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Por Cecília Dourado
Mais de 50 livros publicados em diversas línguas indígenas no Acre. Jovens pobres que melhoram seu desempenho escolar e acham o próprio rumo nos caminhos da arte e da cultura em Recife. Redução da evasão e da repetência numa escola pública de segundo grau no Rio Grande do Sul. Esses são alguns dos resultados do empenho de três mestres, que desenvolveram seus esforços pedagógicos para ajudar a desvendar o mundo ao redor dos estudantes: o professor indígena Joaquim Maná, a pedagoga Maria Lúcia Gomes dos Prazeres Faria e a professora Beatriz Vitorino da Silva Steffan.
As experiências são diversas, sempre de acordo com o universo em que acontecem, mas têm em comum a busca da qualidade do ensino, o diálogo como ferramenta pedagógica, o resgate cultural e da auto-estima e o objetivo de contribuir para a realização do potencial dos jovens.
Joaquim Maná, ele próprio um exemplo de que a juventude pode ser o início de uma trajetória melhor, viveu grande parte de sua infância fora das aldeias indígenas e não quer que isso aconteça a outras crianças do seu povo e principalmente aos jovens, a quem dedica atenção especial.
Maná morou em diferentes seringais, onde seu pai trabalhava, muitas vezes em condições de escravidão. Era analfabeto até os 20 anos, quando aprendeu a ler e a escrever em escolas da Comissão Pró-Índio do Acre. Tornou-se um estudante, vencendo desafio após desafio. Terminou o ensino fundamental, continuou a estudar com o programa para o Magistério Indígena e este ano, já com 43 anos, concluiu a licenciatura plena em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Mato Grosso.
Nesse percurso, Joaquim Maná descobriu também a paixão pelo ensino e o respeito por sua cultura. Desde que se alfabetizou, em 1983, tornou-se professor e faz pesquisas para a elaboração de material para escolas indígenas. Com outros professores, ajudou a desenvolver a Pedagogia Intercultural, que alia o conteúdo da escola regular à pesquisa, ao resgate e ao ensino da diversidade cultural. O foco principal desse trabalho atualmente é o resgate das diversas línguas de seu povo.
Além de professor na sua aldeia, Macuripe, Joaquim é coordenador e um dos fundadores da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC). A instituição prepara jovens para serem professores e agentes florestais, faz pesquisa e publica textos escritos por índios. "Já existem mais de 50 livros publicados que foram escritos por índios. Agora, estou finalizando um livro com o levantamento dos desenhos e padrões geométricos usados pelo meu povo, Hunikui, em pintura corporal e tecidos", diz, com orgulho.
O conhecimento reunido enriquece o aprendizado dos índios no ensino fundamental. Mas agora os esforços estão voltados para a juventude. "O próximo passo", diz Joaquim, "é desenvolver o ensino médio nas aldeias, de forma que os jovens estudem e encontrem formas de sobreviver e não sejam mais obrigados a ir procurar trabalho pouco qualificado nas cidades, onde em geral vivem marginalizados."
Mas Joaquim Maná não defende o isolamento da juventude indígena. Ao contrário, propõe trocas. "Os jovens podem e devem ir para a cidade para adquirir outros conhecimentos, porém sempre dentro da perspectiva de que eles também têm a sua contribuição para dar. Não é como se não soubessem nada. Temos o nosso conhecimento e precisamos dar continuidade a ele", afirma.
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Motivação pela arte
É por meio da arte e da cultura que a pedagoga pernambucana Maria Lúcia Gomes dos Prazeres Faria realiza o seu trabalho de educação para a inclusão social de jovens pobres em Recife. Ela é fundadora e vice-presidente do Centro de Formação do Educador Popular Maria da Conceição, criado em 1982. O trabalho com jovens "começou na rua, onde nos reuníamos para conversar", conta Lúcia. "E partiu dos jovens a sugestão de um grupo de música. No começo, o grupo ensaiava com instrumentos emprestados, mas depois tomou a iniciativa de ir atrás da prefeitura e acabou conseguindo os instrumentos."
Hoje, as atividades do Centro incluem música, dança, artes plásticas e outras manifestações culturais em 12 morros da cidade. "A arte facilita a descoberta, pelo jovem, de suas potencialidades. Isso não quer dizer que ele vá se tornar artista, mas vai perceber que tem potencial e que pode conquistar o que quiser", diz Lúcia.
A metodologia de aprendizagem pela prática cultural desenvolvida por Lúcia tem base numa pesquisa de campo para fazer o resgate cultural local, buscando preferencialmente as raízes negras dessa cultura. "Fazemos visitas, chamamos as pessoas para conversar, realizamos entrevistas, assistimos a vídeos de pessoas que participam de atividades culturais. Começa toda uma discussão, que é encaminhada para a produção de textos, o estudo de matemática e assim por diante. Quando os alunos estão sendo preparados para trabalhar como educadores populares, a discussão é mais profunda, também com algum embasamento teórico", explica.
Da busca pelas raízes negras nasceu o projeto Cantando Histórias, atualmente aplicado na rede municipal de Recife e Olinda. A partir do cancioneiro popular, são feitos estudos da cultura afro-brasileira. Há, por exemplo, uma música que fala de Sundjata, líder da etnia mandinga. Os alunos cantam a música, procuram no mapa o país dele, o Mali, fazem um levantamento das características do país, pesquisam em que regiões do Brasil estão os negros originários do Mali e qual a sua contribuição para a cultura brasileira. Pinturas, novos textos, peças de teatro e outras formas de expressão artística surgem a partir da música.
Além do Cantando Histórias, o Centro promove uma série de atividades com jovens, como o bloco carnavalesco Raízes de Quilombo e oficinas de estímulo na busca de uma profissão, onde se discutem as oportunidades e se aprende a identificá-las. "Tudo tem o objetivo de levar os jovens a terem uma leitura crítica da realidade. Mas não para ficarem mergulhados no foco da pobreza e sim para buscarem naquele viver os grandes potenciais, que é o que faz com que as pessoas tenham força para lutar por aquilo que querem", diz Lúcia. "Isso é muito compensador. O que me motiva é mexer com vidas e com a minha própria vida. A cada dia, eu redescubro nesse trabalho as minhas próprias potencialidades e isso me dá muito prazer." |
Com o saber do aluno
Na Escola Estadual Cruzeiro, em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, as "falas" dos estudantes são a matéria-prima do trabalho pedagógico da professora Beatriz Vitorino da Silva Steffan e sua equipe. É conhecendo a vida dos alunos, por meio da Pesquisa Participante, que essa professora de 50 anos adapta o ensino às necessidades dos jovens que cursam o ensino médio regular e a EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Os pesquisadores são os professores, que vão conhecer o local onde os alunos moram e realizam com eles entrevistas e dinâmicas de grupo, encorajando-os a falar ou a escrever sobre os seus problemas e interesses. Uma série de "falas" é então selecionada e discutida com os estudantes em novas reuniões. Depois, são escolhidos os temas a serem abordados em sala de aula, como a questão da qualidade da água que surgiu numa pesquisa recente e motivou uma visita dos alunos a uma barragem que abastece parte de Santa Rosa. Após a visita, feita num fim-de-semana, o assunto foi explorado em diversas disciplinas: o volume de líquidos, na aula de matemática; a pressão dos motores usados na captação da água, na de física; a questão ecológica e da infra-estrutura, nas aulas de geografia.
A Pesquisa Participante é feita sempre que os professores acham necessário. "A gente nunca esgota a pesquisa porque estamos sempre tratando da realidade", diz Beatriz. A metodologia se apóia no pressuposto de que o estudante tem conhecimentos e que o papel do educador é o de mediar e aprofundar esse conhecimento. A realidade que envolve o aluno não é apenas material pedagógico. A escola também leva em consideração as dificuldades encontradas por muitos em conciliar trabalho e estudo. No caso de um imprevisto - uma mudança de turno no trabalho, por exemplo - o aluno pode fazer uma pausa no curso e depois retomá-lo no ponto onde parou. "Em outras escolas, ele perderia o ano por faltas", diz Beatriz.
Com essa metodologia "baseada no diálogo", em que a avaliação não é feita por notas, mas por um acompanhamento geral do aluno pelo professor, a escola conseguiu reduzir a repetência e a evasão escolar. Foi por isso premiada, este ano, no concurso promovido pelo Ministério da Educação sobre formas de melhorar o ensino médio noturno. Para Beatriz, no entanto, o grande prêmio é "acompanhar o educando, que entra para as aulas cansado, carente, sem auto-estima e sai da escola valorizado, com mais conhecimentos e um novo olhar sobre si mesmo". |
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