Geração Plugada
Os jovens brasileiros procuram responder aos desafios da era da informação e do conhecimento, mesmo com pouca formação e acesso precário às tecnologias
05/03/2012
Por Cristiane Ballerini
| A chamada era da informação impõe muitos desafios aos jovens. O mundo está cada vez mais rápido e complexo. Os meios de comunicação tradicionais, como rádio e TV, se multiplicaram. O volume de dados digitalizados dobra a cada vinte meses e a internet se tornou a maior base de dados do mundo. Os celulares se popularizaram e os novos modelos oferecem cada vez mais opções de convergência. Jamais a humanidade produziu e veiculou tamanha quantidade de informação. Mas como transformar tanta informação em conhecimento relevante para a própria vida? Como participar ativamente desse cenário? Os jovens brasileiros estão buscando, ao seu modo, as respostas para estas questões. Sintonizados com o tempo, sabem que precisam de mais acesso às tecnologias da comunicação, mas também de mais educação – e respondem à altura quando encontram as duas coisas juntas. Na última década, várias iniciativas unindo duas áreas de conhecimento – a comunicação e a educação – vêm contribuindo para colocar milhares de jovens mais perto das respostas. As propostas de como fazê-lo são variadas, assim como a nomenclatura: educação pela comunicação, educomunicação e mídia-educação, entre outros nomes. “A educação pela comunicação pode se tornar uma metodologia poderosa de ensino e aprendizagem, capaz de transformar a escola e outros espaços para atender à demanda de educação no século 21”, diz Fernando Rossetti, diretor do GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas e autor do livro Mídia e Escola – Perspectivas para Políticas Públicas, resultado de uma pesquisa iniciada em 2002, patrocinada pelo UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, sobre projetos nos quais crianças e jovens criavam seus próprios meios de comunicação, como jornais, vídeos e sites. O poder transformador da experiência de “fazer comunicação” pode ser explicado por várias razões. A primeira é evidente: para realizar um produto de comunicação, os jovens passam a discutir idéias, a lidar com valores, prazos e padrões, desenvolvendo uma série de habilidades e competências. Uma prévia do que pode ser a vida adulta e o mundo do trabalho. Com relação ao currículo escolar, atividades dessa natureza são naturalmente inter e transdisciplinares, capazes de envolver conteúdos de diversas áreas e vários professores. Outra vantagem está nas relações mais horizontais que se estabelecem entre professores e alunos. Esses projetos pressupõem diálogo, construção coletiva do conhecimento, e todos aprendem juntos. Talvez esteja justamente nesse caráter “subversivo” uma das razões por que a educação pela comunicação não seja ainda uma metodologia adotada em larga escala pelas escolas. Para Rossetti, “sempre que você coloca uma mediação tecnológica nas mãos daqueles que estão abaixo na hierarquia de poder, eles questionam essa hierarquia. A comunicação faz isso nas escolas e gera alguma tensão. Em geral, as escolas brasileiras não lidam bem com isso. Elas experimentam pouco, são burocráticas e ainda estão presas à idéia de que devem apenas transmitir conteúdos”. O Colégio Bandeirantes, em São Paulo, é uma das escolas que investe esforços para fugir à regra. Há três anos, promove a edição de uma revista produzida inteiramente pelos alunos do segundo ano do ensino médio, um projeto implementado pelo jornalista Alexandre Le Voci Sayad, que é secretário executivo da Rede CEP, Rede de Experiências em Comunicação, Educação e Participação, que reúne algumas das primeiras instituições a utilizar a produção de mídia para a educação e o ativismo comunitário. “No colégio, há liberdade total para a escolha de temas e o produto final tem a marca dos alunos. Minha intenção é ser um moderador. Criar oportunidades para que eles interpretem e produzam mídia. É uma atividade que, entre outras coisas, gera algo para além dos muros da escola e cria um elo entre o conhecimento e o cotidiano dos alunos”, diz Alexandre. Fabiana Bastos, 16 anos, está entre o grupo que orgulhosamente assina a produção da revista publicada no fim de 2006, com 1.400 exemplares: “Achei a experiência muito legal. Aprendi muito. A gente começa a pesquisar e a discutir um assunto com um ponto de vista e termina com outro. Tem também a responsabilidade de fazer as coisas bem feitas e no prazo”. |
| Olhar adestrado Democratização, nesse caso, não passa apenas por disponibilizar meios de produção para que um grupo expresse suas idéias. O poder dos padrões dominantes em “adestrar” olhares pode levar o jovem a simplesmente repetir o que vê, como o telejornal ou a novela das nove. Para Bernardo Brant, sócio-fundador e coordenador de projetos da Oficina de Imagens, em Belo Horizonte, uma das principais funções da educação pela comunicação é favorecer uma análise crítica da mídia e dos modelos conhecidos para, então, dar início a uma produção mais genuína. “Nós procuramos desmontar esses padrões, fazer uma decupagem dos discursos e estabelecer relações entre várias manifestações, como pintura, cinema e fotografia”, diz. A Oficina de Imagens existe há nove anos. Durante três anos, entre 2002 e 2005, realizou um curso na rede municipal de ensino de Belo Horizonte, formando alunos e professores com a perspectiva de articular o conteúdo curricular e o processo de comunicação, sempre utilizando a fotografia como ponto de partida. Roger Inácio dos Santos, hoje com 18 anos, estava na sétima série quando sua escola foi selecionada para participar do projeto. No LATANET as câmeras fotográficas artesanais eram construídas a partir de latinhas de alumínio e as fotos expostas na internet. “Eu não era exatamente um bom aluno. Ia levando, como a maioria dos colegas, mas, quando começamos a estudar daquela maneira, mais dinâmica, minha relação com a escola mudou”, conta Roger. O rapaz se identificou tanto com a proposta de trabalhar com comunicação que se tornou monitor em outra escola. Hoje, Roger é assistente de edição dos vídeos produzidos por comunidades que participam do projeto Ocupar Espaços. Para as comunidades, o vídeo é uma forma de estabelecer intercâmbio cultural entre diversos grupos. Para Roger, a possibilidade de um futuro profissional: “Estou recebendo uma excelente formação nessa área e já penso em estudar e trabalhar com mídia”, diz. |
| Vídeo na aldeia Zezinho Kaxinawa, 24 anos, ainda se lembra das visitas dos brancos à aldeia de seu povo, no Acre. Na época, o que mais lhe despertava curiosidade não eram as roupas, a língua ou o modo como se portavam os homens da cidade. O menino adorava as câmeras e os gravadores. Até os 11 anos de idade, Zezinho vivia numa aldeia isolada, na cabeceira de um rio, divisa do Brasil com o Peru e a Bolívia. A partir do contato mais intenso com os brancos, passou a estudar também o português e, aos 17 anos, viajou pela primeira vez para a cidade grande. “Tudo era muito diferente, mas eu queria aprender sobre a sociedade dos brancos”, diz. Pouco tempo depois, veio a oportunidade de participar de uma oficina de vídeo promovida pela Vídeo nas Aldeias. A ONG existe há 14 anos e sua proposta é tornar o vídeo um instrumento de expressão da cultura indígena, estimulando a troca de imagens e informações entre os povos. Para isso, instala equipamentos nas aldeias e forma realizadores indígenas. Câmera em punho, Zezinho sabia exatamente onde queria chegar. Seu primeiro filme é um média-metragem, de 53 minutos, no qual três personagens – o pajé, a esposa e seu pai – mostram o cotidiano na aldeia e falam de um tempo desconhecido para os Kaxinawas mais jovens. “Até os anos de 1970, antes das demarcações, nosso povo trabalhava como escravo dos seringalistas. Produzíamos borracha e não tínhamos liberdade de falar nossa língua ou praticar rituais”, conta Zezinho. Entre os 14 povos indígenas do Acre, os Kaxinawas são os mais numerosos. O filme de Zezinho foi o primeiro a registrar sua história e cultura. “Tudo isso é muito emocionante. Com essa tecnologia, as novas gerações podem saber mais sobre nosso povo. E até o homem branco pode quebrar seu preconceito. Porque fica na sociedade essa idéia de que índio é tudo igual. Mas todos os povos têm sua identidade e uma diversidade enorme de línguas e tradições”, diz Zezinho Kaxinawa, que já dirigiu um segundo documentário. |
| A voz da periferia Esquecidas na periferia da capital São Luís, no Maranhão, as comunidades pobres do Coroadinho encontraram no rádio uma forma de ação. Há cinco anos, com equipamentos doados por uma ONG, um grupo de moradores voluntários fundou a Rádio Conquista FM. Totalmente produzida pelos voluntários, a programação é composta por enquetes, entrevistas, debates – sempre a respeito de um tema que mobilize a população. Tatiana Ferreira, 23 anos, é a voz que comanda a revista sonora Mundo Jovem. Incentivada pela mãe, que sempre participou de movimentos sociais, Tatiana acredita no poder transformador da comunicação. “Nossa população não vive em um estado de direito pleno. Não temos acesso a serviços básicos, como saúde, e a violência por aqui é muito grave. A ação mobilizadora por meio do rádio e o diálogo com o poder público são estratégias para tentar mudar essa realidade”, diz a jovem que, longe dos microfones, estuda Engenharia de Pesca. Apesar das manifestações, como passeatas em favor da rádio comunitária, recentemente a Conquista FM teve a autorização de funcionamento negada pelo Ministério das Comunicações. Mas os moradores prometem insistir no projeto. “Estamos buscando explicações sobre as razões para estarmos fora do ar. Temos espírito comunicador e esse trabalho tem grande significado nos bairros”, diz Tatiana. |
| Sem distâncias Trabalhar em rádio também fascina Moisés Filocre, 18 anos. É ele quem digitaliza todo o áudio e coloca no ar a programação da primeira rádio web de Irecê, na Bahia. A rádio faz parte do Ciberparque, um centro de produção multimídia que recebe apoio da prefeitura municipal e da Universidade Federal da Bahia, para democratizar o acesso à cultura digital. Moisés começou como voluntário e, em seguida, foi formado para trabalhar com softwares livres: “Hoje, sou contratado pela prefeitura e tenho um grande orgulho de transmitir nossos eventos culturais e festivais. Até gente do exterior fica sabendo o que acontece em Irecê porque, pelo computador, todos podem nos escutar”. Também a vida da carioca Ana Paula Matta, 20 anos, seria muito diferente sem a internet. Ela começou a ser conhecida na rede aos 15 anos, quando criou seu primeiro blog. “Eu não tinha um projeto. Queria mesmo era falar da minha vida, me comunicar com outras pessoas”, diz Apê, como é conhecida. Com o codinome Ímpar, ela passou a publicar um fotoblog, com fotos e textos, sobre seu dia-a-dia e moda. Foi um sucesso e as visitas semanais chegaram a 70 mil. Por conta disso, Apê recebeu o convite de uma marca de sandálias para ser uma espécie de “embaixadora” do produto. “Acho que o sucesso rola porque as pessoas se identificam. Estou passando da adolescência para a vida adulta publicamente, na internet. Falo de situações e problemas que acontecem com todo mundo, seja em Portugal, na Alemanha ou no México”, diz Apê, que se prepara para o vestibular de moda. “A internet me trouxe mais do que um canal de expressão. Também fiz grandes amigos, gente que talvez seria difícil conhecer, pelas distâncias”. Mas os recursos tecnológicos que colocam o trabalho de Moisés e o mundo de Apê na web ainda estão distantes da maioria dos jovens do país. No Brasil, a internet tem somente 35 milhões de usuários, a maioria nos grandes centros urbanos e entre as classes favorecidas. Anunciado por especialistas e discutido na universidade, o apartheid digital caminha ao lado de outras formas de exclusão. “Em um dos bairros onde atuamos, moram 16 mil pessoas, em uma área de cinco quilômetros quadrados. Há esgoto a céu aberto, violência, pobreza. Trabalhar para inserir uma comunidade com problemas estruturais na era da informação é um desafio gigantesco”, diz Durval Leal Filho, presidente da ONG Para’iwa Coletivo de Assessoria e Documentação, que atua na Paraíba há doze anos. Um dos projetos da Para’iwa é criar uma rede de formação nas comunidades sem acesso à informática, possibilitando o uso da tecnologia digital como canal de comunicação. Dois centros, um em João Pessoa e o outro em Bananeiras, já oferecem cursos. Mirtes de Araújo Anjos, 19 anos, foi uma das primeiras a participar e hoje ensina as crianças do bairro. “Minha vida mudou desde que aprendi a usar o computador. Participo de palestras on-line e conferências. Como faço parte de um projeto de economia solidária, preciso estar sempre me informando sobre outras experiências”, diz Mirtes, otimista com a expansão de seus projetos. “Com a internet, não existe distância que a gente não consiga percorrer.” |
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O futuro é agora “De alguma maneira, eu sempre soube que iria trabalhar com algo que me possibilitasse liberdade de expressão. Em 2004, na escola onde cursava o último ano do ensino básico, pude participar do projeto EDUCOM do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo. Essa experiência começou a mudar minha vida. Como eu já estava na oitava série, para conseguir um lugar, me comprometi a continuar trabalhando com outros jovens, repassando conhecimento ao final do projeto. Tivemos uma formação em rádio e, durante três meses, fizemos vários programas. Com esse processo, um mundo se abriu para mim. Ganhei uma visão mais ampliada e crítica sobre vários assuntos, especialmente a comunicação e os processos envolvidos nas mídias. Em 2004, fui convidado a integrar o conselho editorial jovem da revista Viração. É uma publicação mensal, iniciativa do jornalista Paulo Pereira Lima. O que diferencia a Viração é o fato de jovens do Brasil inteiro – quase 300, em 17 capitais – participarem de todo o processo da revista: pautas, apuração, fotos e redação das matérias. Dá um trabalho danado, porque, imagine administrar as diferenças ideológicas, os conflitos que surgem a partir da relação entre tantas pessoas. A intenção da Viração é integrar o maior número de opiniões possíveis, dando voz aos jovens – especialmente àqueles ligados no que acontece em seus bairros, suas comunidades. No futuro, espero estudar Comunicação e Filosofia e continuar trabalhando como educomunicador, sempre articulando projetos que provoquem inquietação.” DOUGLAS LIMA DOS SANTOS, 18 anos - Educomunicador do Projeto Viração |
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