a viver uns com os outros” e “a ser” para combater a intolerância e falta de coesão social. Se educarmos os corações e não apenas as mentes, as pessoas podem começar a aplicar os princípios da paz e do respeito nas suas interações diárias com familiares, colegas e amigos, e também nas suas práticas profissionais. 
É fácil confundir paz e segurança. Qual a diferença entre esses dois conceitos?

Paz e segurança são estados em que uma pessoa sente que não corre perigo. Mas a “segurança” muitas vezes é garantida pela violência. Pode-se chamar de segurança, mas nunca de paz, ter diversos guarda-costas. A paz é muito mais que a ausência da guerra ou violência. Para a pessoa, a paz é um estado de bem-estar e tranqüilidade. Entre grupos, a paz é um estado de aceitação e justiça. 
Como promover a paz e os outros valores detectados pela pesquisa?

O mais importante para iniciar a construção da paz é explorar o seu próprio coração. Por que você quer a paz? Como você se sentiria se houvesse paz – no seu coração, com os seus amigos e familiares, na sua escola ou local de trabalho, na sua cidade, no seu país, no mundo? Este é o ponto de partida. Abrindo-se para as suas próprias idéias sobre o assunto, as pessoas ficam mais motivadas para criar um ambiente de paz. Os jovens devem aprender a encher a si mesmos de paz, amor, respeito e força. Também incentivamos os jovens e crianças a criar paz na arte, com poesias, textos, teatro, música e dança. 
Não há o risco de, ao tentar promover a paz, sufocar ou eliminar os conflitos?

Nós ensinamos a resolução dos conflitos e não a sufocá-los. Proporcionamos atividades que ajudam jovens e crianças a ouvir, entender e identificar os sentimentos dos outros e os seus, e a se comunicar. Nós os ajudamos a desenvolver habilidades para lidar com as relações intrapessoais e interpessoais. Queremos que crianças e jovens consigam pensar independentemente e que visualizem diversos resultados para as suas ações. Ajudá-los a pensar em alternativas pode ser uma grande proteção porque eles aprendem que têm o poder de fazer escolhas, que podem reagir a um determinado problema de maneira construtiva e não apenas com raiva, e isso contribui para a segurança deles. 
Não acontece de os jovens se sentirem ressentidos com atividades sobre paz, como se se tratasse de uma “doutrinação”?

A nossa metodologia leva os educadores a ajudar os jovens a se sentirem amados, respeitados, valorizados, compreendidos e seguros. Nenhuma das atividades é “moralizadora”, e a relação entre professores e alunos não é dogmática. Pelo contrário, os educadores ajudam os jovens a desenvolver os seus próprios valores. Perguntamos a eles o que contribui para que eles sintam paz, como eles e outros se sentem quando as coisas ruins acontecem. As atividades ajudam a desenvolver a capacidade de comunicação construtiva e atitudes que criam cooperação. Por exemplo, se alguém diz alguma coisa discriminatória sobre outra pessoa, o jovem pode dizer algo como “o mundo não seria muito interessante se fôssemos todos clones”. Ele se afirma e deixa bem claro que não concorda com o que o outro disse, mas sem ser agressivo. 
Vamos fazer de conta que a senhora está respondendo àquela pesquisa de 1995. Qual é o seu sonho para a humanidade?

Um mundo em que todos recuperem os seus valores naturais de paz, amor, honestidade e respeito – conseguindo assim viver em paz, bondade e felicidade. O meu sonho é que cada criança seja criada, cuidada e alimentada de forma saudável e que cada homem e mulher seja tratado e trate os outros com respeito e dignidade.Também tenho esperança de que todos nós possamos dar um passo adiante e tratemos a nossa preciosa mãe Terra com esse mesmo amor e respeito. 
O que a senhora tem a dizer para os jovens brasileiros?

Cada um de vocês é importante. Cada sorriso e cada ato de bondade, paz e afeição é inestimável. Muitas pessoas se sentem rejeitadas, despercebidas ou intimidadas e ameaçadas. Não se deixe desanimar com a situação em que o mundo está. Pelo contrário, fique ainda mais determinado a dar uma contribuição, a deixar a sua marca positiva. Faça um diário e escreva sobre os seus sentimentos todos os dias. Aprenda a aceitar, amar e ter paciência consigo mesmo, e as suas boas qualidades vão florescer. Quando agimos de acordo com os nossos valores, fazemos uma diferença positiva e a nossa harmonia e felicidade aumentam.