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Quatro provocações

Para o coordenador-curador do Museu de Arte de São Paulo – MASP, Teixeira Coelho, a ideia de cultura no século 21 mistura conceitos e gera equívocos

12/08/2011

12/08/2011

Teixeira Coelho

 Todo aquele que trabalha com a cultura na perspectiva da política cultural deve rever, ao final da primeira década do século 21, várias das antigas concepções sobre o tema e daí extrair algumas lições sobre o que fazer.

A primeira é que o conceito antropológico de cultura não serve para a política cultural. A ideia de que tudo é cultura – o idioma, os cantos, as danças, os costumes, a arte, a comida, a indumentária, o direito — é inoperante em política cultural.

O século 20 viu surgir uma ideia generosa segundo a qual se deveria entender por cultura não apenas as manifestações especiais da criatividade humana (teatro, artes visuais, dança, literatura, música erudita) mas tudo, inclusive o que viesse “de baixo”, da cultura dita inferior, como os folguedos, a culinária, os costumes religiosos, práticas de saúde etc. Esse entendimento ampliado de cultura, derivando, na melhor das hipóteses, de uma ideia democratizante e, na pior, de uma visão populista, gerou ampla rede de distorções.

A ditadura brasileira que terminou em 1985 insistia em afirmar que “esporte é cultura”. No passado, talvez. Hoje está claro que o esporte é, no máximo, forma rasa de lazer. No caso do futebol, é pior: agora, neste País e em vários, ele é, antes, um modo da afirmação boçal da identidade e da multiforme e crua agressividade humana, como se vê nos estádios e à sua volta onde torcedores se humilham e se matam em descontrolada barbárie.

E se formas da barbárie são antropologicamente cultura (como o apedrejamento até a morte de mulheres “infiéis” em países que reivindicam o islamismo), elas certamente não são cultura nem para a política cultural, nem para uma concepção digna de cultura. São o oposto da cultura. Cultura é o que amplia a esfera de presença do ser, sugeriu Montesquieu, não o que o confirma em sua pequenez.

A segunda concepção é que a cultura não é uma soma de positividades. A cultura, em si e por si, não é o bem. A cultura contém um componente de negatividade. Não é que ela contenha uma parte de inércia ou neutralidade ética que explicaria por que não evitou que oficiais nazistas saíssem de concertos de música erudita direto para os campos de concentração onde exerceriam, sem mais, suas “tarefas” de extermínio.

Que a cultura está carregada de negatividade é algo que ficou evidente quando, após os atentados terroristas contra as Torres Gêmeas de Nova York, o compositor Stockhausen declarou que aquilo fora “uma das mais belas obras de arte da história” e que ele gostaria que seus músicos fossem como aqueles terroristas, dedicados ao que faziam mais que a qualquer outra coisa na vida, mais que à própria vida.

O que Stockhausen fez com sua declaração, talvez inepta, foi lembrar-nos do tenebrismo da arte, se não da cultura, pelo que pagou alto preço: sua filha o repudiou e seus concertos foram cancelados. No entanto, o que ele estava querendo dizer é uma verdade à qual a humanidade bem-comportada do século 20 pós-II Guerra Mundial se desacostumou: que a arte, se não a cultura, é perigosa. Mas não há o que fazer: é assim. E é por isso que ela vale.

Uma das teorias mais engenhosas sobre a razão do aparecimento da palavra propõe que ela surgiu para elogiar, louvar, cultuar – no limite, bajular. Há muita razão nessa teoria (e a língua e a cultura portuguesas abundam em exemplos, como no já arcaico “ilustríssimo senhor” e no ainda atual e risível “magnífico reitor”).

Outros instrumentos humanos, como as artes visuais, seguiram pelo mesmo caminho durante um bom tempo. A partir do início do século 20, para as artes, não foi mais assim. Quando o artista Piero Manzoni, em 1961, apresentou uma pequena lata contendo (supostamente) sua própria merda e a rotulou de “Merda de artista”, vendendo-a literalmente a preço de ouro, muita coisa ficou evidente em relação à arte e à cultura. Ou deveria ter ficado.

A arte — se não a cultura — é perigosa e impertinente. E isso não deve ser tomado contra ela. A cultura contém negatividade, e essa é uma ideia com a qual é necessário conviver. Forma mais amena de dizê-lo é que cultura é conflito e que, como observou Edward Saïd, estimulante no fato cultural é que ele seja capaz de sustentar-se sobre seus lados ou fundamentos opostos sem ter de apagar um deles em favor do outro. O conflito é inerente à cultura. E conflito significa choque de diferentes ou opostos, chamem-se eles de “positivo”e “negativo” ou com outros nomes quaisquer.

Uma terceira lição que hoje fica clara é que cultura é aquilo que muda, que se transforma, se altera, não aquilo que permanece igual a si mesmo. Durante algum tempo, prevaleceu a idéia de que a cultura é uma estrutura dura, que persiste idêntica a si mesma. Era útil ao Estado que assim fosse, uma vez que lhe interessava afirmar sua identidade e a de seus “cidadãos” como algo previsível e que, portanto, se pudesse controlar. “Sua identidade é esta, assim diz a receita, não se afaste dela.”

Muitas tragédias aconteceram em virtude da crença numa cultura perene e numa identidade fixa, sobretudo naqueles momentos em que era preciso, como uma obsessão, encontrar “a própria cultura” ou as “raízes culturais” que supostamente vinham como tais de um passado longínquo e se estendiam de modo indefinido para o futuro, como tais.

Uma cultura não se encontra: se inventa (e se tiver raízes, elas serão móveis). E assim como ela se inventa, se desfaz e se refaz. A cultura muda, cultura é aquilo que muda, não aquilo que permanece. Mesmo a natureza muda, até mesmo levada ou forçada pela cultura. Por que não mudaria a cultura?

E, na cultura, a forma que mais muda é a da arte. A ponto de ser possível mencionar aqui uma quarta e (provisoriamente, na extensão possível deste texto) derradeira lição: a de que, para os efeitos de política cultural, mas não apenas deles, arte não é cultura: arte é o oposto da cultura, o diferente da cultura. Para dizê-lo com Godard, a cultura é a regra, e a arte, a exceção.

Quase é possível dizer que tudo aquilo que a cultura promove, a arte desfaz. Daquilo que a cultura persegue, a arte foge. Trato mais longamente disso em meu A cultura e seu contrário (Ed. Iluminuras). Bastaria dizer, por ora, que se a cultura acolhe, a arte (em especial a moderna e a contemporânea) repele; se a cultura aproxima, a arte distancia; se a cultura apazigua, a arte inflama; se a cultura é consenso, a arte é dissenso.

A primeira consequência dessa proposição é que, a rigor, é um contrassenso propor uma política cultural para as artes. A arte merece e pede uma política artística. No entanto, o que normalmente se vê é, nas políticas culturais, a aplicação de regras da cultura às artes. Por exemplo, procura-se valorar hoje, para efeitos de concessão de apoio econômico do Estado, a cultura e a arte que “promovam a integração social”. Mas a arte não foi feita para integrar socialmente. A cultura sim, muitas vezes. A arte não. A arte pode não desintegrar, mas a arte, a boa arte, a melhor arte, não foi feita para integrar ninguém a nada, nem ao social, nem ao cultural ou a qualquer outra instância. A cultura tem certas regras, a arte tem outras.

Vivem-se hoje, de fato, e depois de 2001 ainda mais que no século anterior, os tempos do politicamente correto. O que é politicamente correto é, ao mesmo tempo, culturalmente correto. Mas o que é culturalmente correto (coisa que não raro já em si não tem sentido) não é artisticamente correto. Como resultado, a censura ao incorreto, por vezes disfarçada sob as vestes do interesse social, procura reinstalar-se.

A recente tentativa do Conselho Nacional de Educação do Brasil de censurar o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, por suposto racismo, é um exemplo da aberração a que se chega na tentativa de colocarem-se a cultura e a arte a serviço da ideologia.

É verdade que a cultura sempre se prestou, inclusive no moderno século 20, às manipulações ideológicas, coisa que a boa arte do mesmo período sempre recusou. Mas os esforços nessa direção seriam risíveis, se não fossem deploráveis. Logo se procurará proibir também a exibição de filmes como Doze homens e uma sentença, de Sidney Lumet, 1957.

Nesse filme extraordinário, inclusive do ponto de vista social ou político, doze homens (não há mulher entre eles – nem negro ou asiático: não era um filme que se preocupasse com preencher as quotas étnicas ou de gênero, como é hoje comum) estão trancados numa sala de tribunal americano, no esforço de chegar a um veredito, num certo caso.

Estão numa sala pequena e fumam o tempo todo, a fumaça que invade o aposento parece vazar da tela e alcançar o espectador de hoje, que sufoca. Como hoje é proibido fumar em lugares públicos fechados (pelo menos no mundo civilizado), alguém diria que o filme não pode mais ser exibido porque induziria o público a fazer o mesmo. Ou que esse filme não deverá mais ser exibido porque não inclui mulheres e negros entre os personagens, sendo portanto um filme que promove a discriminação... E com essa sentença o que se buscaria na verdade seria corrigir o passado, uma arte (se não fosse um insulto usar essa palavra nesse sentido) praticada à perfeição pelos regimes comunistas que apagavam, de antigas fotografias oficiais, aqueles que haviam caído em “desgraça política” e deveriam desaparecer da vista, da memória, como já haviam desaparecido no exato momento em que a história estava sendo “corrigida”.

Uma parte da política cultural e do pensamento sobre a cultura hoje, inclusive no Brasil, mostra uma assustadora tendência para pôr em prática aquilo que Michel Foucault, em Vigiar e punir (Petrópolis, Vozes, 1977), observou: o fato de que vivemos numa era de massas, que se procura superpor ao indivíduo sob o disfarce da palavra “coletivo, em que vigiar o outro – e, portanto, punir o outro — virou regra. Mesmo em sociedades ditas democráticas. Como esta. A cultura, e com ela a sociedade, já interiorizou a ideia de vigiar e punir, que parece agora “natural”, “evidente”, “necessária” e “justa”. À direita como à esquerda do espectro político. A arte ainda não o fez. É preciso zelar para que não o faça.

Estas são algumas lições do século 21 a que se deve ficar atento quando se projeta e se implementa qualquer programa de política cultural – em todas as instâncias, com todas as dimensões, para todo tipo de destinatário: 1) examinar com cautela a tese relativista de que tudo é cultura (e que tudo é bom em cultura); 2) não esquecer e não ocultar que a cultura não é necessariamente um depósito de positividades; 3) que cultura (e tudo que a compõe, como a identidade) é aquilo que muda, não aquilo que persiste (embora a cultura persista mais que a arte); 4) que na verdade a arte é uma exceção à cultura – e que a liberdade, a opor-se a todas as formas do politicamente correto e dos hábitos de “bem pensar” em cultura e na arte, continua a ser o centro de uma Cultura forte e uma política cultural digna.
 
   

Arte é parada para refletir

“A importância da arte, para mim, é fazer parar para pensar. Fazemos tantas coisas, rotinas tão repetitivas, que nem nos apercebemos do que está no entorno. A arte, além de uma forma de expressão, é essa parada para reflexão. Ela possibilita que você se distancie das coisas para observá-las melhor. Aí você consegue se aproximar mais dos problemas e encontrar as soluções. Acho que está havendo um crescimento do envolvimento dos jovens com a cultura. Eles estão se interessando mais pelas artes, porque é um jeito de se mostrarem, de tentarem definir uma identidade, de saírem do padrão para encontrar uma expressão própria. Por isso é bom quando a escola envolve os jovens com a cultura e a arte. Na escola pública em que fiz o ensino médio, o ensino de arte era menos do que o básico, e a prática, muito pouco. Fui conhecer os movimentos culturais e artísticos no curso profissionalizante de que participo atualmente. Pretendo trabalhar com ilustração e quadrinhos. Com essa arte, quero deixar o meu recado.”

Junia Santo Souza, 17 anos faz um curso profissionalizante de artes visuais, em Belo Horizonte, MG