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Caindo nas redes

Uma forma de organização contemporânea, as redes vêm ganhando cada vez mais força entre os jovens como estratégia de participação política.

07/03/2012

07/03/2012

Por Tetê Oliveira

Participantes: representantes de grupos e organizações da sociedade civil, dos setores público e privado, que compartilhem valores e objetivos; pessoas com experiências e opiniões diversas, dispostas a discutir suas propostas de ação em busca de consenso. Procedimento: os participantes se reúnem numa organização sem hierarquia ou subordinação para desenvolver trabalhos colaborativos, com decisões coletivas e divisão de tarefas. “Grosso modo”, eis a receita das redes sociais, que têm atraído cada vez mais jovens no Brasil e conquistado espaço na discussão política e na defesa dos direitos da juventude. 

Para Célia Schlithler, autora do livro “Redes de Desenvolvimento Comunitário: Iniciativas para a Transformação Social” e coordenadora de investimento social comunitário do Idis – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social –, as redes têm uma lógica que se difere da de outros movimentos sociais. “Os movimentos têm toda uma conotação de reivindicar. Já as redes procuram trazer o setor público para discutir a questão com elas. No caso dos jovens, esse é um processo em amadurecimento, novo e ainda mais bonito”, diz. 

“Aqueles pequenos grupos que não tinham força de intervenção política, começam a ter como rede. Juntos, ganhamos peso na hora da discussão política, para que ela não fique restrita a um gueto”, diz Tytta Ferreira, de 24 anos, representante na Bahia da Rede de Jovens do Nordeste, a RJNE, uma das pioneiras no Brasil, criada em 1998 e hoje representada em todos os estados nordestinos. “Nas redes, os grupos constroem demandas comuns, têm mais espaço público e uma presença mais articulada e sólida”, diz o sociólogo e consultor da Rede Juventudes, Marcílio Dantas Brandão, de 27 anos.

Transformação social

Para Célia Schlithler, essas conexões entre várias pessoas, que representam diferentes organizações, possibilitam a construção de projetos coletivos. “Uma rede social é formada com objetivo de provocar algum tipo de transformação social. Só a conexão e a troca de informações e conhecimentos não bastam, deve haver uma proposta que leve a uma ação.” 

Na pauta de discussões atual de muitos “enredados” – como alguns integrantes das redes se denominam – está, por exemplo, o Plano Nacional de Juventude. “Estamos construindo com outras redes do Nordeste propostas para o Plano”, diz o baiano Jackson Rodrigues Caetano, de 19 anos, facilitador da rede Sou de Atitude, que monitora políticas públicas para infância, adolescência e juventude. 
Outra forma de ação é desenvolvida pela Renaju, Rede Nacional de Organizações, Grupos e Movimentos da Juventude, desta vez em parceria com o Ministério da Educação e a Secretaria Nacional de Juventude. “Estamos apoiando a campanha de salas de alfabetização de jovens e adultos. As redes vão participar com a montagem de salas, capacitação de professores”, diz Daniel Vaz, 31 anos, da Renaju. Já o Coletivo Jovem de Minas Gerais da Rejuma, Rede da Juventude pelo Meio Ambiente e Sustentabilidade, desenvolve um projeto-piloto em Sabará. “Negociamos a criação da Coordenadoria de Políticas Públicas da Juventude. A proposta é estender essa conquista a outros municípios mineiros”, José Patrício Lustosa, 28 anos, que é o coordenador do órgão. 

Há ainda redes mais temáticas e regionais, como a Rede Cidadania Jovem, uma rede de comunicação comunitária que envolve 250 entidades e grupos ligados à juventude em Belo Horizonte. A rede é um projeto da Associação Imagem Comunitária (AIC), mas sem subordinação. “Existe uma parceria, divisão de trabalhos, troca de idéias, mas sem hierarquia. A AIC apóia a produção e os eventos da rede, e promove oficinas de comunicação”, diz Aléxia Melo, de 30 anos, da AIC.
Nem tudo é virtual

Para a difusão de informações entre os “enredados”, as redes têm na internet o meio mais freqüente de comunicação – chats, e-grupos, teleconferências, e-mails. Como a inclusão digital ainda não é uma realidade em todo país, há redes, como a RJNE, que também recorrem aos Correios – cartas, Sedex. Mas as redes sociais não devem mesmo ser meras redes on-line. “Elas devem ter momentos presenciais, não só virtuais”, diz Célia Schlithler. 

O conselho editorial da Rede Cidadania Jovem, por exemplo, que não tem membros fixos e é aberto a todos os grupos que integram a rede, se reúne mensalmente, juntando, em média, de 20 a 30 pessoas. Na RJNE, os coletivos (encontros) regionais são trimestrais. “Eles têm a participação de um representante de cada Estado que integra a rede”, diz Tytta, acrescentando que há ainda coletivos microrregionais e estaduais, que são deliberados a partir das necessidades de seus núcleos. 

No dia-a-dia das redes, a presença de facilitadores e articuladores é essencial. “Facilitador é aquele que dá gás, puxa a rede em nível nacional, suas ações e reuniões”, diz Jackson, um dos que exercem esse papel na Sou de Atitude. Já o articulador, ou animador, é a pessoa de referência nos estados. Para Luã Gabriel, 18 anos, que mora em Belém do Pará, muitas redes nascem e não se mantêm porque a forma como a animação é conduzida não proporciona bons resultados. “As pessoas e organizações então abandonam o espaço”, diz ele, um “enredado” convicto, que integra a Rejuma, a Renaju e a rede GTA, Grupo de Trabalho Amazônico, da qual é um dos representantes no Conselho Nacional da Juventude.
Sem hierarquia

Outra característica básica das redes sociais é a sua forma de organização. “As redes sociais não são piramidais, são horizontais e sem hierarquia”, explica Célia. Na sua opinião, esse talvez seja o maior desafio das redes, pois as pessoas têm um modelo muito forte de organização vertical, com subordinação. E cada uma define seu formato. A Rede Juventudes tem um Núcleo Dinamizador, composto por dez pessoas e que arbitra, por exemplo, sobre as questões operacionais da rede. “O Núcleo apresenta propostas, mas quem bate o martelo são as organizações e os indivíduos que compõem a rede”, diz Marcílio. E nem todas as ações envolvem todos os participantes. É o caso do mapeamento atual pela rede de grupos e organizações juvenis existentes em Natal, Recife e Salvador, além de 17 municípios do interior do Ceará, Pernambuco e Bahia. “Somente 12 das organizações da rede participam desse trabalho, porque são as que atuam nas cidades envolvidas no mapeamento”, diz o sociólogo. 

Para evitar o surgimento de divergências futuras que venham a inviabilizar a proposta das redes, Célia defende que, no momento de sua concepção, os integrantes escrevam uma carta de princípios da organização. “Adotamos um Plano de Ação, pactuado num seminário que envolveu 60 participantes da rede. Definimos missão, objetivos, temáticas e grupos de trabalho da rede”, diz Marcílio. Segundo Tytta, a carta do núcleo regional da RJNE dá um rumo aos estados, que, no entanto, têm autonomia e suas própria carta de orientação. “Na verdade, a carta regional ainda não foi fechada, porque queremos ouvir as diferentes opiniões da galera que compõe a rede”, diz. 

Esses documentos não inibem o debate nas redes. Luã adora participar das discussões. “Isso é que é maravilhoso nas redes, pois prova que as pessoas não são iguais, que existem divergências, e então elas nunca ficam subordinadas a alguém ou alguns”, diz. “Acredito que toda discussão em grupo deve ter polêmica. Isso porque cada pessoa tem um pensamento diferenciado da outra. Em cada reunião da Sou de Atitude temos diversos pontos de vista, mas sempre caminhamos para um consenso”, diz Jackson. “Sabemos que uma pessoa só não suporta o peso do trabalho que é a transformação social e que não dá para se ter um outro mundo se todos não colaboram.”