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A arte nossa de cada dia

O contato com a arte pode se limitar ao entretenimento e lazer ou ir além. Quatro jovens conversam sobre esse tema e os reflexos das manifestações artísticas em suas vidas

08/03/2012

08/03/2012

Além de entretenimento e lazer, a arte pode servir como instrumento de expressão social e construção da identidade, ajudar a promover inclusão social, denunciar uma realidade, resgatar uma tradição, sensibilizar para um aprendizado, e pode até se transformar em profissão. Onda Jovem convidou quatro jovens para trocar idéias sobre essas questões e propôs as perguntas iniciais e depois os jovens fizeram as suas.


Raimundo Fagner Monteiro Martins

Paulista de Ribeirão Pires, 18 anos, ator e músico dedicado ao resgate da cultura popular e participante da Arca, uma associação de artistas.


Ana Lucia da Silva Campos

Estudante de 16 anos, cursa a 8ª série em Goiânia (GO), curte hip hop e participa do projeto Arte, Circo e Cidadania na Escola de Circo Lahetô.




Dayana Roberta Silva Gomes

Tem 20 anos, é atriz formada pela Escola de Artes Cênicas do Maranhão e integrante da Rede Sou de Atitude, o núcleo jovem da ONG Agência de Notícias da Infância Matraca.




Thalles Carvalho Giangiarulo Rocha de Aguiar

Estudante de 20 anos, cursa Física na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), estuda alemão, pratica aikido (uma arte marcial), toca bateria e gosta de todo tipo de música, menos pagode.


Onda Jovem: O que é arte para você?

THALLES: Acho que arte é uma forma de transmitir a outras pessoas o que sentimos e como vemos a realidade em que vivemos. Além disso, a arte pode ser um meio de inclusão social e também de extravasar sentimentos represados. 

FAGNER: Arte é botar para fora aquilo que sentimos por meio de formas, movimentos e sons. 

DAIANA: É a arte de transformar pequenas coisas em grandes formas de expressão. Acho que essa arte de fazer a arte vai além dos limites humanos. 

ANA LUCIA: Para mim, arte é aquilo que dá liberdade ao ser humano de ir além do pensamento. A arte tem a capacidade de oferecer lazer e interação e dessa forma envolver todas as classes sociais.
Qual é o contato que você tem com a arte no seu dia-a-dia e como ela afeta sua vida?

DAIANA: Participo constantemente de seminários e oficinas de várias manifestações culturais. Faço dança contemporânea e adoro estar num palco. Também gosto de ler e de ver comédias, suspenses e dramas no cinema. Esses contatos com a arte me ajudam a desenvolver habilidades, demonstrar sentimentos, usar minha criatividade e ter sempre um novo olhar para as situações do dia-a-dia. 

THALLES: Eu tenho contato diretamente com a música. Toco bateria e meu irmão é baixista. Já toquei em várias bandas. Essa relação com a música foi a responsável por muitas amizades. Além disso, desde pequeno eu gosto muito de desenhar, a ponto de ter chegado a pensar em fazer disso uma profissão. 

FAGNER: Meu contato com a arte é por meio do cinema, do teatro, da música e da dança, mas tenho um interesse mais aprofundado no resgate da cultura popular. Nessa área, desenvolvo um trabalho de pesquisa com um grupo chamado Toadas a Trovadas. 

ANA LUCIA: Antes eu tinha contato apenas com hip hop, Quadrilha e Folia de Reis, mas agora estou ganhando conhecimentos em artes circenses e também participo de um espetáculo chamado "Nascimento do Mundo". Tudo isso amplia minha visão de mundo, um modo diferente de ver e avaliar situações.
Sem arte, como seria o mundo para você?

THALLES: Acho que seria um tanto quanto chato. A arte é a minha principal fonte de entretenimento, com o cinema, teatro, exposições, shows e muito mais. E, como já disse, fiz grandes amigos por meio da música. 

FAGNER: A arte faz toda a diferença na minha vida. A arte nos faz ver o mundo de outra forma. Sem a arte, meu mundo seria uma coisa mecânica.

DAIANA: Eu acho que o mundo seria muito chato, a expressão seria a mesma para todos. 

ANA LUCIA: Sem a arte eu não teria oportunidade de conhecer pessoas, lugares, ter experiências e situações de criação e participação na vida da minha cidade. Vejo que as meninas da minha idade que não viveram as experiências com arte que eu vivi não ampliaram seu mundo, muitas ficam só trabalhando de empregada doméstica ou babá.
Como você vê a situação das manifestações culturais no Brasil, tanto para quem se envolve como artista quanto para quem só aprecia, como espectador?

FAGNER: Há uma valorização um pouco maior da arte, principalmente da cultura popular, mais ainda é pouco. Alguns artistas se fecham, se dirigem a um público que já possui uma vivência com arte, quando o interessante seria que eles levassem seu trabalho às pessoas que não têm acesso a essa arte. 

ANA LUCIA: As manifestações artísticas brasileiras são muito importantes para a formação da identidade cultural dos jovens e por isso precisam ser mais valorizadas. Elas são cada vez mais raras, pelo menos aqui em Goiânia. A gente quase não vê bonequeiros, repentistas e teatro de rua. Tem muita gente, também, que não considera a arte uma profissão e não topa pagar o valor que ela merece. As pessoas pedem muitas apresentações gratuitas. 

THALLES: A arte em geral é pouco incentivada e difundida. Quem perde é o povo, que deixa de adquirir cultura, e o artista, que não tem condições de crescer no seu trabalho. Por isso, que medidas vocês acham que o governo pode tomar para incentivar a arte? 

DAIANA: Primeiro, acho que nós, jovens, temos de mostrar o que queremos, para o governo elaborar e executar programas que atendam às expectativas da juventude. Esse processo poderia ser feito por meio de discussões de grupo, laboratórios, oficinas, pesquisas, apoio a projetos experimentais. Além disso, o governo precisa intensificar e estimular a arte na escola, para possibilitar a expressão e a descoberta de novos talentos, fomentando o protagonismo infanto-juvenil nas artes. 

ANA LUCIA: O governo deveria aprovar leis de apoio aos grupos que fazem cultura e criar políticas de incentivo à arte que permitam o acesso das pessoas de baixa renda. 

FAGNER: É preciso que o governo incentive programas de arte-educação e de resgate cultural, além de oferecer estímulos às empresas para que patrocinem projetos artísticos. Outra responsabilidade do poder público é fazer com que a verba destinada à cultura seja bem aplicada, beneficiando a arte e não alguns poucos artistas. Porque a arte, eu acredito, é um meio de fazer inclusão social. Vocês concordam? 

THALLES: Para mim, a arte é uma das melhores formas de inclusão social, e trabalhos com essa finalidade deveriam ser mais incentivados. 

ANA LUCIA: Acho que quanto mais uma sociedade tem contato com a arte, mais ela se valoriza e dá valor a suas manifestações culturais. A arte promove o desenvolvimento humano e, conseqüentemente, um maior engajamento das pessoas com a vida comunitária. 

DAIANA: A arte como engajamento social é muito importante, pois trabalha todas as relações pessoais e interpessoais, promove a cidadania, a eqüidade social, o conhecimento e a discussão da realidade. Por isso é que as diversas manifestações artísticas precisam ser mais valorizadas e principalmente o artista, que ainda é visto com preconceito, como quem não tem nada para fazer. Vocês acham que um artista consegue viver só da arte como profissão? 
THALLES: É possível viver somente da arte, mas acho que a pessoa tem de contar um pouco com a sorte também. O talento por si só não é decisivo. 

ANA LUCIA: Nosso grupo no circo Lahetô vive da arte. Mas se a sociedade valorizasse mais a arte e o artista, não seria preciso "ralar" tanto para manter um grupo. É difícil. Por outro lado, acredito que o artista, assim como qualquer outro profissional, tem de conquistar o respeito dos outros. 

FAGNER: Concordo. Acho que é possível sim o artista viver da sua arte. Basta ele acreditar no que faz e correr atrás do seu espaço.