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Repertório em transição

As novas tecnologias de produção e difusão da arte e da cultura estão colocando em xeque o domínio da indústria cultural de massa na formação dos jovens

12/08/2011

12/08/2011


Cristiane Ballerini

Em meio a centenas de jovens, eles se destacam. Um deles, por ter visto (e adorado) um filme iraniano. Outro, por ler Clarice Lispector. Mais um, por citar uma peça de teatro. Nas pesquisas da educadora Rosa Maria Fischer, que há oito anos se dedica a estudar as relações entre mídia, cultura e juventude, poucos são aqueles que declaram ir além do blockbuster do momento. A ponto de a pesquisadora guardar seus rostos na memória.

Nos últimos anos, a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul esteve à frente de vários estudos. Em um deles, entrevistou 370 jovens, entre alunos de ensino médio, das escolas públicas e privadas de Porto Alegre (RS), além de universitários dos primeiros anos de pedagogia e psicologia. Um grupo com idade entre 15 e 24 anos. “Os resultados mostram que os jovens têm uma série de vivências com produtos culturais, como os veiculados pela TV e pelo cinema. Mas, normalmente, são produtos da grande mídia. Entre as referências mais citadas, por exemplo, estão o filme ‘American Pie’ e a série ‘Hanna Montana’. Isso indica que os apelos da indústria cultural de massa ainda surtem efeitos”, relata Rosa Fischer.

Segundo a especialista, um dos entraves para a expansão da vivência artística e do repertório cultural dos jovens é a falta de oportunidade de contato com outras linguagens e conteúdos, em especial na escola. No ensino médio, quando as atenções normalmente se voltam para o vestibular e o futuro profissional, a arte e a cultura quase sempre são vistas de forma utilitária. “A concepção de arte na escola está muito ligada a um valor instrumental. Arte e cultura são usadas para ensinar conteúdos, como trazer contexto a um período histórico. Mas onde está o espaço para a fruição? Onde está o espaço para o aluno experimentar ‘fazer arte’?”, questiona Rosa.

A pergunta da pesquisadora, por enquanto, não encontra um coro de respostas consensuais. E mudar o paradigma que faz do conhecimento da arte e da cultura apenas acessório pedagógico não é missão das mais simples. No entanto algumas iniciativas ainda isoladas podem inspirar o sistema educacional e contribuir para torná-lo mais sensível a questões como esta. Como o projeto “Aluno Artista”, realizado pela Comissão de Ação Cultural da Reitoria da Unicamp -- Universidade Estadual de Campinas.

Interessada em apoiar as atividades artísticas dos alunos, a universidade lançou o projeto no início deste ano, através de um edital. Inicialmente, a comissão avaliadora iria escolher seis propostas, mas a qualidade dos 200 trabalhos inscritos surpreendeu e dez grupos foram escolhidos para receber apoio financeiro e acadêmico. O resultado é apresentado nos espaços do campus, que passa a oferecer shows musicais, peças de teatro e exposições durante vários meses.

“Temos a perspectiva de colocar em circulação pelo campus uma programação rica – o que em uma cidade como Campinas, com poucos espaços culturais, é fundamental. Além disso, o projeto representa oportunidades de aperfeiçoamento e até de início de profissionalização para alunos que já atuam em alguma atividade artística”, diz o professor Eduardo Guimarães, coordenador da Comissão de Ação Cultural da reitoria.

O projeto capitaneado pela Unicamp talvez seja de difícil aplicação no ensino médio, mas, para o professor Eduardo, suas premissas podem inspirar os gestores do ensino público: “Se a escola ousasse mais, a cultura deixaria de ser algo somente para aqueles que podem comprar”.
Hegemonia cultural ameaçada

Embora as pesquisas apontem certa submissão dos jovens à indústria cultural de massa, esse domínio começa a dar sinais de esgotamento e pode estar com os dias contados, especialmente em algumas áreas. A música é o exemplo mais evidente dessa mudança. Com a internet, a possibilidade de baixar músicas pelo computador e também de lançar bandas e novas sonoridades por intermédio da rede mundial se tornou uma realidade. A indústria fonográfica já não controla o que os jovens ouvem. Ao contrário, é a indústria que, agora, corre atrás das tendências ditadas por eles. “Estamos experimentando um período de transição. Hoje, o jovem está muito mais ‘empoderado’ para escolher e buscar o que lhe interessa, fazer suas próprias descobertas e trocas pelo meio digital”, diz Paula Porta, historiadora e consultora da Unesco para a política de preservação do patrimônio cultural no Brasil.

Paula, que foi assessora especial do ex-ministro Gilberto Gil no Ministério da Cultura, acompanhou de perto a expansão dos Pontos de Cultura nas comunidades de todo o Brasil. O programa tem, entre suas metas, incentivar o compartilhamento de conteúdo por meios digitais. Os jovens são os principais participantes.

Mais do que o acesso à diversidade de conteúdos, tecnologia também significa acesso aos meios de produção. Com mais recursos ao alcance das mãos, muitos jovens, mesmo em comunidades desfavorecidas, começam a experimentar várias formas de expressão artística – audiovisual, música, artes plásticas. “É uma revolução incrível”, diz Paula Porta.

Um outro aspecto revelado pelo avanço do uso do computador, mais precisamente das redes sociais, é o apego dos jovens às “narrativas”. O exercício narrativo está presente nas postagens diárias, nas conversas pelo MSN, Orkut, nos blogs. E, segundo a pesquisadora Rosa Maria Fischer, isto demonstra a importância das narrativas para este público. “Essa seria uma grande janela para a escola oferecer mais contato com narrativas ficcionais em todas as linguagens – teatro, cinema, TV. Mas isso acontece pouco”, lamenta.

A educadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul aposta na formação dos professores como um dos caminhos para mudar essa realidade. Afinal, o próprio professor é carente de referências culturais que ampliem horizontes: “Apenas criar uma programação cultural compulsória na escola não dará aos educadores a chance de trabalhar mais profundamente um repertório que faça sentido e toque os jovens”.
Novos espaços e saberes

A ideia de que “lugar” de cultura é somente no museu já não faz parte do senso comum há algum tempo. Há saraus de poesia em botecos, espetáculos de dança nas comunidades, exposições de fotos no metrô. Essa valorização de novos espaços culturais é um dos atalhos que pode favorecer o repertório cultural dos jovens. “A escola, no entanto, nem sempre se abre aos espaços públicos de socialização e cultura”, diz o educador Tião Soares, diretor da área de cultura e relações institucionais da Fundação Tide Setúbal.

À frente de atividades culturais que envolvem a comunidade e as escolas públicas da região de São Miguel Paulista há cinco anos, como um festival de literatura e exibições de filmes, Tião acredita no poder transformador da experiência cultural: “Há muitas pessoas na comunidade onde atuamos que sabem dançar, mas nunca foram a um espetáculo de dança. Depois de ter essa chance, se tornam pessoas diferentes, vislumbram outro mundo possível onde elas têm direito de acesso à arte e, mais, podem também ser valorizadas por sua cultura”. Para tornar este ideal uma realidade, o educador defende uma escola menos burocrática, com mais disposição para ouvir, em vez de somente passar conteúdos.

Foi justamente a possibilidade de estabelecer trocas entre o saber acadêmico e outros saberes que levou a historiadora Heloisa Buarque de Holanda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a desenvolver o projeto Universidade das Quebradas. Há dezessete anos, Heloisa realiza pesquisas de campo nas comunidades do Rio e está familiarizada com a riqueza cultural das periferias: “São lugares cheios de intelectuais, artistas, gente que tem muito a dizer. Mesmo depois de tantos anos de trabalho nesse universo, me surpreendi com a capacidade de reflexão e a qualidade artística das pessoas que fui encontrando.” O que faltava a boa parte dos produtores culturais e artistas citados pela historiadora era a oportunidade da educação formal.

Assim, com o objetivo de atender a esse público que não teve acesso ao ensino superior e, mesmo assim, realiza trabalhos importantes na área cultural, foi criada a Universidade das Quebradas. Seus alunos – atores, rappers, produtores culturais, cineastas – têm aulas regulares com os professores da UFRJ sobre conteúdos importantes para a formação na área, desde estudos sobre a Antiguidade até os movimentos artísticos contemporâneos.

O projeto começou há dois anos com uma turma experimental de 25 alunos e já está na segunda edição. No próximo ano, serão selecionados 40 alunos no Rio, e está sendo elaborada uma versão virtual do programa, com aulas a distância. “Estamos interessados em atuar para que a universidade quebre as barreiras que a separam dos contextos onde está inserida e seja possível produzir conhecimento novo a partir do entrelaçamento dos repertórios diferentes. Para todos os profissionais da universidade, é um aprendizado”, diz Heloisa.

Com relação ao repertório cultural dos jovens, a historiadora observa que as escolas públicas deveriam também dar aos alunos a oportunidade de se tornarem usuários dos equipamentos culturais da cidade. Muitos dos alunos que hoje estão na Universidade das Quebradas e frequentaram a escola pública nunca foram, por exemplo, aos museus gratuitos. “A população da periferia tem, em geral, a ideia internalizada de que esses lugares são para a elite. Então, a escola pode ajudar promovendo deslocamentos territoriais para que, desde cedo, crianças e jovens passem a usufruir, pelo menos em parte, da programação cultural de suas cidades e regiões”.