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Expansões culturais

O contato com as atividades artísticas e culturais tem impacto direto no desenvolvimento dos jovens

11/08/2011

11/08/2011

Roberto Amado

 O jovem Robson Ferreira Neto, de 15 anos, morador de uma comunidade de Adolfo Maia, cidade da periferia de João Pessoa, capital da Paraíba, se orgulha do que é. Admite que sua vida escolar era sofrível e seu comportamento, crítico. “Vivia fazendo bagunça e tirando notas baixas”, conta ele. “Mas, agora, tudo mudou. Sou bom aluno, gosto da escola e pretendo progredir muito na vida”, diz, confiante na sua nova postura.

O agente transformador do comportamento de Robson foi o teatro, levado a ele pelo projeto Arte para a Vida. Não se trata sequer de uma ONG. Doze anos atrás, a médica aposentada Maria Anunciada Salomão resolveu promover a saúde entre a população mais carente, utilizando a arte como instrumento. Adotou duas escolas, entre as quais a de Robson, e nos momentos disponíveis, como no intervalo ou nas aulas vagas, estimula e coordena a encenação de peças de teatro pelos jovens, abordando temas como violência, drogas e meio ambiente. Os resultados são significativos entre os estudantes, como é o caso de Robson.
Conexão interior

Foi algo semelhante o que aconteceu com Fabrício do Nascimento Cardoso, 18 anos, fazendo cursinho para o vestibular. Morador de Filipe Camarão, bairro periférico da cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, em 2005 ele entrou para a oficina de rabeca, um instrumento típico das manifestações culturais de sua região, e desde então não saiu mais — e hoje já dá aulas do instrumento. Mais do que isso, Fabrício encontrou uma identidade que antes parecia distante. “O som da rabeca, estridente, rasgado, me levou à alma nordestina, fez com que eu me encontrasse”, diz ele.

A oportunidade para Fabrício surgiu na Conexão Felipe Camarão, organização fundada pela educadora Vera Santana há oito anos e que vem resgatando uma forte cultura local, como o Boi de Reis, e estimulando a participação de jovens estudantes de uma ampla faixa etária, do ensino fundamental ao médio. A promoção cultural, mais do que assistência social, tem um significado educativo. “A formação educacional não trabalha com a cultura local”, diz Vera Santana. “Com esse contato, os jovens se sentem inseridos na realidade deles. A escola precisa promover essa oportunidade aos estudantes de se manifestar livremente, mas, ao contrário disto, está se distanciando desta realidade”, lamenta a professora.
Sala sem fronteiras

Mas nem só de autorreferência se alimentam as iniciativas artísticas e culturais dirigidas aos jovens. Atuando em outra vertente, o Cineclube Arte 7 oferece aos jovens uma oportunidade de conhecer a cultura além das fronteiras da pequena cidade de São Raimundo Nonato, no Piauí, onde nunca houve uma sala de cinema. Criado pela Fundação Museu do Homem Americano, com instalações simples, mas eficientes para a projeção de filmes convencionais, o cineclube oferece aos jovens não só a oportunidade de conhecer o universo do cinema, mas também de participar da programação de filmes.

Um desses jovens é Kátia Valéria Nunes Morais, de 15 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio. Há seis meses, ela se voluntariou para assumir a vaga de programadora dos filmes, interessada em ter um contato mais intenso com o cinema. “Até então, eu só tinha visto filmes em DVD”, diz ela. “Hoje, eu vejo muitos filmes, inclusive os nacionais, que antes eu não gostava”. Ela lamenta o fato de a escola não oferecer esse tipo de oportunidade, que foi decisiva em relação aos seus planos futuros. “Fiquei muito mais interessada pela cultura e pelas artes. E quero seguir uma carreira profissional nessa área, provavelmente design”, diz.
Formação e informação

“O contato com atividades culturais e artísticas é muito importante para o jovem em formação”, diz o educador Ricardo Vasconcellos, diretor do festival de cinema Curta Santos, que ocorre anualmente na cidade e que atua também como técnico cultural em projetos voltados para jovens na baixada santista, em São Paulo, como a Oficina Cultural Pagu.

“A atividade artística e cultural promove o autoentendimento, oferece uma visão de mundo subjetiva e permite, inclusive, abrir possibilidades profissionais”, diz ele. “A indústria cultural é a que mais cresce no País e gera uma grande quantidade de empregos. Para mim, por exemplo, fez toda a diferença. Participei de uma peça de teatro quando tinha 15 anos e, apesar de ter outra formação, nunca mais me afastei das atividades artísticas e culturais.”

Se o poder transformador da arte é grande, na adolescência é também rápido. “Estou há seis meses envolvida no projeto, tempo suficiente para escolha profissional”, diz Letícia Helena Pinheiro, 16 anos, cursando o segundo ano do ensino médio em Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo. O projeto, no caso, é um dos vários desenvolvidos pela Associação Crescer no Campo, que oferece oficinas de música, criatividade e expressão corporal para desenvolver competências e habilidades e descobrir talentos. Letícia tem aulas de violão, cursos de conhecimento geral e, também, de informática.

“Antes, eu não queria saber de nada, não pensava em nada, não questionava nada. Agora, não. Comecei a gostar de ler, passei a me interessar por todos os assuntos, principalmente por minha escolha profissional. Eu achava que escolher uma carreira era fácil, mas agora sei que é preciso conhecer bem as opções, me aprofundar e saber tomar a decisão certa”, diz ela, ainda em dúvida se vai fazer faculdade de psicopedagogia ou fisioterapia. “O que aprendo aqui levo para dentro de casa, para minha família”.
O estímulo da escola

As mudanças de percepção e comportamento dos adolescentes não surpreendem Ricardo Vasconcellos. “Ao participar de uma atividade artística e cultural, o jovem está se preparando para transformar-se a si mesmo e também à realidade em que vive”, diz o educador. “Essa experiência permite ao estudante o entendimento do coletivo, como trabalhar em grupo, adquirir consciência pessoal e coletiva. Pertencer a um grupo artístico, por exemplo permite a ele não só exercer uma atividade lúdica, como também desenvolver a autoestima, que é muito importante nesse momento de vida”, completa Vasconcellos. “A escola é o lugar mais indicado para promover esse tipo de proposta entre os jovens”, afirma Vasconcellos.

É claro que há impedimentos econômicos no consumo de certos bens culturais. Livros e ingressos de cinema e espetáculos podem ser caros. E o papel da família na formação do hábito também é importantíssima. Mas a escola deve ter aí um papel determinante, estimulando e procurando viabilizar a vivência cultural dos estudantes. Sem nenhum desses elementos, a vida cultural de um jovem pode ficar bastante comprometida.

O estudante José Carlos Santos Soares, de 17 anos, está despertando para as lacunas de sua formação. Cursando o primeiro ano do ensino médio, José Carlos é um bom aluno de uma escola pública da cidade Teixeira de Freitas, na Bahia, e já venceu um concurso de redação promovido por uma entidade paulista, o que o trouxe a uma inesperada visita a São Paulo. Apesar de trabalhar durante a tarde e estudar pela manhã, José Carlos reconhece que tem tempo livre, tanto à noite como nos finais de semana, mas nunca havia ido ao cinema, até recentemente, embora não falte esta opção em sua cidade. “Ouvi dizer que os filmes são em inglês e é preciso ler as legendas. Achei difícil fazer isso”, explica ele sem muita convicção — até porque não tem nenhuma dificuldade com a leitura e é um bom leitor dos clássicos indicados no currículo escolar.
“Eu gostaria de fazer alguma coisa fora da escola, como aprender a tocar violão. Acho bacana. Mas nunca tentei”, diz, sem encontrar uma justificativa convincente. “Nas minhas horas livres, fico em casa assistindo televisão. Minha vida se resume a escola, trabalho e casa”.
Correr atrás

Uma promoção na escola ou uma proposta de trabalho escolar pode ser o empurrãozinho que falta para que jovens experimentem diferentes formas de manifestações culturais. “É importante que os alunos tenham liberdade de escolha e autonomia no ambiente que frequentam. Isto também pode ser um gerador de autoestima. E o aluno também tem de ir atrás das oportunidades que lhe são oferecidas”, diz o educador Ricardo Vasconcellos.

Foi o que fez Mariana Fante Manfrim, de 16 anos, que cursa o terceiro ano do ensino médio de uma escola pública de Curitiba, Paraná. Apaixonada pelos mangás, histórias em quadrinhos típicas da cultura japonesa, ela encontrou dentro da própria escola a oportunidade de aprender japonês e se desenvolveu bem no idioma. Graças a isso, acabou sendo selecionada pela Fundação Japão para uma viagem de intercâmbio àquele país, onde passou 15 dias participando de workshops, visitas a escolas e passeios turísticos. “Conhecer o Japão foi como realizar um sonho”, diz ela. “É muito importante para a nossa formação ter esse tipo de oportunidade. A gente descobre as coisas que gosta e pode pensar no futuro”.