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Diálogos de eras

Em espaços culturais, na internet, na praça pública ou ao redor de uma fogueira indígena, jovens chilenos entram em contato com sua cultura ancestral participando das atividades da Fundação MuseoVivo

08/03/2012

08/03/2012

Por Cecília Dourado

O que um homem que viveu há 3 mil anos pode ter a dizer a um jovem que mora numa cidade moderna? O que um habitante das míticas e remotas ilhas de Chiloé, no sul do Chile, tem a dar para um jovem que vive na capital, Santiago? Para responder a essas e outras indagações, a Fundação MuseoVivo propõe o diálogo social e cultural entre diversas gerações, etnias, comunidades e culturas do Chile. Essa fusão de elementos culturais diversos já começa nos próprios meios utilizados pela organização para propagar seu trabalho: outros museus e espaços, da internet a praças públicas e bibliotecas ao redor de fogueiras indígenas. 

A fundação desenvolve uma série de atividades dinâmicas por meio de conexões virtuais, geográficas e de idéias, diz sua fundadora e diretora, a psicóloga Margarita Ovalle. Inicialmente, ela pensava em fazer "um museu com conteúdos virtuais vivos", mas logo se deu conta de que não havia necessidade de mais um museu. "Os museus já existiam, mas faltava ocupá-los com vida", diz. Prescindindo então de um espaço físico fixo, ela decidiu reunir um acervo "daquilo que é importante para uma sociedade" e levar "esses tesouros ao conhecimento público de diversas formas". 

Pós-graduada em Antropologia, Ovalle parte do princípio de que o jovem, principalmente, deve ter contato com culturas múltiplas, em particular com aquelas que contribuíram para a formação da identidade de seu país ou região. Na época da globalização, é preciso ter consciência da riqueza cultural local para avançar, rumo ao futuro, munido de identidade, dignidade e auto-estima: "O conhecimento e a convivência com diversos modos de vida resultam na tolerância e no enriquecimento cultural", observa.

Espaços de interação

A fundação promove exposições e conferências em "museus aliados" e mantém atividades em escolas e universidades, estações de metrô, praças e ruas. Os "projetos artísticos e lúdicos", por exemplo, buscam atrair jovens para a diversidade cultural com a criação de jogos em espaços públicos. É o caso da instalação, em parques, de "quebra-cabeças gigantes" - estruturas de 1,80 m de altura formadas por quatro cubos de madeira sobrepostos, que lembram totens, mas que são móveis. As faces dos cubos são pintadas com figuras mitológicas e históricas do Chile. A idéia é que, ao manipulá-los, a população, sobretudo crianças e jovens, tenha uma experiência lúdica com a sua própria história e mitos. 

Outro projeto é o das "fogontecas", iniciadas em 2003 nas ilhas de Chiloé. "Fogon" é uma construção tradicional indígena: casa pequena, de madeira e, às vezes, teto de palha, onde as pessoas se reúnem para contar histórias ao redor de uma fogueira. A MuseoVivo criou as "fogontecas" - mistura de "fogon" com biblioteca. Nesses espaços - que já são cinco, alguns dos quais substituem fogueiras por aquecedores -, as pessoas podem retirar livros, e jovens e velhos fazem rodas de conversas. A idéia é resgatar a bagagem ancestral chilena, não no sentido de tentar inutilmente deter o tempo, mas de perceber a "riqueza que existe numa cultura que corre o risco de extinção e, assim, chegar ao futuro com referências multiculturais", diz Ovalle. 

Segundo a psicóloga, os resultados têm sido animadores. Os jovens se interessam pelo que os mais velhos têm a dizer e descobrem uma grande riqueza cultural no meio de comunidades pobres. As gerações passaram a se encontrar também em outros eventos, como as festas populares. Na comunidade de Coldita, em Chiloé, os moradores editam um boletim, que é encartado na "Revista MuseoVivo", publicada com apoio do Departamento do Livro e Cultura. "A postura dos jovens que trabalham na publicação mudou", conta. "Eles se tornaram mais seguros e confiantes." 

Para Ovalle, o encorajamento do diálogo entre culturas é útil e desejável para toda a América Latina e seria fácil repetir a experiência chilena em outros países, "porque estamos trabalhando com a essência do humano"