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Via educação

Cultura e qualificação profissional dão novos horizontes a jovens de Tejucupapo, na zona da mata norte de Pernambuco

12/08/2011

12/08/2011

A comunidade de Tejucupapo não reserva muitas opções aos seus moradores. Situada na cidade de Goiana, zona da mata norte de Pernambuco, ela cresce às margens do mangue, que se espraia por entre o matagal alto, coqueirais e casas de taipa. Braços lamacentos de rio envolvem e provêm o sustento para o povoado de aproximadamente sete mil moradores da localidade e entorno, sendo a pesca de siris, caranguejos, ostras e outros crustáceos a principal atividade econômica local. Entre setembro e março, alguns dos residentes trabalham também no corte da cana, porém a existência de toda a comunidade permanece cravada no mangue.

A paisagem local mudou, todavia, com a criação do Núcleo Social Nassau em 2005. Aos portões da instituição, relembra a coordenadora das ações de desenvolvimento, Neide Marques, que o espaço foi construído onde antes havia um lixão. “As crianças disputavam comida aqui”, recorda-se.
Habilidades locais

A mudança de cenário, contudo, não veio com a mera construção do prédio, mas foi gradual e ainda está ocorrendo, como explica Neide. “De 2005 a 2007, o Núcleo Social foi aos poucos se estabelecendo na comunidade, aproveitando a história do local e as habilidades dos jovens para desenvolver oficinas de atratividade, como música, dança, esculturas em papel reciclado, informática e também uma biblioteca para apoiar os trabalhos escolares”, relata.

A cultura local foi o atrativo escolhido para chamar os jovens a participar. Norteada por uma abordagem que busca explicitar o que há de melhor em cada um e em cada lugar, Neide e os demais responsáveis pelo Núcleo viram uma oportunidade de congregar os moradores através da história do povoado, onde ocorrera em 1646 a Batalha de Tejucupapo, na qual as mulheres locais expulsaram os invasores holandeses com água quente e pimenta, segundo conta a tradição.

As heroínas dessa batalha são hoje representadas em bonecas artesanais feitas pelos alunos da instituição com nada mais que papel reciclado, fibra de bananeira e cascas de alho e de cebola. “Da riqueza cultural local se extrai renda também”, aponta Neide.

Os alunos também confeccionam baús, abajures e outras peças artesanais usando materiais de reciclagem. Este ano, elas serão expostas pela quarta vez na Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Feneart).
Renda no artesanato

Conforme as atividades tornaram-se fontes de renda, o Núcleo foi se tornando uma parte integrante da vida comunitária. Dos cerca de 300 alunos contemplados pela instituição, 89 já extraem do artesanato a fonte de renda de seu lar. Oficinas de dança e música também são estendidas aos participantes, sendo também de grande impacto para a vida dos participantes.

Valmir de Oliveira Araújo é um dos alunos de música, mas se assemelha aos seus colegas artesãos por fazer seus próprios instrumentos a partir de materiais reaproveitados. Tambor, reco-reco, pau-de-chuva e outros instrumentos de percussão que ele montou usando artigos como garrafas velhas, tampas plásticas e cabaça de coco. “Sou um sujeito do tipo criativo”, se define o jovem.

Desde março deste ano, o Núcleo passou a abrigar o Enter Jovem Plus, programa executado pelo Instituto Empreender em outras 20 escolas de ensino integral de Pernambuco, e outras mais nos estados do Rio de Janeiro, Ceará e Sergipe.
Valores para empreender

A metodologia do projeto, que objetiva levar o jovem a encontrar seu primeiro emprego formal, está focada em tópicos da empregabilidade, destinados a familiarizar o aluno com a realidade do mundo de trabalho, e ensino básico da língua inglesa. A iniciativa já propiciou, em três anos, a formação de mais de oito mil alunos, e conta com mais de dois mil inseridos no mercado de trabalho em todo o país. O programa atende jovens que tenham concluído ou estejam concluindo o ensino médio em escolas públicas e que sejam oriundos de famílias carentes.

Diante da turma de estudantes de Tejucupapo, a coordenadora pedagógica do Instituto Empreender, Cleide Moraes, os convocou a vir à frente para compartilhar o porquê de estarem no Enter Jovem Plus.

“Quero lutar pela oportunidade de um futuro melhor”, conta a estudante Simone, que também julga essencial o fato de o curso ocorrer em no centro da comunidade, visto que a locomoção para outros lugares é um dos desafios do local. Outra aluna, Jéssica Marques, se apresenta pouco após, “primeiramente para agradecer por essa chance”, e apontar que “muitos poderiam estar lá fora, mas estão aqui porque querem fazer a diferença”.

O Enter Jovem Plus, em Goiana, contempla atualmente mais de 60 estudantes em Tejucupapo, sendo alguns deles instrutores no Núcleo que buscam maior profissionalização. É o caso de João Luiz, 21 anos, que divide seu tempo entre a pesca no mangue, o ensino de outros jovens na oficina de artesanato, e as aulas de inglês e empregabilidade do programa.
Destino da maré

A trajetória de João é semelhante a de tantos outros garotos do povoado. “Eu estudava de dia, e de noite pescava com meu pai; ficava na canoa por não querer ficar em casa”, conta o jovem, que desde menino toma parte na atividade, e a partir dos 15 anos começou a pescar só. Na percepção local, esse é o destino final da “gente de maré”, como os moradores se intitulam. “Quando a gente se forma só tem isso aí mesmo”, constata João. Sua mãe, Maria Fernandes, concorda, apontando que em Tejucupapo “não se dá outro tipo de serviço”.

A pesca, contudo, não aparenta ser má opção. Ganha-se quase o dobro pescando do que fazendo artesanato, segundo João. Como o apelo do ganho financeiro imediato é mais forte que o do investimento de longo prazo em cultura e qualificação, a instituição corre o risco de perder seus alunos para a maré.
“É difícil incutir uma outra via quando muitos deles estão passando necessidade dentro de casa”, afirma Liana Maia, coordenadora das atividades do Núcleo. Ela explica que dificilmente os alunos abandonam a instituição, porém descontinuam suas atividades e comparecem com menos regularidade à medida que vão se ocupando com outras prioridades. A instituição, porém, não fecha suas portas a esses. “É um trabalho de inclusão, não é justo excluir”, julga Neide.

Apoio familiar

Para aumentar as chances de permanência dos alunos do Núcleo contemplados pelo Enter Jovem Plus, foi organizada uma reunião com as mães dos jovens para explicar melhor como funciona o programa. “Estamos oferecendo uma outra opção de qualificação para os jovens desta comunidade, além da pesca é importante que eles queiram e desejem”, afirma Cleide Moraes. Ela aponta que o mercado de trabalho em Pernambuco, especialmente na zona da mata norte, está em expansão, “mas para que os jovens desta comunidade o acessem, é preciso qualificação” resume.

Ela comunicou às mães presentes que “precisamos de vocês para explicar à comunidade qual a importância deste programa e evitar a evasão dos alunos”. As reações de reconhecimento dão a entender que elas o farão entusiasticamente. “Esse curso é uma bênção nessa região, pois não tem nenhuma alternativa além do mangue”, avaliou uma das mães. Outra genitora presente, Deniulsa Gonçalves, confessou que não levava a sério esse curso que sua filha vinha fazendo recentemente, mas agora que sabe do que se trata, fará sua parte para motivá-la. “Até eu devia me matricular aqui”, ri-se, após ver o acervo de esculturas feitas pela sua filha, surpresa ao constatar que suas mãos, habituadas a descarnar caranguejos, também podem fazer arte.



Fonte: Enter Jovem Plus