Você está aqui: Página Inicial Acervo Edição 8 Produção própria

Produção própria

Quatro iniciativas colocam ao alcance dos jovens as ferramentas da comunicação

05/03/2012

05/03/2012

Por Aydano André Motta

Na era vivida até outro dia, produzir e transmitir conteúdo eram privilégios exercidos por poucos. Hoje, mudou – escrever, falar, narrar, registrar, fotografar, filmar, documentar são atos que se transformam, a cada dia, em ofício de um número cada vez maior de pessoas, num cenário que atrai, ou quase enfeitiça, sobretudo os jovens. Da sedução, unida à busca por mais eficiência na missão de educar, nasceu um novo conceito: a educação pela comunicação. 

Via de mão dupla, capaz de formar consciências ao mesmo tempo em que abre caminhos nos mais diversos meios, a prática pavimenta intervenções sociais, ao permitir a construção de ambientes atraentes em espaços educativos. Com a evolução tecnológica e o conseqüente acesso a equipamentos que facilitam o trabalho, a estratégia virou feitiço. Pelo Brasil, espalham-se iniciativas que se aproveitam deste contexto mais favorável. 

É exatamente o que fazem ONGs como a Bem TV, da cidade fluminense de Niterói, com projetos que garantem acesso à produção nas áreas de fotografia e vídeo a jovens de comunidades populares. Ou como a Auçuba – Comunicação e Educação, em cujo programa Canal Auçuba se desenvolve o projeto Escola de Vídeo, que tem como foco a formação de núcleos de comunicação comunitária, a partir de grupos de adolescentes de comunidades do Recife e Olinda. 

A educação pela comunicação norteia ainda a Rede Jovem de Cidadania, que une jovens de vários pontos de Belo Horizonte, num trabalho promovido pela ONG Associação Imagem Comunitária. É, ainda, o alicerce do YB News – Agência Juvenil de Comunicação, projeto que nasceu na Inglaterra e integra jovens brasileiros. 

O aprendizado de todos esses jovens se materializa em meio ao exercício do direito de pensar – e disseminar as idéias e as informações. Cada vez para um número maior de pessoas. A seguir, leia mais sobre estas práticas.

Projeto Escola de Vídeo, do Programa Canal Auçuba – Pernambuco



A cena clássica da sala de aula, com os estudantes assistindo ao mestre discorrer sobre um assunto depois do outro, virou apenas uma parte da rotina, para jovens com idades entre 13 e 18 anos, de cinco comunidades em Recife e Olinda. No cotidiano deles, aprender está diretamente ligado a se comunicar, no Escola de Vídeo, projeto do programa Canal Auçuba, da ONG Auçuba Comunicação e Educação. O projeto surgiu em 1995 para enfrentar um conjunto ameaçador de perspectivas sociais: a integração veloz imposta pelas novas tecnologias de comunicação, pontilhada de estímulos consumistas que falseiam o mundo real; isso num país onde a dificuldade de acesso ao mercado de trabalho é dramática. 

O Canal Auçuba busca contribuir para a qualidade educacional, pelo aprimoramento do senso crítico e da criatividade. “O Escola de Vídeo desenvolve uma proposta de formação em três dimensões – humana, técnica e política, baseado no acesso ao conhecimento tecnológico e na preparação do cidadão informado, crítico e criativo”, explica Gorete Linhares, coordenadora do Auçuba. As ações incluem exibições de TV de rua, TVs comunitárias e oficinas variadas. O Canal Auçuba também realiza, em Recife, as atividades do Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia, projeto concebido pelo Oi Futuro, que, com um ano e meio de duração, oferece atividades para jovens de espaços populares urbanos em oito núcleos: vídeo, fotografia, design, computação gráfica, comunicação digital, história da arte e oficina da palavra. OI Kabum é uma experiência que acontece em três capitais do país. Além do Recife, o projeto é desenvolvido pela Cipó- Comunicação Interativa em Salvador/BA e pela Spetaculu no Rio de Janeiro. 

Projeto Olho Vivo, da Bem TV – Rio de Janeiro



Viver na cidade que ostenta o terceiro melhor índice de desenvolvimento nacional orgulha os habitantes de Niterói. Mas a antiga capital fluminense fica no Brasil – e a luta contra a desigualdade nesta terra ensolarada não tem hora nem lugar. Há uma década e meia, a ONG Bem TV usa a comunicação para abrir caminho na busca por justiça e solidariedade. 

O principal projeto da entidade é o Olho Vivo, que beneficia jovens de três comunidades populares – Grota, Preventório e Jurujuba -–, ensinando a eles uma tecnologia da comunicação. A capacitação técnica, assim, vem atrelada à oportunidade de conhecer a realidade dos lugares onde eles vivem. “É o primeiro passo para sensibilizar o jovem a assumir uma postura mais protagônica”, diz Márcia Corrêa e Castro, coordenadora da Bem TV. “Das capacitações, acabaram emergindo os grupos de ‘jovens comunicadores’, que atuam em suas comunidades e a quem garantimos assessoria”. 

Outra ação da Bem TV é a Educomunicar, que inclui professores das três escolas públicas da região do Preventório. Desde o ano passado, os educadores aprendem no projeto a usar a comunicação como metodologia pedagógica. A contrapartida, para a Bem TV, é um conhecimento mais preciso da realidade do ensino público oferecido aos jovens beneficiados pela ONG. Uma forma de contribuir, em diferentes instâncias, para a formação de um círculo virtuoso.

Rede Jovem de Cidadania – Minas Gerais



A lógica de rede, que pressupõe igualdade e cooperação, tem demolido barreiras que isolavam adolescentes de uma mesma capital. Na contramão da intolerância endêmica nas grandes cidades e da supremacia do poder econômico, a Rede Jovem de Cidadania, de Belo Horizonte, ajuda a integrar pessoas separadas por geografia e desigualdade social, pela via da comunicação. 

Com oficinas em escolas públicas, jovens de 16 a 27 anos aprendem a pensar e a discutir questões ligadas a juventude, mídia e cidadania. E passa na TV. O resultado do trabalho dos meninos e meninas vai ao ar, no programa semanal que leva o nome do projeto, toda terça-feira, no nobre horário das 21h, na Rede Minas de Televisão (equivalente, no estado, à TV Cultura de São Paulo). 

Expressão de uma grande mistura, cada edição do programa é diferente da outra. A gestão é coletiva, fundamental ao entendimento político de rede. Os programas não têm um diretor, nem formato fixo”, diz Ana Tereza Brandão, do núcleo de coordenação e pesquisa da Associação Imagem Comunitária (AIC), ONG responsável pelo projeto. Não há donos do saber para impor tom ou forma. Um conselho editorial de 50 jovens decide a ordem de apresentação dos grupos. Há quatro anos “no ar”, a rede já formou cinegrafistas, videomakers e autores de videoclipes. Novos horizontes num mundo antes improvável, para os jovens do projeto.

Agência YB News - Brasília



A distância atlântica entre as realidades sociais de Brasil e Inglaterra não impediu a materialização de uma iniciativa de inclusão social que usa a comunicação para educar em pares. Uma simples idéia de intercâmbio serviu de gênese a uma ambiciosa parceria, que incentiva a participação cidadã de jovens, na Agência YBNews de Notícias. 

Fruto do convênio firmado entre o Instituto Internacional para o Desenvolvimento da Cidadania (IIDAC) e o Conselho Britânico, a agência aposta na ação de jovens que documentam experiências pessoais e coletivas. Chamados de correspondentes, eles publicam artigos na Revista Eletrônica do site do projeto. Os temas são claros: cidadania, responsabilidade social, desenvolvimento sustentável e políticas públicas, além dos que surgem na dinâmica dos próprios jovens. 

“A agência é um espaço interativo para o intercâmbio de idéias, projetos e iniciativas”, diz Beatriz Caitana, assessora executiva do IIDAC. “Ela permite aproximar diferentes realidades e problemas, apontando para soluções comuns e para a transferência de saberes”. 

Três anos depois de instalada, a rede YBNews – Educação de Pares conta com 30 representantes de grupos juvenis das cinco regiões brasileiras. Outros 30 correspondentes, que completaram três anos de atividade, passam a compor o quadro editorial da agência, dividindo-se entre conselheiros e editores.