Você está aqui: Página Inicial Acervo Edição 4 Emoções jovens

Emoções jovens

Numa fase de emoções intensas e oscilantes, a ocorrência de transtornos mentais pode ser fonte de equívocos e preconceitos

07/03/2012

07/03/2012

Por Cristiane Ballerini

Juventude rebelde, agressiva, deprimida, hiperativa, desafiadora. Essa visão que alguns setores ainda cultivam sobre a fase juvenil, percebida como doença, como um problema em si, que ameaça a ordem, parece ter distorcido também a perspectiva de muitos daqueles que deveriam acolher os jovens e suas questões. Quando o assunto é saúde mental, médicos, psicanalistas e educadores são unânimes em alertar para essa abordagem preconceituosa, que crava uma interrogação no destino dos 7 milhões de jovens brasileiros que, estima-se, sofrem de algum transtorno psiquiátrico. 

A questão é ainda mais delicada exatamente porque um dos maiores desafios dos jovens é inventar e construir um projeto de vida a partir de si e para si mesmo. E essa nova inserção no mundo, longe da proteção familiar, não se dá sem dores e oscilações. "Por isso, é preciso cuidado na análise dos casos. Quando se tem uma visão 'patologizada' dos jovens, existe o risco de se tomar uma crise existencial como sinal de doença. A timidez pode ser taxada como fobia social ou o medo visto como pânico", diz Cristina Vicentin, professora de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autora do livro "A Vida em Rebelião - Jovens em Conflito com a Lei". 

Um equívoco neste tipo de diagnóstico pode levar ao uso desnecessário de medicamentos. Algumas drogas podem induzir à passividade excessiva, funcionando como "tampões" das verdadeiras razões para as inquietações do jovem. Outras, usadas como tranqüilizantes, podem viciar. "É claro que medicamentos são úteis e necessários em várias situações, mas seu uso não pode ser banalizado como vem ocorrendo. Isso é reduzir a complexidade do ser humano a uma questão bioquímica", diz a psicanalista Cleusa Pavan, do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo.

Inibições e estardalhaços

Os médicos definem transtorno mental como um padrão comportamental ou psicológico associado com sofrimento e incapacitação. Para pais, professores e orientadores, pode ser difícil diferenciar as situações. Mas a constância dos comportamentos é um dos sinais principais. As variações de humor, por exemplo, são bastante comuns na adolescência e juventude. As emoções flutuam intensamente e, às vezes, o jovem pode se encontrar em um estado depressivo passageiro. "Mas aquele que sofre de depressão não apresenta oscilação. A visão negativa, a tristeza sem razão ou desproporcional aos acontecimentos são uma constante", diz a psiquiatra Sandra Scivoletto, do Hospital das Clínicas de São Paulo, co-autora do livro "A Saúde Mental do Jovem Brasileiro". 
Outro aspecto importante é o grau de limitação que essas "dores" impõem ao jovem. Se ele fica impossibilitado de realizar tarefas e circular pelos locais que costuma freqüentar, é aconselhável buscar orientação rapidamente. 

Para a psicanalista Cleusa Pavan, a ocorrência dos transtornos psíquicos juvenis se relaciona com os poucos recursos que a sociedade disponibiliza às novas gerações para dar sentido às próprias vidas: "A manifestação de sintomas são uma reação e os jovens podem reagir com 'inibição' ou com 'estardalhaço'". Entre as "inibições" estão as depressões, as fobias, as obsessões, as melancolias, as psicoses, a anorexia, a bulimia, as toxicomanias. No campo dos "estardalhaços" figuram a violência, a delinqüência, as manias e o suicídio. Atualmente, as ocorrências mais freqüentes são a depressão e as dependências de diferentes espécies de objetos: drogas lícitas ou ilícitas e psicofármacos, mas também musculação, sexo, uso de grifes. 

Existem ainda, nesta faixa etária, ocorrências mais raras, como a esquizofrenia e o transtorno bipolar, e que por sua gravidade e poder de incapacitar devem ser tratados com a máxima atenção e urgência. Mas os próprios especialistas podem levar algum tempo para fechar o diagnóstico, já que são muitos os aspectos a serem analisados. 

A arquiteta I. A. recebeu o diagnóstico de esquizofrenia do filho de 18 anos recentemente. É uma notícia que nenhum pai quer ouvir. E esse desejo pode contribuir para adiar a busca por ajuda. "Eu queria justificar tudo: o comportamento dele era 'culpa' da minha separação, da maconha, das más companhias", diz I. A. Durante uma crise delirante, que incluiu ameaças à mãe, a família aceitou a necessidade de hospitalização temporária. Após um período curto de internação, o tratamento - com medicamentos, atendimento psiquiátrico e psicanalítico - já começa dar resultados: "Estamos conseguindo ter boas conversas e ele parece mais contente na faculdade", diz a mãe.
Impulso fatal

O mais dramático dos transtornos mentais é o que leva ao suicídio, e na juventude ele ganha contornos ainda mais incompreensíveis. Por causa da subnotificação, o número de jovens brasileiros que tiram a própria vida não é conhecido. O que se sabe é que o suicídio nessa idade é marcado pela impulsividade. Muitas vezes, o que jovem deseja, aparentemente, não é a própria morte, mas sim marcar uma posição em defesa de algo ou deixar culpados aqueles com quem convivia. 

O sofrimento intenso também é um mecanismo ligado à prática suicida nesta fase. O rompimento de um namoro, por exemplo, pode levar a atos desesperados, já que nessa idade a vivência do tempo faz com que as angústias pareçam eternas. Em geral, as meninas tentam contra a própria vida mais vezes, possivelmente com o intuito de chamar a atenção dos adultos. Já os rapazes concluem o ato suicida em maior número do que as garotas.
A bala e o gatilho

O potencial da herança genética no aparecimento das doenças mentais ainda está em discussão. Com relação à depressão, por exemplo, um histórico na família aumenta os riscos de aparecimento da doença, mas o fator desencadeante para os quadros depressivos está no ambiente. Situações estressantes, instabilidades, privações constantes, espaços de convivência hostis e violentos podem fazer surgir o problema. "A característica genética é a bala dentro do revólver. Mas é o ambiente que puxa o gatilho para a ocorrência de transtornos mentais", diz Sandra Scivoletto. 
Várias pesquisas indicam que as ocorrências são maiores entre as camadas mais pobres. Com acesso restrito ao mercado de trabalho e à renda, também mais jovens pobres vêem suas aspirações e desejos se perderem. "Sem realizações, fica-se tomado por ressentimento, mágoa, desespero. Perde-se a saúde mental e a física", diz Cleusa Pavan. 

Mas a psicanalista Simone André, responsável pela área de Juventude e Educação Complementar do Instituto Ayrton Senna - que realiza projetos com cerca de 200 mil jovens em todo o país - lembra que a "fome de sentido" está em jovens de todas as classes sociais: "Se aos meninos das comunidades pobres faltam oportunidades", diz ela, "aos filhos da elite está tudo dado, o mundo está pronto e eles sentem que não podem mudá-lo". Diariamente, ressalta, milhões de jovens enfrentam e superam as dificuldades de suas vidas.
Sem atendimento

A falta de investimento em pesquisas faz com que pouca coisa se saiba - cientificamente - sobre a saúde mental da juventude brasileira. Mas é fato que faltam especialistas e serviços específicos. "Os jovens acabam sendo encaixados em programas para adultos e isso não dá certo. Então, abandonam o tratamento. Muitas vezes, nem mesmo chegam a um profissional. Ficam sem atendimento", diz Sandra Scivoletto. 

No hospital dos Servidores do Estado, mantido pelo Ministério da Saúde no Rio de Janeiro, médicos de diversas especialidades se mobilizaram para criar um serviço de atendimento multidisciplinar ao jovem. "Por conta dos poucos recursos", conta Ana Bentes, única psiquiatra especialista do hospital, "os adolescentes e jovens entravam de forma acidental na engrenagem do hospital e saíam sem cuidados adequados. Criamos, então, uma proposta de atendimento integral, visando também a saúde mental." 

Profissionais como ginecologistas, endocrinologistas e nutricionistas integram a equipe. "É um atendimento individual, que percebe as demandas médicas e, ao mesmo tempo, recebe e trabalha as angústias e os sonhos desses rapazes e moças", diz Ana Bentes. Para além dos muros do hospital, o grupo estabeleceu parcerias com várias organizações, na tentativa de dar lugar também às necessidades de expressão e realização dos pacientes. É o caso da Spectaculu, que usa a arte para incluir jovens de comunidades pobres no mercado de trabalho. 

Uma das maiores recompensas para os envolvidos na iniciativa é o vínculo de confiança que os mais de 300 jovens atendidos por mês têm com o serviço, diz Ana Bentes. "Outro dia, nós ouvimos de um jovem: 'vocês são nosso plano de saúde'", conta sorrindo.