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De acessório a essencial

O ensino da arte começa a colher os frutos de uma mudança de mentalidade: em vez de ser tratada nas escolas como atividade lúdica, a arte reincorpora a sua importância como disciplina do conhecimento

08/03/2012

08/03/2012

O ensino da arte está começando a colher os frutos de uma mudança de mentalidade: em vez de ser tratada nas escolas como “momento cultural” ou atividade lúdica para “alívio das tensões”, a arte reincorpora a sua importância como disciplina do conhecimento, ampliadora de consciência e capaz de promover mudanças no mundo. “Ainda que estes novos ares não tenham chegado ainda àquela melhoria desejada na sala de aula, é possível dizer que o pior estágio da educação artística, aquele da folha mimeografada para colorir, está ficando no passado”, afirma Evelyn Iochpe, com o conhecimento de causa de quem fundou e há 15 anos preside o Instituto Arte na Escola, a maior referência nacional na capacitação e qualificação de professores de arte da rede pública. 

De fato, no fim dos anos 80, o objetivo da aula de arte era fazer o estudante feliz. Essa arte esvaziada de seu conteúdo foi “um efeito danoso das chamadas décadas da livre expressão”, diz Evelyn, referindo-se ao fenômeno das Escolinhas de Arte dos anos 60 e 70. Para completar o quadro, a disciplina nem sequer era obrigatória no currículo escolar. Mas uma pesquisa, realizada em 
1989 pela Fundação Iochpe para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, revelava descontentamento por parte dos professores. Eles que riam mais acesso ao conhecimento sobre história da arte e concordavam que era preciso partir da obra de arte para realizar o seu trabalho educacional em sala de aula. Capacitar esses professores, numa aliança com as universidades públicas, tornou-se um desafio. O projeto Arte na Escola surgiu, então, como o articulador de uma rede de educação continuada entre as universidades – o lugar certo para produzir o repertório cultural necessário para que novas metodologias de ensino, como a abordagem triangular de Ana Mae Barbosa (ver, contextualizar e fazer arte), fossem aplicadas, principalmente nas artes visuais. O passo seguinte foi a criação e a avaliação de materiais didáticos que falassem a língua do professor: milhares de vídeos, kits educacionais com reprodução de obras pertencentes aos museus brasileiros, CDs, DVDs e outros materiais de apoio à visitação de museus, salões e bienais foram desenvolvidos. “Tudo para iluminar a construção da obra de arte”, explica Evelyn, para quem somente a imagem de segunda mão na sala de aula não basta: “É preciso
o contato com a arte dos museus e galerias, no seu original”.
Descobertas e surpresas

Hoje, os números da Rede Arte na Escola são expressivos: mais de 4 milhões de alunos da rede pública, do ensino infantil, fundamental e médio, são atendidos por 20 mil professores, capacitados pelos 55 pólos universitários. Entre eles, o jovem Richard Maus, bolsista do Pólo da Universidade Federal do Paraná. Violonista, 22 anos, estudante de música na Universidade, que atua no projeto "Quarteto de Cordas: uma experiência educativa", em que músicos entram na sala de aula para ministrar conteúdos peculiares aos instrumentos de corda e arco. "É a minha descoberta da música como disciplina didática", resume Richard, que nunca teve aula de música na escola. 

Para quem ainda tem dúvidas sobre a importância desse aprendizado, o resultado de um longo trabalho de 20 anos, realizado pelo sociólogo da educação Aaron Benavot em 63 países, mostrou, para surpresa dos próprios pesquisadores, que é o bom ensino das artes e das ciências que resulta na obtenção de índices econômicos maiores para os países em desenvolvimento - e não o ensino da matemática e da língua, como se buscava comprovar. Mas a fundadora do Arte na Escola não se surpreendeu. "Nós já sabíamos que o ensino da arte melhora a cognição de forma geral e que não se trata de perfumaria para ricos, como muitas vezes foi tratado".
O avesso

Apesar dos fatos positivos apontados, quase uma década depois de se tornar obrigatório no país, o ensino de arte ainda não chegou à metade das escolas. A obrigatoriedade foi uma conquista garantida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de dezembro de 1996. Mas, na prática, isto ainda não acontece plenamente. "A estimativa do próprio Ministério da Educação é de que 50% das escolas estejam sem o curso regular de arte por falta de professores", diz Evelyn Iochpe. 

Para reverter esse quadro, o MEC precisa formar novos docentes - por meio de consórcios com as universidades e de cursos à distância - até 2007. A meta, entretanto, não deverá se cumprir nesse espaço de tempo. "Não há vagas suficientes nas universidades e nem formas de custeio que dêem conta de todos os professores leigos que precisam ser capacitados".