Audiência crítica
Quatro estudantes, de São Paulo, Pará, Bahia e Rio de Janeiro, debatem a representação do jovem na mídia
05/03/2012
| A juventude vem conquistando mais espaço na mídia brasileira. Em seminários recentes sobre o tema, especialistas afirmam mesmo estar ocorrendo um “boom de visibilidade” dos jovens nos veículos de comunicação. Mas a questão principal, para eles, é como o jovem é representado nesses espaços. Os estudiosos apontam, por exemplo, que a publicidade valoriza o jovem para vender, utilizando uma imagem de “elite civilizada e vitoriosa”. Já a juventude pobre ganharia mais visibilidade no que se refere à questão da violência, da criminalização, com uma série de estereótipos. Onda Jovem convidou quatro estudantes para refletir sobre o tema: |
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Juliana Santos Universitária paulistana, 21 anos, estudante de Letras e participante do projeto Jornal Becos e Vielas – A Voz da Periferia; |
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Genildo Delgado Júnior Paraense de Santarém, 16 anos, estudante do ensino médio e participante do projeto Rádio pela Educação; |
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Ana Cristina Barbosa de Jesus Estudante baiana de Comunicação Social, 18 anos, participante do projeto de produção de vídeos no Programa EnterJovem, de Salvador; |
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Henrique Guimarães Carioca, 17 anos, que faz o terceiro ano do ensino médio, participa do grêmio estudantil em sua escola e disputará, no vestibular deste ano, uma vaga em Comunicação. |
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| A seguir, os principais pontos do debate. |
| Onda Jovem: De que forma a juventude é retratada pela mídia? Henrique: A juventude é uma espécie de “enlatado”. Somos o futuro... precisamos agir como os jovens de “Malhação”, porém, o perigo reside em nós, pois querem diminuir a maioridade penal. Júnior: A representação é feita basicamente de duas formas: o jovem vulnerável e o jovem consumista. Juliana: Temos o jovem da periferia associado ao crime e o jovem transformador participante de ONGs com suas propostas de protagonismo juvenil. Então, o jovem da periferia só terá futuro se tiver passado por essas organizações. Isso me irrita. E aí chovem matérias que mostram esse jovem no computador (a inclusão digital) ou na biblioteca (ele sabe ler!). O jovem da periferia precisa ser apadrinhado por essas instituições para receber o olhar da mídia? Ana Cristina: Antes eu via a mídia retratando, de um lado, um jovem inconseqüente e rebelde e, de outro, o jovem “careta” participante de ações sociais. Hoje, percebo um perfil menos uniforme. A gente encontra na mídia, por exemplo, o jovem que vive em baladas, mas tem um projeto de vida. |
| Os veículos de comunicação oferecem espaço para a diversidade juvenil? O que falta? Juliana: Espaço na mídia para a diversidade? Rsrsrsrs... Essa pergunta me faz lembrar as tardes que eu passava com minha avó quando eu tinha 15 anos, vendo na TV um programa que surrava a periferia e seus moradores. “Bandido bom é bandido morto” era um dos chavões do programa. Essa era a imagem que minha comunidade tinha na mídia. Nada se falava sobre jovens como eu brincarem descalços na rua, jogarem bola, soltarem pipa na laje. Éramos reduzidos a facções criminosas. Por outro lado, temos ainda as novelas nos representando como empregados domésticos, motoristas, babás, seres invisíveis na sociedade. Júnior: Não oferecem. Em geral, o jovem está apagado atrás das câmeras, dos microfones, dos textos escritos. Ana Cristina: Alguns veículos, sim. No rádio, aos poucos, as redes comunitárias ganham espaço e dão maior visibilidade aos jovens, uma vez que, em sua maioria, são eles que tomam a iniciativa de criar a rádio e expressar seus anseios. E a internet é indiscutivelmente o refúgio dos jovens. Henrique: Não, principalmente quando se trata de TV aberta. São pouquíssimas as rádios e redes de televisão que apresentam programações que entretenham os jovens com qualidade e diversidade. |
| Quais as principais distorções da imagem da juventude veiculadas? Como isso afeta sua vida? Júnior: É o jovem ser colocado como um agente irresponsável que nunca deve estar à frente, assumindo compromissos, mas sempre acompanhado por alguém. Juliana: Uma grande distorção é a mídia associar os jovens da periferia ao hip hop, como se essa fosse a nossa única cultura. Os jovens da periferia são descendentes de nordestinos e escravos, trazemos uma infinita bagagem cultural. Ana Cristina: São muitas as distorções: que o jovem só pensa em festa; que o jovem pobre ou é malandro ou é alienado; que os jovens ricos só querem se dar bem passando por cima dos outros; que os jovens perdem a identidade para se adequar a uma nova “tribo” etc. Henrique: Pela imagem veiculada na mídia, os jovens ou são totalmente chatos e politicamente corretos, ou fúteis e incorretos. Não somos todos bonzinhos ou mauzinhos, somos humanos, muito diferentes, certamente. Mas, para a mídia, somos ou “marginais” ou “playboys”. Acredito que os meios de comunicação só contribuem para essa guerra entre os “playboys” e os “marginais” e seus estereótipos. |
| Os jovens podem contribuir para a construção de uma imagem mais real na mídia? De que forma? O que você faria? Júnior: Com certeza. O jovem tem um grande potencial e precisa exigir esse reconhecimento mostrando seu rosto, seu jeito, sua opinião. No projeto do qual participo, o Rádio pela Educação, tento contribuir para a construção de uma mídia clara em relação ao jovem, sem qualquer censura ou cortes, mostrando o jeito como o jovem pensa. Henrique: Às vezes, acho que falta interesse, mas acho que a luta dos jovens por uma mídia melhor é possível, porém árdua. Somos os que mais podem contribuir para essa mudança. Juliana: É justamente por conta da associação negativa que a mídia faz com a periferia que, junto com alguns amigos, criamos um veículo de comunicação: o jornal Becos e Vielas Z/S – A Voz da Periferia. Estávamos cansados de esperar uma representação mais fidedigna ou menos ilusória sobre a nossa realidade. Iniciativas como esta podem contribuir para uma imagem mais real dos jovens. Ana Cristina: O jovem precisa buscar fontes diferenciadas de informação, que o ajudem a construir e a expressar sua própria visão dos fatos. |
| O que fazer para o jovem passar a cobrar de fato o seu espaço na mídia? Henrique: Precisamos de conscientização e vontade de lutar para buscarmos nossos espaços, seja por meio de manifestações públicas ou da criação de organizações que defendam os interesses dos jovens. Ana Cristina: O jovem precisa desenvolver uma visão mais crítica do seu poder e espaço, para saber como e onde buscar ferramentas que representem fielmente as suas necessidades. Juliana: Se não estamos satisfeitos com o que veiculam sobre nós na mídia, ou se nos enganam nos fazendo acreditar que estamos sendo representados por novelinhas como “Malhação”, o primeiro passo é reconhecermos isso e não darmos ibope para essas falsas representações da realidade juvenil. |
| Como desmistificar os preconceitos relacionados à juventude da periferia? Júnior: Acima de tudo, os jovens da periferia têm de cobrar seu espaço na mídia para mostrar seu potencial, seu valor, tudo de bom que sabem fazer. Henrique: Difícil, muito difícil... Não são apenas os jovens da periferia que são alvo da mistificação da mídia, mas, com certeza, são os que mais sofrem. Somos todos alvo do “enlatamento” da mídia. Rachemos essas latas! Ana Cristina: A solução é identificar e apoiar líderes comunitários que projetem atividades socioculturais de incentivo aos jovens, tornando-os mais representativos. |
| Quais outros grupos ou instituições têm sua imagem distorcida pela mídia? Ana Cristina: Acho que a mídia também generaliza de forma prejudicial a ação de grupos como os políticos, os trabalhadores informais, os trabalhadores públicos... Júnior: Os índios, os negros, os idosos também têm apresentação distorcida na mídia. A sociedade não é bem informada sobre a realidade desses grupos, que, por isso, sofrem discriminações e julgamentos negativos. Juliana: A mídia tem o poder nas mãos. Pode dizer o que quiser por meio de uma fala, de uma edição. Na eleição de 1992, por exemplo, foi visível a preferência da rede Globo pelo candidato Fernando Collor na edição do debate entre os candidatos. E deu certo, pois o dito cujo foi eleito. Vimos como essa e tantas outras ações da mídia podem prejudicar toda a sociedade. |
| Vocês consideram a juventude acomodada diante de sua representação distorcida na mídia? Henrique: Alguns jovens estão acomodados diante da mídia tendenciosa, porém não se pode culpá-los pela criação dos estereótipos, nem eles respondem pelos anseios da maioria. Juliana: Acho que é preciso cuidado com os posicionamentos do senso comum, como dizer que os jovens são acomodados. Muitos de nós reproduzimos discursos falidos. Não acredito nessa história de acomodação juvenil, senão não teríamos tantos projetos e iniciativas de videotecas, jornais comunitários, fanzines, grupos de discussões. Concordar com isso é não acreditar em meu próprio trabalho e no trabalho de muitos jovens. |



