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Por si mesmo

Para tornar-se autônomo, capaz de se cuidar, o jovem enfrenta uma revolução orgânica. A novidade é que os hormônios não são os protagonistas desta história

07/03/2012

07/03/2012

Por Karina Yamamoto

Durante a segunda década da vida, além das visíveis mudanças no corpo que evidenciam o sexo, uma outra revolução acontece dentro da nossa cabeça. Tanto no sentido figurado quanto no literal. O cérebro passa por uma série de transformações, cujo objetivo é adquirir as competências necessárias para amadurecer como adulto, incluindo tomar conta de si mesmo. Uma parte desses eventos fisiológicos ajuda a explicar o gosto que muitos jovens demonstram pelo risco, por que são impulsivos, valorizam tanto a turma e estão sempre dispostos a questionar a autoridade. Ou seja, o mesmo processo que permite aos jovens se tornarem mais cuidadosos em relação a sua integridade também abre brechas para atitudes que podem, eventualmente, contribuir para prejudicar sua saúde. 
A neurociência já começa a entender o que acontece nesse período. 

Com essas informações, os adultos podem compreender melhor o processo e interagir de forma mais positiva com os jovens, dando-lhes o necessário suporte para que tomem suas decisões. Porque é disso que se trata: tomar decisões. E algumas orientações antigas, antes baseadas apenas no senso comum, agora se comprovam eficazes: fazer esporte nessa fase, por exemplo, é mesmo uma ótima solução para os conflitos do corpo - e do cérebro também. Afinal, para a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, autora do livro "O Cérebro em Transformação", este órgão é quem comanda. "É preciso acabar com essa besteirada de que são os hormônios e pronto", diz Suzana, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Em seu livro, Suzana afirma que a fase juvenil é, numa visão biológica mais crua, também o período em que o cérebro se torna capaz de lidar com as competências reprodutivas adquiridas na puberdade e suas conseqüências. Ou seja, depois de incorporados os interesses pelo sexo, é hora de aprender a enxergar a vida levando em conta mais essa nuance. O que nem sempre é fácil. Até porque, ao mesmo tempo, é preciso reaprender a lidar com o novo corpo. Ao final do estirão de crescimento, o córtex parietal, que é responsável pelas informações sensoriais, passa por uma faxina de ligações sinápticas. Assim, as conexões pouco utilizadas entre uma célula do cérebro e outra são eliminadas. Provavelmente, vão para o beleléu aquelas que representavam o esquema corporal antigo. 

O que pode ajudar nessa fase? A primeira solução é olhar-se bastante no espelho. A segunda é um bom e velho hábito: praticar esportes. As duas estratégias ajudam a enviar repetidamente sinais de como é esse "novo" corpo, facilitando sua percepção e o convívio com ele. "A preocupação com a imagem do corpo leva o adolescente para a academia, o que é muito bom porque além da satisfação que a prática de exercícios proporciona, melhora a auto-estima e há espelhos por todo lado", diz Suzana. Desde que não haja exageros, é claro.

Em busca do prazer

Do ponto de vista do cérebro, há ainda outra vantagem na prática regular de exercícios ou esportes. Quando se exercita, o organismo libera substâncias que nos dão sensação de bem-estar - o que é mais que bem-vindo no caso dos jovens. É que, nessa fase, o cérebro perde um terço dos receptores de dopamina, uma das principais substâncias responsáveis pelo nosso prazer. Isso acontece numa região (núcleo acumbente) que faz parte do nosso sistema de recompensa, um grupo de estruturas responsáveis por literalmente recompensar atitudes úteis (ou, ao menos, interessantes para nossa sobrevivência). Como conseqüência dessa perda, fica mais difícil agradar a esse sistema. 

Receber um afago dos pais ou ganhar uma sobremesa - mimos que fazem a felicidade de uma criança - não provocam nem cócegas no sistema de recompensa de rapazes e moças. Sob esse aspecto, fica mais fácil entender dois males de que padecem muitos jovens: o tédio e a preguiça. Se o sistema de recompensa está meio para baixo, é compreensível também a ânsia dos jovens por novidades e situações de risco. Eles precisam de estímulos mais intensos e com maior freqüência para se sentirem bem. 

Outro setor cerebral em franca mudança é o córtex pré-frontal - uma área que se localiza bem atrás da testa. Ela é responsável pelo que os adultos chamam de "juízo". A capacidade de se colocar no lugar do outro e de prever as conseqüências de um ato e até conseguir articular todas as informações recebidas em prol das duas primeiras atitudes são tarefas dessa região. Nesse período da vida, ela também elimina as ligações entre as células cerebrais que são pouco usadas, como no córtex parietal, já citado. Ao mesmo tempo, os neurônios estão passando por uma transformação que aumenta a velocidade dos impulsos elétricos que os une, trazendo mais agilidade mental. 

Às vezes, pode ser difícil conciliar um sistema de recompensa ávido por emoções intensas com um córtex pré-frontal ainda em maturação. O primeiro quer aventuras e o segundo ainda nem sempre é capaz de sinalizar o real perigo da situação. Começam os conflitos: os adultos, investidos ou não de autoridade, tentam impor limites e os jovens reagem com rebeldia ou revolta. Proibir, nessa fase, acaba tendo o mesmo efeito de um incentivo. O melhor, recomendam os especialistas, é procurar ajudar o jovem a tomar a melhor decisão possível. 

Grande parte dos conflitos se deve ao fato de um lado querer decidir pelo outro - aí se apela para o poder, avalia Suzana Herculano-Houzel. Acontece que, mesmo sem estar completamente maduro para escolhas, o jovem precisa treinar essa capacidade e, de preferência, com a retaguarda dos adultos à sua volta. "O que a gente pode fazer é ajudar e torcer para que ele se decida pelo melhor, mas a decisão é dele", completa Suzana. Como ajudar? Apresentando opções, muitas mesmo, o maior número possível delas. "Não se trata de educar para a adolescência, mas de explorar, de apreender o processo em curso nesse período da vida", acrescenta o psicanalista André Gilles, da Universidade Estadual de São Paulo, em Bauru. "A adolescência é um momento que não deve ser encurtado nem controlado."
Novas experiências

Tomar decisões é mesmo o aprendizado crucial nessa etapa, marcada por muitas novidades. "Várias primeiras experiências que acontecem nessa fase de vida trazem riscos à saúde: a primeira dose de álcool, de fumo ou drogas, além da iniciação sexual, que pode abrir as portas para as doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a Aids, e para a gravidez precoce", diz o médico Mauro Fisberg, coordenador clínico do Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da Universidade Federal de São Paulo. 

E se não há uma preocupação com doenças típicas dessa fase, isso não significa relaxar a atenção. "É nessa idade que se iniciam as doenças de gente idosa", diz o clínico geral Arnaldo Lichtenstein, do Hospital das Clínicas, em São Paulo. "Consumir álcool não mata o jovem, mas, depois de 30 anos, uma cirrose pode tirar sua vida", diz. Muita informação e diálogo sobre os perigos para a saúde e sobre que cuidados tomar com o corpo são a melhor prevenção contra problemas no futuro. Ainda valem as mesmas regras de ouro para a vida toda: comer bem, dormir bem e se exercitar. 

E se divertir, é claro. A alegria é um remédio poderoso, que gera uma disposição positiva para o funcionamento de todo o organismo. Os palhaços dos Doutores da Alegria, ONG que leva diversão a crianças e jovens hospitalizados, obtêm resultados concretos - como a diminuição do tempo de internação - nos locais onde atuam. 

E sabem que o jovem exige uma comunicação peculiar. "Os palhaços têm de buscar um canal específico para a interação e, na relação com os jovens, o lúdico fica bem menos explícito que com as crianças", diz a psicóloga Morgana Massetti, coordenadora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento dos Doutores. Rir, explica Morgana, transforma a realidade da doença. "Os Doutores estão atrás da parte saudável dos pacientes", diz a psicóloga. Então, se a conversa com o jovem azedar, lembre-se do potencial de mudança que uma bela gargalhada pode produzir.