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Juventude e direito à cidade

Nova edição dos Cadernos Cenpec mostra como circulação dos jovens além de seus territórios amplia o repertório cultural e o acesso a oportunidades.

11/08/2011

11/08/2011

Cada edição dos Cadernos Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) é dedicada a um tema central com ensaios e estudos produzidos por especialistas, professores e técnicos num leque de abordagens que mostram o estado do assunto em pauta. A última edição trata da educação na cidade. A cidade como lugar de educação e proteção, saúde e desenvolvimento integral de crianças e jovens.

O tema foi explorado a partir das seguintes indagações: Por onde circulam os jovens da periferia? Quais os obstáculos para a circulação na cidade? De que modo o isolamento em seus territórios limita suas oportunidades?

Para responder a estas e outras questões, a equipe do Cenpec ouviu especialistas como Kazuo Nakano, urbanista que atua no Instituto Pólis, e a doutora em Psicologia Clínica pela PUC-RJ e pesquisadora nas áreas de juventude e cidade, Maria Aparecida Cassab. A investigação também foi colher a opinião de educadores de ONGs e jovens moradores de regiões periféricas de São Paulo para entender de que modo a circulação pela cidade contribui para a ampliação de repertório e acesso a oportunidades.

Para o urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Pólis, a questão da mobilidade urbana desempenha papel fundamental para superar a segregação produzida pela forma como as grandes cidades estão organizadas. “No Brasil, as cidades têm uma distribuição muito desigual das oportunidades econômicas, dos equipamentos culturais, da infraestrutura. Então, a mobilidade é importante para ampliar o acesso a esses equipamentos e oportunidades ao maior número de pessoas. A mobilidade é um elemento que propicia o usufruto da cidade por parte da população”, afirma o urbanista.
Segregação

Um dos aspectos impeditivos de mobilidade, que favorece, portanto, a segregação, é o desemprego da população jovem, em comparação a outras faixas etárias. De acordo com a publicação do Cenpec, baseada em dados do IBGE de novembro de 2010, a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos na Região Metropolitana de São Paulo era de 12,4%, índice mais de duas vezes superior ao referente à população de 25 a 49 anos (4,7%).

Os jovens moradores das periferias dos centros urbanos são os mais vulneráveis, porque o isolamento em suas comunidades limita as oportunidades de trabalho, bem como de lazer, e os mantêm reféns de suas realidades segregados do restante da cidade pela distância e pelas dificuldades de acesso e pela falta de informação..

Sem oportunidades de emprego, atraídos pelo mundo do crime ou pelo tráfico, esses jovens acabam engrossando as estatísticas de mortalidade. Segundo dados do Mapa da Violência, no Estado de São Paulo, 67% das mortes entre jovens são provocadas por fatores externos. Desses óbitos, 55,3% são classificados como mortes violentas. Já entre a população não-jovem, 92,3% morrem de causas naturais.

“A região central da cidade ainda acumula o maior número de oportunidades culturais, de trabalho... Não que a periferia não produza cultura, ela produz muita coisa. Mas a região central ainda concentra as grandes oportunidades”, explica Elaine dos Santos Souza, coordenadora de uma das ONGS executoras do Programa Jovens Urbanos, do Cenpec.
Sujeito de direitos

Elaine lembra que é recente a noção de juventude enquanto sujeito de direitos. Prova disso é que há pouco tempo foi feita uma emenda constitucional para incorporar o termo à Constituição Federal. Como jovem moradora do Grajaú e em função de sua experiência no Programa Jovens Urbanos, ela decidiu abordar esse tema em seu trabalho de conclusão de curso na PUC-SP, onde se graduou em Serviço Social (para ler a pesquisa acesse o Portal Cenpec - http://cenpec.org.br/biblioteca/acao-comunitaria/
teses-dissertacoes-e-ensaios/juventude-e-o-direito-a-cidade-
vivencias-de-jovens-do-grajau-com-a-circulacao-na-cidade-de-sao-paulo).

Para o jovem, a garantia do direito à cidade tem impactos ainda sobre a constituição da sua identidade e de suas perspectivas de vida. Ao circular em outros espaços fora da sua comunidade, ele entra em contato com outras realidades, descobre novas possibilidades, amplia seu repertório. “O jovem passa a ter outras possibilidades de ser, de se constituir enquanto jovem”, acredita Elaine.

“Essa circulação é importante para que os jovens comecem a usar a cidade a favor deles. Moro aqui na região, mas não me sinto marginalizado, porque sei usar os equipamentos da cidade. Então, é justamente essa visão que eu quero que eles tenham”, afirma outro educador, Claudemir Santos, também de São Miguel.

“Tem a Vila Olímpia, por exemplo, com aqueles prédios. De repente, a pessoa olha aquilo e pega pra ela. ‘Eu quero trabalhar aqui, fazer a minha vida aqui’. E faz seus contatos, tem um primo ou irmão que trabalha na empresa tal e é da mesma área. Eu acho que essa troca de informações é muito importante”, pensa o educador Cristiano Correa, de uma das ONGs executoras do Programa Jovens Urbanos em São Miguel Paulista.

A questão da construção de novas redes também é outro ganho obtido por meio da circulação pela cidade. “O patrimônio maior desses jovens são as suas relações. São elas que abrem as possibilidades de trabalho, de encontros, além daquele campo restrito. É esse isolamento que precisa ser rompido”, salienta a doutora em Psicologia Clínica pela PUC-RJ e pesquisadora nas áreas de Juventude e Cidade, Maria Aparecida Cassab.
Preconceito

Por mais que se garantam as condições de mobilidade e se estimule essa apropriação dos espaços públicos da cidade, um outro obstáculo se impõe a esses jovens da periferia: o preconceito.

“Muitos desses jovens quando estão nesses locais passam a ter uma alta visibilidade .São claramente controlados quando entram numa loja, são perseguidos por seguranças. Obviamente isso constitui esse jovem como experiência também”, aponta Maria Aparecida.

“Quando a gente vai com um grupo grande de jovens a um espaço como a Pinacoteca do Estado, as pessoas que estão circulando ali, em geral, não convivem com jovens da periferia”, relata Elaine. “Tem uma questão de achar que aquela arte que é produzida por pessoas que não estão na periferia não é para pessoas da periferia. Tem esse estranhamento que causa um distanciamento no jovem e faz com ele não se sinta bem naquele lugar”, complementa.

Equidade no espaço público

Para Elaine, no entanto, a única forma de superar essa barreira é estimulando o uso desses equipamentos por esses jovens, promovendo, desse modo, uma utilização mais democrática desses espaços e uma convivência mais plural e diversa na cidade.

“Quando o programa proporciona essa circulação, sem dúvida também estamos contribuindo para produzir espaços urbanos com maior equidade”, enfatiza.

A pesquisadora destaca que é igualmente importante que o poder público e a sociedade como um todo se mobilizem em torno dessa questão: “É preciso que o Estado e as organizações instituam na sua pauta essa questão como um ponto importante e reinventem as suas políticas de juventude no sentido de superar essa segregação; naturalmente isso não vai acontecer nunca”.

Fonte: Cenpec Newsletter