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Por Karina Yamamoto
Já viu alguém jovem sem turma? Pode até ser que sim, mas é difícil. A juventude é o momento de sair debaixo das asas dos pais, de ir além dos limites da escola, de buscar os pares. Isso significa olhar para o grupo - escola, igreja, bairro, cidade - e se posicionar em relação a ele. "Existe uma disposição, que é natural dessa idade, de buscar parcerias, que podem ser com mais duas, três ou 30 pessoas", diz o psicanalista paulistano Tiago Corbisier Matheus. De fato, segundo uma recente pesquisa, intitulada Juventudes Brasileiras, 27,3% dos jovens participam ou já participaram de alguma associação. "Pode parecer pouco em porcentagem, mas isso representa cerca de 13 milhões de pessoas", diz a socióloga Miriam Abramovay, que coordenou o estudo juntamente com Mary Garcia de Castro.
Financiado pela Unesco, o levantamento traz ainda outro dado que revela o perfil da participação juvenil: dentre a parcela dos mais atuantes, 81% estão ligados a alguma entidade religiosa. Stephanie Chao Ni Ng, de 18 anos, é uma entre esses quase 10 milhões. Estudante de Engenharia na Universidade de São Paulo, ela passa suas tardes de sábado com colegas da Igreja Evangélica dos Cristãos. "Contamos como foi a semana, oramos, fazemos estudos bíblicos", diz. "É uma oportunidade de encontrar pessoas que vivem sob o mesmo propósito."
Para Miriam, é preciso levar em conta também outros tipos de agrupamentos não-formais, como os grupos de rap ou times de futebol. "Todo grupo é importante porque possibilita aos jovens a aquisição de capital cultural", diz a pesquisadora. São experiências que vão ajudá-los, como indivíduos, a fazer suas escolhas pelo resto de suas vidas.
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Terreno fértil
Fazer parte de uma turma também é importante para definir a nossa identidade. "Só existimos em relação ao outro", diz a psicanalista e socióloga Lucia Valladares, de São Paulo. Mas, na adolescência e na juventude, o sentimento de bando é mais intenso. "Nessa fase, a matriz da personalidade, que foi dada nos primeiros anos de vida, ganha novos significados", diz Tiago Matheus. É quando se abandonam ou se fortalecem valores recebidos da família e da escola. É momento de definição.
Até a fisiologia do cérebro está nessa toada: o córtex pré-frontal está amadurecendo e, com ele, a capacidade de se colocar no lugar do outro, habilidade essencial para a (boa) convivência em sociedade. E um ambiente emocional acolhedor pode fazer muita diferença nessa hora.
No entanto, entre o cenário propício para atuar nas suas comunidades até o exercício pleno dessa possibilidade existe uma distância considerável. O psicólogo social Marcelo Calegare apresentou no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, em janeiro deste ano, uma dissertação de mestrado em que analisou como uma entidade não-governamental influencia a vida dos jovens atendidos.
Sob o título "A Transformação Social no Discurso de uma Organização do Terceiro Setor", o estudo acompanhou uma fundação nacional e uma ONG que lidam com juventude. Perceberam-se mais mudanças no comportamento pessoal do público dos programas que transformações sociais relevantes na comunidade. Para otimizar os resultados dos projetos sociais com esse público, Calegare diz que é fundamental considerar o jovem em seus vários aspectos e perceber os muitos contextos em que ele se insere. "O jovem precisa perceber que suas necessidades individuais podem ser do interesse de seus pares também e que, somando o que eles têm em comum, formam um coletivo", diz. Assim unidos, eles materializariam seu potencial, criando condições de interferir de fato no jogo político mais amplo. |
Contexto social
Para a psicóloga social Soraia Georgina Ferreira de Paiva Cruz, professora da Universidade Estadual de São Paulo, em Assis, no interior do Estado, ao avaliar a participação juvenil é necessário considerar o contexto social. Se a sociedade prega o "cada um por si", como esperar, então, que os jovens se manifestem como cidadãos ativos?
Vivemos também tempos velozes. Tudo é efêmero. E isso dificulta a formação de grupos mais consistentes e de atuação a longo prazo por conta da quebra nos laços de confiança e reciprocidade. As relações - amorosas, familiares, profissionais - ficaram mais fluidas e são encaradas de maneira mais complexa. "Os laços hoje são menos sólidos, as fixações são pontuais e a noção de tempo é momentânea", diz Lucia Valladares.
Isso explica parte do que os adultos entendem como a "apatia" dos jovens de hoje. Nos anos 60, 70, grupos organizados peitavam governos, pregavam o amor livre, seguiam guerrilhas para derrubar regimes. Com um número menor de ditaduras no horizonte, a juventude do século 21 está mais preocupada com a sobrevivência, com as perspectivas de educação e emprego.
No caso brasileiro, existem ainda outros fatores a serem levados em conta. A descrença nas instituições é reforçada pelo atual cenário político, com crises e denúncias contínuas de corrupção. A percepção da política se radicaliza. "Ser político é visto como coisa de vagabundo.
Perde-se o referencial de que essa figura é o gestor administrativo e econômico do país", diz Lucia. Isso não quer dizer que os jovens estejam observando o noticiário como espectadores passivos. "Eles estão participando politicamente, mas não é um movimento de multidão. Estão mudando a sociedade deles por meio dos seus próprios movimentos culturais, como o hip hop, com o violão e o grafite", diz Soraia, reforçando a idéia de que, no caso da população juvenil, a definição de participação não deve ficar circunscrita às associações formais. |
Educação para o público
Pais e educadores podem estimular uma maior participação da juventude. Como? "Abrindo espaços para os jovens se expressarem e ajudando a formalizar os grupos que já existem", diz Miriam Abromovay. O que costuma acontecer, segundo a pesquisadora, é que os adultos têm uma visão de que esse é um grupo a ser controlado. E essa relação precisa mudar. "Precisamos começar a pensar no que eles desejam e incorporar a cultura juvenil."
Para isso, são necessárias muitas instâncias de diálogo - na família, na escola, na comunidade. Sem autoritarismos, com a recusa pura e simples da opinião do jovem, nem complacência desmedida, na busca de agradar o jovem a qualquer custo. A convivência em ambientes repressores ou indiferentes, na família ou na escola, deixa a juventude mais suscetível à sedução de grupos manipuladores. "Aquele que tem mais bagagem está mais preparado para dialogar com as novas referências e responder de maneira mais crítica", diz Tiago. E de agir com mais responsabilidade.
É fundamental criar oportunidades para o debate. "Precisamos trazer a discussão dos problemas sociais para o cotidiano", diz Soraia. A receita é "falar, falar, falar" sobre a Constituição, a democracia, a exploração social, os direitos humanos, a tolerância. Quando se acostumam ao exercício da crítica, os jovens tendem a transferir seus conceitos para os pequenos problemas do dia-a-dia. "Ao sentir a força que têm, como são capazes de fazer os questionamentos e de se posicionar, eles começam a ter consciência de grupo e um projeto político." |
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