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Estudar ao longo da vida

A educação continuada deve buscar a emancipação do cidadão e não apenas sua empregabilidade, diz o pesquisador Sergio Haddad.

11/08/2011

11/08/2011

Lélia Chacon

No senso comum, educação continuada é aquela que se faz após a formação básica, para aperfeiçoamento ou reciclagem profissional. Mas o conceito, ultimamente batizado de educação ao longo da vida, tem hoje referências mais amplas, ligadas ao desenvolvimento humano, aos direitos sociais e à sustentabilidade ambiental. Ela integra a formação no sistema escolar e a educação não escolar, na qual se inserem experiências diversas de aprendizado. O propósito é preparar o cidadão. Não somente para responder a novos desafios -- como dominar uma segunda língua ou um recurso tecnológico --, mas também levá-lo a ter papel social ativo. O professor Sergio Haddad, doutor em Educação, acompanha o tema como pesquisador da ONG Ação Educativa e diretor presidente do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Ele comenta aqui os caminhos da educação continuada.
Em que contexto surge o conceito de educação continuada?

Uma referência básica vem da Unesco, após a segunda guerra mundial, no contexto de uma preocupação dirigida à educação do jovem ou adulto analfabeto de regiões subdesenvolvidas. Disseminam-se campanhas de alfabetização e, mais tarde, chega-se à educação continuada, educação permanente e, hoje, à educação ao longo da vida como definição de práticas que preparam o cidadão para mudanças sociais. Nesse percurso, por volta do final dos anos 60, desenvolve-se também o conceito de educação popular. Baseada no pensamento de Paulo Freire, ela é mais abrangente por conter, em vez da característica da adaptabilidade, a ideia de conflito para emancipação. Hoje se busca a atuação coordenada entre a educação escolar e a não escolar, entre a lógica da adaptabilidade e a da participação ativa nos processos de mudança social.
Qual é a oferta e a participação em educação continuada?

Há um aumento progressivo, não só entre nós. No Japão, por exemplo, pelo menos 50% da população está engajada em programas de formação. Eles investem em educação para os adultos, não só pela qualificação profissional, mas também visando a formação para a cidadania. Aqui, uma mostra populacional pesquisada há poucos anos no município de São Paulo, entre 15 e 64 anos de idade, indicou participação de mais de 45% dos pesquisados em programas educativos, 26% dos casos em programas de ensino não escolar, voltados à qualificação profissional ou ao desenvolvimento pessoal.
Como funciona esse aprendizado continuado?

Alguns fatores o impulsionam. Nenhuma instância formativa dá hoje conta sozinha das necessidades geradas pela globalização econômica, o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação e as exigências de sociedades mais democráticas, em que o direito à educação é compreendido como direito humano. Também concorre a força de outros agentes, que ajudam a diminuir a relevância do espaço escolar formal. Como os veículos de comunicação de massa, com grande influência educativa, para o bem ou para o mal. A educação que não se realiza no espaço formal da escola, mas é igualmente fundamental, ganha ênfase. Os espaços de trabalho, de lazer, de cultura, das organizações sociais autônomas de todo o tipo se tornam importantes agentes educativos transmissores de conhecimentos e habilidades.
Daí a formação do cidadão entra em cena?

O universo escolar e o não escolar se complementam. O primeiro é mais visível e valorizado como um direito social. O segundo, que tem dimensão maior, é menos visível, mas de alta relevância. Seus reflexos, por exemplo, podemos ver nas recentes convulsões do mundo árabe, que não se deram apenas por processos educativos escolares. A educação fora da escola, via agentes diversos, teve forte influência no processo formativo que se manifestou nessa mobilização. Do mesmo modo, de onde surge a preocupação ambiental? Não nasce no sistema escolar. É refletida nele, mas vem do ativismo educativo de ambientalistas que aos poucos disseminaram tal consciência. Então não se trata apenas de formação escolar, que é importante, mas de uma educação ampla, voltada para o desenvolvimento humano, que dá ao indivíduo condições para transformar sua condição de vida e a da sociedade.

Quais são os desafios nessa direção?

Quanto mais reconhecimento uma sociedade dá a suas organizações autônomas, melhor será a saúde democrática, porque elas estão mais próximas dos problemas sociais. Os escandinavos têm as Folkschool, escolas populares que nasceram de uma mobilização contra o alcoolismo e hoje atuam no campo sociocultural. Na Alemanha, escolas populares dão formação a imigrantes para integrá-los nas comunidades. No Brasil, o movimento educativo que ocorreu de baixo para cima na lógica da pressão contra a ditadura vem perdendo relevância. A formação educativa se dá mais de cima para baixo, pulverizada tanto no setor privado como em ações governamentais de vários ministérios. No entanto, tivemos algumas ações exemplares. Uma nasceu com o problema da Aids e a mobilização dos então chamados grupos de risco, levando o ministério da Saúde a se aproximar da questão e, com apoio do Banco Mundial, disseminar uma ação educativa de prevenção contra a doença, realizada por inúmeras ONGs, que se tornou referência em educação não escolar. O importante é que a educação continuada não esteja apenas a serviço de uma lógica adaptativa, como o aumento da empregabilidade. É preciso ter também um sentido de avanço civilizatório.



(*) Entrevista originalmente publicada no suplemento Educação Continuada do jornal Brasil Econômico, em junho de 2011.