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A pulsação do nosso tempo

A arte contemporânea supera as divisões do Modernismo e reflete o espírito de nossa época, ocupada com as questões da identidade: o corpo, o afeto, a memória

08/03/2012

08/03/2012

Por Katia Canton

Já dizia o crítico brasileiro Mario Pedrosa que "arte é o exercício experimental da liberdade". Eis uma ótima definição, sobretudo se entendermos que o conceito de liberdade depende de um contexto para se definir. O que é considerado um ato ou um pensamento de liberdade em um determinado momento histórico não o é necessariamente em outro. Em se tratando de arte, então, é importante que prestemos atenção nos sinais dos tempos e em seus significados. 

Bem, e qual é o significado da arte? Para começar, podemos dizer que ela provoca, instiga, estimula nossos sentidos, de forma a descondicioná-los, isto é, a retirá-los de uma ordem preestabelecida, sugerindo ampliadas possibilidades de viver e de se organizar no mundo. Como escreve o poeta Manoel de Barros: "Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber: / a) que o esplendor da manhã não se abre com faca / b) o modo como as violetas preparam o dia para morrer / c) por que é que as borboletas de tarjas vermelha têm devoção por túmulos / d) se o homem que toca de tarde sua existência num fagote tem salvação (...) Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios (...) / As coisas não querem mais ser vistas por / pessoas razoáveis:/ Elas desejam ser olhadas de azul - / que nem uma criança que você olha de ave". 

A arte ensina justamente a desaprender os princípios do óbvio que é atribuído aos objetos, às coisas. Ela parece esmiuçar o funcionamento das coisas da vida, desafiando-as, criando para elas novas possibilidades. Ela pede um olhar curioso, livre de "pré-conceitos", mas cheio de atenção. Os jovens já têm essa disponibilidade, mas é preciso estimular seu convívio com arte para facilitar e aprimorar essa percepção. 

Agora, ao mesmo tempo em que se nutre da subjetividade, há outra importante parcela da compreensão da arte que é constituída de conhecimento objetivo, envolvendo a história - da arte e dos homens -, para que, com esse material, se possa estabelecer um grande número de relações. Para contar essa história, a arte precisa ser plena de verdade, refletindo o espírito do tempo, com a visão, o pensamento e o sentimento das pessoas em seus momentos. 

Parece complicado? Pois pensar na arte como um conhecimento vivo, um tecido onde se costuram diariamente fios que compõem a vida, é uma forma de entender por que razão a maneira de encará-la também se modifica no decorrer dos contextos sócio-históricos. É mais que desejável, então, que os jovens se acostumem a pensar também sobre a arte de seu próprio tempo.

Arte moderna e vanguardas

De modo geral, podemos afirmar que a arte moderna, que se iniciou a partir da segunda metade do século 19 e abarcou todo o século 20, teve como mola propulsora o conceito de vanguarda. E o que isso significa? 

O termo vem do francês "avant-garde", que quer dizer "à frente da guarda". É um termo de guerra, que pressupõe duas idéias básicas: a de se estar "à frente", isto é, de fazer algo novo, e a de "guarda", que se liga à luta, à ruptura. Eram esses os desejos dos artistas modernos. As bases de todos os movimentos que eles criaram, independente de suas singularidades, estão ligadas às noções de novo e de ruptura. 

Buscando criar obras cada vez mais inovadoras e que pudessem romper com a ordem vigente é que os artistas modernos elaboraram seus movimentos. Afinal de contas, esses artistas pertenceram a uma era tremendamente intensa, que, no rastro da Revolução Industrial, urbanizou cidades, promoveu espantosas inovações tecnológicas, mas também produziu duas guerras mundiais, além da Revolução Russa, que acabaram por separar o mundo em blocos capitalista e socialista. Era preciso que a arte se tornasse tão inovadora e radical quanto a própria vida. 

Uma das invenções do século 19 e que teve um impacto fenomenal sobre a arte foi a fotografia. Ela liberou os artistas, até então incumbidos de registrar em suas telas pessoas, paisagens e fatos históricos para a posteridade. A fotografia poderia cumprir essa função, dando ao artista mais liberdade para criar, pesquisas e experimentar. 

No Modernismo, diversos projetos uniam artistas em diferentes movimentos, muitas vezes endossados por manifestos - textos que os explicavam e validavam. A opção pelo novo manifestou-se de maneiras muito diversas e particulares, ampliando enormemente as possibilidades artísticas que o século 20 trouxe para o mundo ocidental. 

No Impressionismo, por exemplo, os artistas queriam se liberar da representação realista e cheia de regras impostas pelas academias de belas-artes. No Cubismo, a fragmentação das imagens projetava simbolicamente a própria fragmentação do mundo da industrialização. Na arte abstrata, procurava-se uma síntese que transcendesse uma realidade de guerras, destruições e desigualdades. 

O que os unia era um posicionamento diante das mudanças trazidas pela sociedade industrial. Impressionismo, Pós-Impressionismo, Fauvismo, Expressionismo, Simbolismo, Cubismo, Futurismo, Surrealismo, Minimalismo... todos buscavam liberdade e autonomia para a obra de arte.
A cena contemporânea

Com o passar do tempo, no entanto, a arte moderna sofreu um desgaste. Por um lado, ela tornou-se tão experimental que acabou por afastar-se do público, que passou a achar suas manifestações cada vez mais estranhas e de difícil compreensão. Isso aconteceu particularmente a partir dos anos 60 e 70, em Nova York, para onde se transferiu a vanguarda artística dos centros europeus depois da Segunda Guerra, e onde várias noções modernas foram radicalizadas. 
No movimento minimalista, criado ali, o lema era "Menos é Mais"; a arte não deveria ter autoria, nem passado ou futuro, apenas a ação do momento presente. "O que se vê é o que se tem", diziam os minimalistas. "Não há nada por trás das formas." 

Em meio a isso, as pessoas sentiam falta de histórias e da possibilidade de serem arrebatadas de emoção pelas obras de arte. Por outro lado, a noção do novo, fundamental para a vanguarda, também se tornou algo improvável, sobretudo num mundo repleto de informações e estímulos. 

Com a mudança global que se delineia a partir dos anos 80, torna-se mais gritante ainda a necessidade de uma modificação no conceito de arte. Mais do que isso: torna-se necessário que a arte se modifique para sobreviver. E é aí que sai de cena a arte moderna e sobe ao palco a contemporânea. 

Para começar, a organização prévia do mundo entre capitalismo e socialismo entra em colapso com o fim do regime socialista soviético e a queda do muro de Berlim (1989). As novas realidades políticas provocam um fluxo geográfico internacional, fazendo com que os deslocamentos humanos instaurem uma nova noção de identidade e de nacionalidade. 

A virtualização produz uma profunda modificação na maneira como as pessoas se relacionam. A relação tempo e espaço, que antes obedecia a uma proporcionalidade, agora é instável. 

Se os estímulos de informação proliferam sem limites temporais ou espaciais, tornando-se muitas vezes excessivos, a memória torna-se um bem maior. Para o cientista russo e Prêmio Nobel, Ilya Prigogine, "o fim da humanidade seria uma sociedade que perdeu sua memória". Prigogine aponta para uma valorização cada vez maior da memória como um bem ao qual muitas pessoas terão pouco acesso num futuro em que tudo é descartável. 

A importância dada à moda, às aparências e à "atitude", aliada a uma tecnologia sofisticada de cirurgias, implantes, aparelhos de ginástica e substâncias químicas, além das possibilidades genéticas que se abrem com os seqüenciamentos cromossômicos, fazem do corpo um campo de experimentações futurísticas. A busca pela originalidade, que caracterizava a vanguarda modernista do século 20, é substituída pela atitude de busca de reconhecimento, de celebridade. Transfere-se o alvo das preocupações da produção para o produtor, da obra para o autor. 

Tanta coisa acontece rápida e simultaneamente que afeta nossa capacidade de lidar com a memória, a afetividade, o corpo, a identidade, enfim. Esses, então, passam a ser os grandes assuntos a serem tratados pelos artistas contemporâneos, espécies de radares de seu próprio momento histórico. A arte abstrata continua a existir, mas é na figuração, nas narrativas, nas imagens ligadas à própria história de vida do artista e às micropolíticas referentes ao mundo em que vive que está o grande foco da arte contemporânea. 

Se fosse convidada a reformular o ensino da arte no momento contemporâneo, eu substituiria o estudo dos movimentos que caracterizaram a era moderna por esses grandes temas que acompanham a produção e o pensamento dos artistas contemporâneos, permitindo que a arte continue a fazer sentido e a ecoar nossa essência. 

Trabalhando nos sintomas desse cenário, grandes nomes internacionais parecem confirmar essa tendência. Cindy Sherman fotografa-se assumindo identidades variadas. A francesa Louise Bourgeois, com mais de 80 anos de idade, é uma das mais radicais artistas da atualidade, construindo universos escultóricos que mesclam autobiografia e erotismo. O norte-americano Mathew Barney cria em seus filmes uma mitologia miscigenada, misturando tempos e espaços. 

No Brasil, Adriana Varejão pinta fachadas de azulejaria portuguesa sangrando como se em carne viva, criando um potente comentário sobre a história colonial e seus rastros de sofrimento. Ernesto Neto constrói com náilon, espuma e enchimentos, verdadeiras metáforas de nossos órgãos e peles. 

Em meio a múltiplas possibilidades de usos de materiais, espaços e tempos, a arte contemporânea não separa a rua e o museu. O coreógrafo Ivaldo Bertazzo mescla tradições étnicas milenares com o gestual urbano de crianças e jovens de favelas brasileiras. O músico Naná Vasconcelos utiliza com precisão sons do corpo e voz de milhares de pessoas e afirma que Vila-Lobos é um "genuíno músico popular, já que consegue fazer ecoar os sons do povo, ainda que de forma sinfônica". 

Felizmente, a arte contemporânea tem a liberdade de apontar suas heranças e sua história sem precisar ir ao grau zero da originalidade e está cada vez mais infiltrada nas peles da vida. Assim ela permanece pulsando.
Sobre a autora

Katia Canton é PhD em Artes pela Universidade de Nova York, docente e curadora de arte do Museu de Arte Contemporânea, da Universidade de São Paulo, autora de vários livros, entre eles "Retrato da Arte Moderna".


Depoimento

"Com 15 anos, eu não sabia nada de música. Gostava só de rock e tinha vontade de tocar violão. Aí minha mãe me falou de um curso de música. Era o projeto Acordes Pão de Açúcar. Como o curso era de instrumentos de corda, me interessei, mas não tinha violão, só violino, viola, violoncelo e contrabaixo. 

Para começar, eu tinha de ver uma apresentação da orquestra do projeto. Por ser orquestra, a minha expectativa era que o programa seria chato, coisa erudita. Mas gostei e vi que com aqueles instrumentos eles também tocavam músicapopular. Comecei aí a aprender que segregar música, ou qualquer outra arte, é uma bobagem. 

Escolhi aprender violino e não deixei de gostar de rock, agora entendo mais. Hoje toco na orquestra do Acordes, formada por 40 músicos, e também dou aula no projeto. 

O Acordes me abriu um horizonte cultural, não só na música. A gente tem contato com história, outras línguas e culturas. Encontrei também um horizonte profissional. Estudo música na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, e estou em vias de acertar um intercâmbio cultural para estudar em uma universidade na Polônia." 


MATHEUS FRANZ CANADA, 21 anos 
Estudante de música e integrante do projeto Acordes, do Instituto Pão de Açúcar.