Você está aqui: Página Inicial Acervo Edição 9 “Rap é o som da paz”

“Rap é o som da paz”

O entrevistado, o rapper Rappin Hood, morador da periferia de São Paulo, diz que o hip hop é pacifista, embora reflita a violência da sociedade

05/03/2012

05/03/2012

Por Marilena Dêgelo

Negro e morador da periferia de São Paulo, o músico Rappin Hood, 34 anos, sente quase na pele a violência vivenciada por jovens das comunidades mais pobres. Há 20 anos, ele encarava essa mesma situação, mas encontrou um caminho diferente no rap, com o apoio de projetos sociais no centro da cidade. De atendido passou a educador e hoje defende novos programas educacionais, artísticos e esportivos voltados para a juventude. 

“É importante criar telecentros e cursos para ocupar a cabeça desses jovens que vivem à toa. A mente vazia é a oficina do diabo, quase sempre leva à violência”, diz o rapper, que ganhou o nome artístico inspirado no lendário herói Robin Hood, por causa das letras de suas músicas. 

Paulistano, batizado Antonio Luiz Júnior, Rappin participa das atividades do Jardim Arapuá, perto da favela Heliópolis, onde cresceu e ainda mora com a mulher e o filho Martin, de 5 anos. Ele se orgulha de ser uma referência positiva para os jovens. Já fazia rap quando era office-boy. Tentou se formar em Educação Física, mas, sem dinheiro para pagar a faculdade, parou e foi se dedicar à carreira de músico. Recentemente, entrou na Universidade Zumbi dos Palmares, que prioriza os alunos negros, para cursar Administração de Empresas, e de novo trancou a matrícula. Desta vez, por causa do sucesso profissional. 

Em suas músicas, Rappin prega a paz e a interação dos jovens. Conquistou um Disco de Ouro com a venda de 50 mil unidades de seu segundo CD solo, Sujeito Homem 2, lançado pela Trama. Agora, está gravando novo disco por selo próprio. A seguir, os principais trechos de sua entrevista:
Onda Jovem – É possível combater a violência na sociedade brasileira?

Rappin Hood – Acho possível, mas não é uma tarefa fácil porque a violência está inclusa em nossa sociedade. Apesar de dizerem que este é um país do bem, da paz, o Brasil é violento, sim. Tem vários tipos de violência sendo praticados todos os dias, e a gente quase não percebe. Tem a violência doméstica, dos grandes latifundiários contra os pequenos, dos preços altos, da corrupção, da falta de saneamento básico e de vagas nos hospitais... 
E a violência nas ruas, dá para ser combatida?

É uma questão de infra-estrutura. Na hora que se entender que é melhor construir escolas do que presídios, talvez se consiga diminuir essa parcela de violência. Na hora em que o povo for esclarecido sobre o controle da natalidade, o combate e a prevenção ao uso de drogas, tudo isso vai diminuir. 
E qual é o papel da escola nisso?

A escola é importantíssima e tem de absorver cada vez mais a cultura da qual o jovem gosta. Sou a favor de as escolas terem cursos de música e serem abertas nos fins de semana para a família. No colégio, eu fiz parte da fanfarra e aprendi a ler partitura. Eu não tinha dinheiro e fui buscar conhecimento onde era de graça. Na igreja, aprendi a tocar vários instrumentos. Então, toda a sociedade deve absorver esses jovens, em atividades. Mas a escola é a base de tudo, embora o sistema educacional brasileiro esteja cada vez pior. Quem educa a sociedade brasileira é a TV, e nem tudo o que passa na TV é certo e é bom. 
Você acha que alguns programas de TV levam os jovens a praticar a violência?

Induz a isso. O capitalismo e o consumismo mostrados pela TV levam os jovens a cometer erros, sim. Ninguém quer ser pé-rapado. Todo mundo quer andar com um bom tênis, ter uma moto, um bom carro. Eu não acho que o fato de a pessoa ser pobre justifica fazer algo errado. Porque eu não fui fazer. E muitos não vão fazer. A maioria que mora na periferia não é bandido. Se esses jovens tivessem mais oportunidades de educação, de cursos profissionalizantes ou de um primeiro emprego... Aqui na minha comunidade existe o Clube Arapuá, que é nossa área de lazer, onde joguei bola e venho hoje com meu filho. Tem um grupo que fica a tarde toda lá, sem fazer nada. Não posso dizer que são todos vagabundos. Mas, qual é a opção deles? Aqui poderia haver aulas de basquete, vôlei... Mas não há projeto do governo no bairro. Então, eles vão para a escola pela manhã e, como não têm dinheiro para pagar um curso de computação, ficam à toa. 
Você também passou por isso quando era mais jovem?

Eu fui um garoto assim, tive uma fase de desempregado. Hoje eu vivo da minha música, que prega contra a criminalidade, a violência, a discriminação e o governo que rouba. Já fiz show no morro e na cadeia. 
Como foi sua trajetória em projetos que lidam com a proteção de jovens?

Eu comecei como um oficinando, quando era office-boy e freqüentava o Metrô São Bento e a Galeria 24 de Maio, no centro de São Paulo. Lá, eu conheci o Geledés, o Instituto da Mulher Negra, que tinha o projeto Rappers, com algumas oficinas. Eu assisti a várias e, quando foi criado o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente no Ipiranga, fui indicado pelo Geledés para ser um dos oficineiros. Depois de dois anos e meio, eu passei a ser também um educador de rua para acompanhar a molecada com passagem pela Febem que estava em liberdade assistida. Fui me envolvendo cada vez mais com essas questões e assumi por um ano a presidência do Centro de Defesa. Até hoje eu faço palestras lá sobre rap e hip hop. Acompanho tudo o que acontece na minha comunidade, como o projeto Bate Lata, que é de afro-reggae. 
Essas organizações têm projetos que estão afastando os jovens da violência?

Eu sou um fruto desses projetos de inclusão, que ajudaram em minha caminhada. Eu poderia ter tomado outro rumo. Poderia ter sido mais um ladrão, mais um traficante. Esses projetos foram um respaldo para mim. Abriram uma porta. Eu me identifiquei com a proposta deles, como outros: o DMN, os Racionais, os Metralha, que também tocavam lá. Os projetos foram importantes para uma geração. 
Como a juventude pode contribuir para a promoção da paz?

Os jovens não são violentos. Eles praticam a violência, mas muita violência é praticada contra eles. Alguns precisam perceber que um cara não é seu inimigo porque curte outro estilo musical, torce para outro time ou tem outro tom de pele. Temos de buscar juntos uma sociedade melhor para todos. Os jovens devem se politizar. Política é chato, mas governa nossa vida. Eles devem entrar na política, começando pelo grêmio da escola. Muitas mudanças em nosso país foram feitas pela juventude. Hoje a UNE está em outras mãos porque os que conseguem estudar não são os pobres que querem revolucionar. Mas a Tropicália foi um movimento musical criado por jovens que agora são formadores de opinião e estão até em posições de comando no país. 
Qual é a contribuição da arte para a paz?

A arte é um dos maiores veículos para o povo pobre e para o povo negro. Pode contribuir tanto como agente reivindicatório como educacional. Mas todos podem contribuir para a paz, tanto nos projetos como no cotidiano: o dono de uma metalúrgica, a escola de samba... 
Em suas letras, você contesta o rap como um discurso a favor da violência.

Eu digo que o rap é o som da paz, mas, pregando a paz, muitas vezes a gente encontra a violência. Um cara vai ao show, bebe, fica louco, arruma briga, aí dizem que o rap é violento. Mas é a sociedade como um todo que está violenta. O rap é um espelho da sociedade, fala dessa violência e mostra essa violência. 
Mas as letras dos rappers têm uma provocação para a luta pela igualdade.

Eu me identifico muito com o discurso de não-violência de Martin Luther King. Por isso, escolhi o nome dele para meu filho. Eu não vou atacar a violência com violência. Os governantes já estão praticando a violência contra nós. O povo precisa de cultura e educação para saber como buscar o que lhe é de direito. A gente tem de usar a inteligência para reivindicar e cobrar do vereador e do deputado. Precisamos preparar pessoas para exercer esses cargos e fazer alguma coisa por nós. A violência não leva a nada. 
Sua formação religiosa ajudou a afastá-lo da violência?

Ajudou. Passei pelo catolicismo, pelo evangelismo, pelo espiritismo, pelo budismo... Sem acreditar que existe uma força maior, que governa e pode mudar o mundo, fica difícil vencer. A religião tem papel importante na busca pela paz porque é um dos aglutinadores do povo. Um pastor, quando fala em uma igreja, pode fazer a pessoa pensar de maneira diferente em relação à violência. Precisamos dialogar, mas sem a vaidade do tipo ‘eu sou crente, você é católico; eu sou de tal partido e você é de outro’. Nenhuma mudança será feita por uma parcela da sociedade. A revolução não será feita pelos rappers. Qualquer mudança precisa de muita gente, de diferentes classes sociais, cores ou religiões. 
Você se sente vítima da violência policial por ser negro?

Que a polícia é racista todo mundo sabe. Ainda hoje eu tomo geral. 
Como combater esse tipo de violência?

Não tem jeito, está embutido na sociedade brasileira. Sempre vai ter um cara que não gosta de negão. E também existe o negão rancoroso, que não vota em branco. Eles não entendem que o Brasil é multirracial. Precisamos aprender a viver com as diferenças. Eu gosto de absorver outras culturas: saber como esquimó faz iglu ou como europeu toca. O mundo tem de ser assim. 
Com sua música, você acredita que ajuda a afastar os jovens da violência?

Eu tento ajudar, mas eu sou um grão de areia. Há uma parcela de jovens que me ouve. Mas a grande saída está nos projetos sociais. Eu quero montar um curso de música para jovens em uma área da prefeitura com instrumentos abandonados aqui do bairro. Do Clube Arapuá saiu o Magrão, que joga futebol no Internacional de Porto Alegre. Se tirar daqui mais um jovem para um time ou grupo musical, será um a menos com a cabeça desocupada, que quase sempre leva para a violência. Mente vazia é a oficina do diabo. Temos de ocupá-la com objetivos.