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Falta de hábito

Pesquisa aponta desmotivação para o baixo consumo cultural, mesmo quando há opções acessíveis às populações de baixa renda

11/08/2011

11/08/2011

Roberto Amado

 As limitações econômicas não são o único fator a inibir a vivência de atividades culturais ou artísticas por parte dos jovens. Ainda que elas possam ser caras, há também opções acessíveis às populações de baixa renda, principalmente nas grandes cidades. Mas, mesmo quando há oportunidades, os jovens nem sempre as aproveitam, em especial pela falta de hábito.

Uma pesquisa realizada neste semestre em 82 cidades paulistas, com patrocínio da CPFL Energia, mostrou um quadro de desânimo: 40% dos entrevistados não costumam ir ao cinema, 60% não vão ao teatro e 61% não frequentam museus.

Nada muito diferente do que outras pesquisas já haviam indicado antes. A novidade, desta vez, foi a admissão da motivação (ou falta dela) para o baixo consumo cultural: dos que não vão ao cinema, 8% apontam os preços dos ingressos como impeditivo, mas 29% afirmam apenas não ter interesse. Dos ausentes do teatro, 32% confirmam que simplesmente não têm vontade.

Para especialistas, esse quadro tem vários matizes, mas a educação é a questão central. Sem a formação do hábito, que requer repetição e constância, não há como produzir consumidores culturais, por mais importância que a população confira ao tema.
Mais difusão

O desconhecimento das opções mais baratas também poderia ser um motivo para a baixa frequência a atividades culturais. Para amenizar esta realidade, o projeto Catraca Livre (www.catracalivre. com.br) concentra informações de uma ampla gama de atividades culturais gratuitas, ou que custem até no máximo 12 reais.

O site foi criado há dois anos, a partir de uma proposta de conteúdo social da faculdade Uniesp feita ao jornalista Gilberto Dimenstein. Previsto para operar com atividades apenas no centro de São Paulo, teve, no entanto, crescimento vertiginoso e hoje inclui as principais cidades do País, do interior e do litoral de São Paulo.

“Em dois anos, anunciamos mais de 13 mil atividades culturais gratuitas”, diz Fernanda Perez, coordenadora, responsável pelo conteúdo e uma das idealizadoras do site. O surpreendente, no entanto, é que, segundo pesquisa interna, quem mais acessa o site são mulheres que fazem pós-graduação. “A idéia original era oferecer oportunidades culturais a jovens estudantes da classe C, que normalmente não têm acesso a essas atividades devido às limitações econômicas”, diz Fernanda. “Mas isso ainda não está acontecendo como gostaríamos. A gente sabia que seria uma missão difícil. Consumir cultura é também uma questão cultural”.

Para ela, a criação desse hábito entre os jovens deveria ser um papel da família e principalmente da escola: “Não dá para separar educação e cultura. Mas essa parece ser a visão do nosso sistema educacional. E as famílias, os pais, acham que levar os filhos a um museu, por exemplo, é obrigação da escola”.

Ainda assim, o site é um sucesso: a média diária é de 8 mil visitantes, número que chega a 15 mil em dias de feriado ou fins de semana. As atividades mais procuradas são os shows de música e as peças teatrais. Também têm sido muito procurados os livros, que podem ser baixados diretamente do site – opção que foi adicionada recentemente e tem surpreendido pela procura.

Mas o empreendimento não desiste de seu objetivo inicial, o público jovem e com poucos recursos financeiros, e vem promovendo campanhas também em outros tipos de veículo, como as TVs de ônibus e metrô além de produzir programações impressas.