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O mapa da expressão

Um levantamento das atividades artísticas e culturais desenvolvidas com jovens no Brasil revela grande vigor e muitos desafios

12/08/2011

12/08/2011

Beatriz Azeredo e Angela Nogueira (*)

O Brasil já se tornou uma referência internacional no campo das ações envolvendo arte e cultura e juventudes em processos de transformação social. Há um número expressivo de grupos e organizações que vêm mostrando, com as suas práticas, o enorme potencial da arte e da cultura de atrair os jovens e estimular processos educativos, abrindo caminhos para seu crescimento pessoal e sua inserção social e econômica. Além disso, registram-se novas formas de geração de renda para muitas destas organizações e as comunidades envolvidas.

Este fenômeno não é privilégio dos grandes centros urbanos, onde, naturalmente, se concentram grande parte destas iniciativas. Elas florescem pelo País afora, em todas as regiões, tanto em cidades de grande e médio portes como em pequenos municípios, incluindo a área rural. Estas experiências ganham “cores” e “formas” diferentes de acordo com a história de cada comunidade, mobilizando os jovens, resgatando valores, saberes e tradições, e fortalecendo a cultura local. E contribuem de formas diversas para a ampliação do acesso dos jovens às manifestações artísticas e culturais, e a espaços de formação e capacitação.

Diante deste fenômeno, pode-se ousar dizer que estas experiências representam um dos componentes mais inovadores no terreno das políticas públicas no Brasil e das ações da sociedade civil organizada. De fato, as diversas estratégias, arranjos institucionais e metodologias em curso apontam caminhos vigorosos de envolvimento da juventude, tanto pela sua força mobilizadora, pelos processos formadores a elas associados, como também pelo seu potencial econômico.

Motivado por toda essa riqueza e potencial, o CEPP – Centro de Estudos de Políticas Públicas criou, em 2005, o Programa Juventude Transformando com Arte, com o objetivo de contribuir para identificar, fortalecer e divulgar grupos e instituições que trabalhem com arte e cultura, envolvendo jovens, com foco na transformação social. Para isto, há duas ações principais: a Mostra Brasil Juventude Transformando com Arte e o Mapeamento de Experiências Sociais com Arte e Cultura.

A Mostra Brasil abre espaço para a divulgação da produção artística de qualidade destes grupos, com a oferta de condições técnicas profissionais de excelência em um teatro de grande porte no Rio de Janeiro. Na terceira edição, em agosto de 2010, a Mostra reuniu, em três noites de espetáculos, 430 participantes vindos de grupos das diferentes regiões do País. A programação incluiu ainda oficinas, visitas culturais e seminário, apostando na importância do intercâmbio, do contato com outras realidades e outras linguagens artísticas, para os jovens participantes. O público presente, cerca de 1600 pessoas, comprovou a importância e a possibilidade de reunir pessoas de diferentes classes sociais em torno de espetáculos de grande qualidade artística, mostrando a força da nossa cultura e a energia da juventude.

Já o mapeamento busca dar visibilidade a estas experiências de outra forma. Trata-se de construir um mapa das iniciativas sociais com arte e cultura envolvendo jovens no Brasil. A pesquisa, que integra na equipe jovens dos estados pesquisados, teve início na região Nordeste e se estende agora à região Sudeste, com o registro, até o momento, das experiências dos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Os resultados fazem parte do Banco de Experiências Sociais com Arte e Cultura, uma referência sobre o trabalho desses grupos para todos os que atuam na área de juventude, arte e cultura e transformação social. O banco de dados está disponível para consulta no site do Programa Juventude Transformando com Arte (www.juventudearte.org.br) e permite a busca, por meio de filtros, em cada estado.

Há um conjunto expressivo de informações que possibilita um conhecimento amplo e sistematizado sobre este universo e, principalmente, permite discutir uma agenda para o fortalecimento destas ações, ampliando as condições de democratização do acesso dos jovens à cultura em geral e, em especial, aos meios de produção artística e cultural.
Potenciais e fragilidades

Os resultados da pesquisa mostram, em primeiro lugar, a potência deste universo: além da dimensão – são mais de 1200 experiências registradas –, observa-se um grande dinamismo, com a criação de novos grupos e, ao mesmo tempo, um forte traço de maturidade, pelo elevado grau de formalização destas organizações e o maior tempo de existência de muitas delas. Pelo menos 30% destes grupos tiveram início nos últimos 5 anos, e cerca de 40% existem há mais de 10 anos.

Esta potência se expressa também no número de pessoas envolvidas e, ainda, nos resultados alcançados. São cerca de 980 mil pessoas diretamente inseridas nas atividades artísticas, em especial jovens de até 18 anos e moradores de comunidades de baixa renda. Em relação aos resultados, os coordenadores destes grupos e organizações apontam impactos fundamentalmente no campo da educação (desenvolvimento pessoal e social, melhoria no aprendizado escolar) e também no desenvolvimento comunitário (promoção e fortalecimento da identidade), na formação artística e capacitação, e na inserção econômica, tanto no mercado de trabalho em geral como no artístico e no próprio grupo.

Observa-se, ainda, uma significativa capacidade de gerar receitas com as atividades artísticas, envolvendo mais de um terço dos mapeados, sendo que, na região Nordeste, este indicador alcança 40% dos grupos. Para uma parcela considerável dos que geram renda com as atividades artísticas, as receitas chegam a patamares bastante significativos na composição do seu orçamento, representando no mínimo 30% do total de recursos.

Os dados também revelam uma expressiva riqueza e diversidade das linguagens artísticas utilizadas e da produção artístico-cultural desses grupos. Apesar de muitos adotarem uma linguagem principal como referência do seu trabalho, os grupos se utilizam de outras expressões no processo educacional e de formação artística. A música e a dança se destacam, seguidas de teatro, artes visuais, audiovisual, literatura e artesanato, esta última com maior presença na região Nordeste e no Espírito Santo. Metade dos mapeados já esteve envolvida na montagem de espetáculos e já desenvolveu coreografia própria. Registram-se, ainda, no que se refere a produtos artísticos, a montagem de peças teatrais, tanto de outros autores como com textos próprios, exposições, filmes, vídeos e curtas-metragens.

Ao lado de toda esta potência e dinamismo, fragilidades. Chama a atenção o fato de que, apesar de já estarem na estrada há algum tempo, a maioria das iniciativas sobrevive com muito pouco recurso, tem pouco acesso a fontes de incentivos fiscais e é comum a interrupção das atividades, principalmente por falta de recursos financeiros. Pouco mais de um terço dos grupos contou com até R$ 10 mil por ano (ou no máximo R$ 830/mês), sendo que, na região Nordeste e no estado do Espírito Santo, esta é a situação de metade dos grupos mapeados. Esta contradição entre maturidade, expressa no tempo de existência e no grau de formalização, e fragilidade financeira indica uma enorme capacidade de resistência dos grupos e organizações, que se utilizam de diversas estratégias, dentre elas o forte envolvimento de voluntários em suas equipes.

Com relação ao perfil de financiamento destas iniciativas, observa-se em geral uma forte presença dos governos, em especial as prefeituras, que são importantes parceiros financeiros para uma parte expressiva dos grupos. Em todas as regiões mapeadas, no mesmo patamar de importância, estão as contribuições de pessoas físicas, como comerciantes e pessoas da comunidade. Nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, registra-se um maior investimento por parte de entidades privadas (empresas, fundações e institutos), sendo este grupo o que se destaca como principal parceiro financeiro no Rio de Janeiro.

A pesquisa evidenciou, ainda, o enorme isolamento da maioria destes grupos, que estão restritos aos limites geográficos de sua própria comunidade e das comunidades vizinhas, tanto para apresentar seus resultados artísticos quanto para conhecer e interagir com grupos similares. Apenas metade dos grupos mapeados tem oportunidades de sair do seu próprio município e, no máximo, um terço deles se apresenta em outros estados. Fica claro, portanto, o grande potencial para construção de agendas de intercâmbio, evidenciando-se a demanda por acesso a espetáculos fora das regiões de origem e a disposição em trocar experiências por meio, em especial, de oficinas.

Por fim, foram mapeadas as principais necessidades dessas instituições, que estão relacionadas à infraestrutura e a aspectos organizacionais: mais da metade aponta a demanda por custeio das atividades e por equipamentos e materiais; em seguida, vem a importância de melhorar o espaço físico e a qualificação da equipe.
Os novos caminhos que se abrem

Como aproveitar toda esta potência que os resultados da pesquisa nos mostram? Esta questão está diretamente relacionada às possibilidades de sustentabilidade destas iniciativas. E o cenário que se apresenta expressa a urgência em se formularem políticas públicas e se articularem os investimentos privados, na direção do fortalecimento dos grupos, para garantir de fato a democratização do acesso dos jovens à cultura em geral e a oportunidades de produção artística.

Este universo mapeado representa uma enorme oportunidade para as políticas públicas. Muitas destas experiências já desenvolvem atividades em parcerias com instituições públicas e a grande maioria aponta que está contribuindo, de alguma forma, com as políticas públicas. Isto se dá em geral na parceria para formulação e implementação de programas nas áreas de cultura, educação e juventude.

Ao definir políticas voltadas a garantir a democratização do acesso à cultura para os jovens, os governos podem e devem aproveitar esta rede em potencial que já existe. Há muita experiência acumulada, metodologias desenvolvidas e um grande número de profissionais envolvidos. E, sobretudo, há uma forte disposição para a colaboração.

Mais do que isto, é preciso aportar recursos que garantam processos educativos de qualidade. E também é necessário investir na qualidade do produto artístico, estratégia fundamental para que estes grupos fortaleçam a própria linguagem, ganhem visibilidade no seu trabalho e atraiam a atenção do grande público. Tudo isto requer investimentos na consolidação e difusão de metodologias, na capacitação dos profissionais, na promoção de intercâmbio com grupos mais maduros e experientes e com artistas profissionais. É importante que os jovens integrantes destes grupos possam transitar além do seu eixo de atuação e entrar em contato com outras culturas e experimentar outras linguagens.

Outro campo de investimento necessário está relacionado à oferta de espaços e infraestrutura, para que a produção artística destes jovens possa surgir, se aprimorar e ser difundida. É fundamental a oferta de equipamentos públicos que promovam a integração social e cultural da juventude e que estimulem a produção artística de jovens. Espaços onde a juventude se veja como protagonista e para onde possam trazer os sinais das identidades contemporâneas e da realidade que vivem e desejam transformar.

Por último, não dá para falar em juventude, arte e cultura sem falar em educação. Como pensar a formação de cidadãos livres, autônomos e criativos com a situação educacional dos jovens? Basta citar um dado: apenas pouco mais da metade (55%) dos jovens brasileiros de 15 a 17 anos tem ensino fundamental completo. Sem entrar neste tema tão complexo, vale lembrar que a escola é um espaço privilegiado para se estabelecerem processos multidisciplinares e integradores. O que se observa, no entanto, é a existência de uma baixa articulação das redes públicas de ensino com as políticas públicas de cultura. É preciso avançar na articulação entre a política educacional e a política cultural, para contribuir com o desafio de garantir o acesso e a permanência dos jovens na escola, oferecendo uma educação de qualidade em toda a sua trajetória escolar e abrindo caminhos para o seu futuro.

(*) Beatriz Azeredo é doutora em Economia, professora do Instituto de Economia da UFRJ, diretora do CEPP – Centro de Estudos de Políticas Públicas e do Instituto Desiderata. Angela Nogueira é engenheira de produção e mestre em Administração, pesquisadora do CEPP e coordenadora do Mapeamento de Experiências Sociais com Arte e Cultura e da Mostra Brasil (www.juventudearte.org.br)
 
   

Arte no caminho

“Eu acredito no potencial da arte para abrir caminhos para os jovens. Dentro da escola, as várias formas de arte podem fazer o aprendizado das disciplinas mais atraente, dar a elas um contexto cultural mais amplo. Mas, na prática, isso depende de como a arte é apresentada ao jovem, de como ele é inserido nesse universo. Nunca tive nada disso nas escolas públicas que frequentei. Fiz o ensino fundamental numa escola pública regular e o ensino médio numa escola técnica, também pública. Na primeira, não havia abertura alguma para arte, o menor interesse em explorar isso, nenhum incentivo. O máximo era um desenho no papel. No ensino médio, também não tinha muito incentivo, mas encontrei pelo menos mais opções: fiz um curso profissionalizante de museologia. Eu faço teatro desde os 15 anos. Quero ser atriz e agora resolvi me profissionalizar. No curso, estou me aperfeiçoando e construindo parcerias para o futuro. Na universidade, procuro fundamento, substância, para minha atuação profissional.”

Depoimento de Natália Oliveira Moreira, 19 anos, estudante de História da Arte na Unifesp e aluna da SP Escola de Teatro, onde participa do programa de aprendizes, no curso de atuação