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O desafio do autocuidado

Adolescentes e jovens enfrentam muitas turbulências e cabe à sociedade ajudá-los a desenvolver a própria autonomia

07/03/2012

07/03/2012

Por Albertina Duarte Takiuti

Adolescência e juventude são reconhecidas como uma travessia do mundo infantil para o adulto, em que riscos e desafios contribuem para a intensa vulnerabilidade. Essa fase vulnerável pode ser acentuada por comportamentos de risco, pois se caracteriza também pela busca de auto-afirmação, vivências de novas experiências, contestação, magia e onipotência. 

Nessa fase, podemos observar a perda da identidade infantil, incluindo a visão que se tem dos pais e do mundo na infância, e a busca de identificações longe das instituições e das autoridades constituídas, como família e escola. Isso faz parte do trânsito a ser percorrido pelo adolescente e pelo jovem, que tende a assumir atitudes quase sempre diferentes ou contrárias aos padrões já estabelecidos. 

Observamos também a despedida do corpo infantil e a construção da nova imagem corporal. A cultura narcísica, do "eu sou mais eu", tem sido apontada como fonte geradora de dificuldades para lidar com as diferenças em relação ao outro. Para ser admirado, o adolescente deve ter boa aparência, obter marcas de desempenho e competitividade máximas em tudo que faz, não deve mostrar medos e fraquezas. O padrão eugênico de beleza, constituído de atletas musculosos, tem estimulado o império do corpo vencedor. 

Adolescentes e jovens vivem hoje uma exploração cada vez maior em relação aos aspectos físicos, e a pressão da mídia, dos amigos, de uma atitude consumista em relação aos trajes, aumentam a insegurança e a necessidade de aprovação. Poucos adolescentes têm noção do tempo de crescimento da face, dos braços, do tronco, da altura, da distribuição da gordura, o que os leva muitas vezes a fazer exercícios exagerados na busca do corpo ideal. 

Com a mudança da atitude em relação aos pais e adultos, que até então eram idealizados e começam a ser questionados, os adultos próximos do adolescente e do jovem passam a sofrer, com dificuldade para entender os novos papéis, para dialogar e para escutar. Pois é nesse momento - em que a comunicação entre o jovem e o mundo dos mais velhos não é boa - que ele mais necessita de tempo, apoio, estímulo, para poder compreender o que está ocorrendo consigo mesmo. 

É preciso saber também que o cotidiano do adolescente e do jovem constrói-se num mundo em que prevalecem o imaginário, as expectativas, as esperanças. É bom sonhar com estrelas inalcançáveis. O imaginário parece tão concreto quanto tudo aquilo que o jovem toca. Não se trata de uma fase de sonhos inúteis e sim de uma travessia em que moças e rapazes recorrem às fantasias para fugir de incompreensões, responsabilidades e exigências do cotidiano. 

Ser adolescente e jovem, hoje, é viver o amor no tempo da Aids; da violência que faz do homicídio a maior causa de morte juvenil; do tráfico de drogas que se torna mercado de trabalho, e do uso abusivo de drogas transformado em combustível de ilusões e de falsas sensações de liberdade. É correr o risco de uma gravidez, conseqüência de uma relação de pouco tempo (3 meses, 6 meses), ainda sem vínculos e que, nas relações desiguais dos gêneros, será assumida pela mulher e sua família.

Aprendizes da esperança

O que fazer para que os jovens não corram riscos? O que fazer para que mantenham a energia e tenham forças para resistir e enfrentar os desafios? Como contribuir para que se mantenham aprendizes da esperança? 

Os adolescentes e jovens necessitam de mecanismos facilitadores para que compreendam o que está ocorrendo com eles. É preciso compensá-los com ganhos para facilitar o necessário exercício do convívio com frustrações, para que busquem atividades que favoreçam estilos de vida saudáveis, com formação plena como ser humano, auto-estima individual e coletiva, e sentimentos de solidariedade. 

A busca de relações democráticas nas práticas institucionais governamentais ou não-governamentais que envolvem adultos, adolescentes e jovens, deve pressupor a qualidade participativa juvenil - como protagonista - na discussão e na resolução dos seus problemas, a partir de suas necessidades, dos seus desejos e de sua capacidade transformadora. 

Por meio de discussões, eles trazem à luz seus variados perfis socioeconômicos, suas diferentes experiências, suas típicas e atípicas vivências em histórias e culturas diversificadas. Ouvir o jovem é um instrumental de conhecimento de seu estilo de vida, do retrato do seu mundo, dos caminhos que percorre, dos pacotes de sonhos que se abrem, dos projetos a se realizarem e um benefício valioso aos estudiosos e interessados em seu universo.
O desafio do autocuidado

A construção do autocuidado juvenil é um dos grandes desafios sociais. A sexualidade continua sendo um dos maiores mistérios a ser desvendado nessa nova fase da vida. Os adolescentes são surpreendidos por um emaranhado de idéias, reações e condutas que invadem suas vidas. 

As experiências dos serviços existentes têm demonstrado que tanto o despertar da sexualidade como seu exercício continuam impregnados por mitos e possibilidade de intercorrências, como a atividade sexual precoce sem proteção, a gravidez não esperada, o aborto, as DSTs e a Aids. 

Esses males do amor são gerados pela falta de diálogos entre o mundo adulto e os jovens e entre os próprios jovens. Por isso, há necessidade de muitos espaços educativos, desprovidos de juízes e censores. O jovem com uma imagem negativa, com auto-estima negativa, sem projetos para o futuro, passa a negociar com a vida, com o parceiro e com os amigos, em condições de insegurança e risco. A construção do autocuidado não é uma tarefa individual do adolescente e do jovem, e sim uma ação coletiva da sociedade. 

Os adolescentes e jovens cada vez mais conhecem os métodos anticonceptivos, sabem da importância do uso de preservativos, mas para transformar esse uso em prova de carinho para com ele mesmo e com o parceiro é preciso que tenham segurança, e não medo de dialogar, interiorizando a importância do seu autocuidado para a sua proteção. 

Pesquisa da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, em conjunto com a Organização Mundial de Saúde, observou que a garota, nas relações sexuais, tem medo de não agradar, e o rapaz tem medo de falhar. Conclusão: a insegurança ainda influencia os relacionamentos. 

As características da adolescência e da juventude e as relações de gênero estão diretamente envolvidas com a negociação e a prevenção, nos riscos da sexualidade. Com a ocorrência, cada vez mais precoce, da primeira relação sexual (média entre 14 e 17 anos), maior é a insegurança e o medo de ambos os sexos. 

Mas o debate vai além: "Os adolescentes conhecem ou não os métodos anticoncepcionais?". As pesquisas mostram que 90% conhecem os métodos tradicionais e os últimos lançamentos. Isto, porém, não garante o uso na primeira relação nem a disciplina na continuidade. A literatura mostra que eles utilizam pouco ou de forma descontínua os métodos anticoncepcionais. E os dados apontam dificuldade na mudança de comportamento em curto espaço de tempo. 
O autocuidado é uma conseqüência de ações integrais e intersetoriais. A experiência de 19 anos do Programa do Adolescente da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo constatou que o conhecimento e a informação sobre os riscos não bastam para mudar o comportamento. O caminho encontrado foi estimular o diálogo, realizar oficinas de sentimentos e atendimento integral. Grupos nos quais o adolescente possa falar e ouvir têm mostrado resultados. Falta, porém, fazer muito mais: buscar cada vez mais parcerias e intersetorialidade. 

Desejamos constituir políticas públicas para adolescentes e jovens no sentido de contribuir para que este período transcorra de forma a impedir ou minimizar escorregões para a transgressão. O fundamental é que a passagem pelo período seja sentida pelo jovem como um crescimento. É preciso incentivar a multiplicação de espaços de convivência e de equipamentos sociais que acolham desabafos e combatam fatores de riscos que possam comprometer o desenvolvimento e os projetos de futuro da juventude. 
Sobre a autora

Albertina Duarte Takiuti é médica ginecologista, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo


Depoimento

"Os jovens precisam assumir a discussão sobre sua saúde. Essa é a tecla em que estou sempre batendo no trabalho com jovens em Fortaleza, como coordenadora de programas no Instituto da Juventude Contemporânea (IJC). 

A gente leva informação e formação sobre questões de saúde para dentro das escolas. Discutimos a prevenção das DST/Aids, a gravidez não planejada, a higiene pessoal, a responsabilidade dos cuidados com o corpo, as atitudes, o futuro etc., tudo dentro de um contexto maior de educação, de projeto de uma vida saudável. 

O trabalho dura cerca de um ano, mas o jovem não encontra muita vezes continuidade dessa proposta em seu meio. A jovem que engravida é aconselhada a deixar os estudos para cuidar do bebê. O jovem pai é aconselhado a deixar os estudos para trabalhar. O jovem ou a jovem que vão ao posto de saúde pedir um preservativo ouvem da atendente que eles 'não têm idade para isso'. Os professores também não sabem como orientar, não querem assumir essa tarefa. 

Compreendendo esta situação acredito que o jovem precisa assumir a necessidade de se educar e educar outros jovens. Só assim a gente pode ter esperança de forçar a mudança dessas posturas na família, no posto de saúde e na escola." 


CAMILA BRANDÃO, 24 anos 
Estudante de Ciências Sociais e coordenadora de programas do Instituto da Juventude Contemporânea.