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Corpo e arte

Como a ciência registra a emoção que sentimos ao desfrutar de uma experiência artística

11/08/2011

11/08/2011

Frances Jones

 A pele arrepia, o coração bate mais rápido e um suor em geral imperceptível emana do corpo. Essas são algumas das reações físicas involuntárias quando nos emocionamos ao ouvir determinado concerto ou assistir a uma peça de teatro. Apesar de os cientistas ainda terem muito a revelar sobre as bases neurais especificamente envolvidas no processo criativo e na apreciação de uma obra de arte, a emoção que sentimos ao desfrutar de uma experiência artística já foi bem registrada pela ciência.

“Podemos medir isso de formas bem simples, por exemplo, a partir de equipamentos que registram o aumento de condutância da pele, a aceleração imperceptível dos batimentos cardíacos, pela mensuração de determinadas substâncias, como neuro-hormônios, na saliva, além, é claro, do relato individual, subjetivo”, diz a neurocientista Maira Fróes, professora adjunta do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Cientistas do Instituto de Fisiologia Musical e Medicina da Música da Escola Superior de Música e Teatro de Hannover, por exemplo, pesquisaram quais trechos de peças musicais provocavam arrepios em seus apreciadores e de que forma. Entre elas, a sinfonia número 9, de Beethoven, e o Bolero, de Maurice Ravel. O Sistema Nervoso Autônomo (SNA), que controla as funções básicas do corpo, como batimentos cardíacos, temperatura corporal e pressão arterial, é sensível às emoções. Assim, sem que tenhamos consciência nem controle sobre isso, nosso coração dispara, ou começamos a suar ao ouvir determinados trechos das músicas.

Os pesquisadores alemães liderados por Eckart Altenmüller partiram do pressuposto de que os estremecimentos (arrepios) fazem parte de uma sinalização biológica primitiva, intrínseca à evolução de certos primatas. Quando mãe e filho perdem contato visual, o simples grito da mãe faz os pelos dos bebês eriçarem, mantendo aquecida a pele do bebê. Da mesma forma, determinadas músicas ativariam o centro de recompensa do cérebro humano, proporcionando uma sensação de bem-estar. Sabe-se que a música ainda provoca a liberação do neurotransmissor endorfina, substância química produzida pelo próprio cérebro que causa sensação de relaxamento, prazer e bem-estar.
Diferenças subjetivas

Não é apenas o estímulo sonoro da música que nos emociona, mas todas as formas de arte, e muitos neurocientistas têm se interessado pelos mecanismos neurológicos subjacentes à arte. Entre eles, está Semir Zeki, chefe do Laboratório de Neurobiologia da University College London, para quem a arte e suas diferenças na criação e na apreciação são uma expressão de uma das características mais importantes do cérebro humano: a variabilidade. Ele cunhou o termo “neuroestética” e acredita que o artista é ‘um neurocientista que, usando instrumentos diferentes, explora o potencial e as habilidades do cérebro.

“A variabilidade confere enormes vantagens: enriquece nossa cultura de forma imensurável e é um fator chave na evolução das sociedades humanas”, escreve Zeki no artigo “Artistic Creativity and the Brain” (criatividade artística e o cérebro), publicado na revista Science, em 2001. Zeki busca localizar as regiões do cérebro associadas à beleza usando técnicas de imageamento por ressonância magnética (fMRI) e propõe que a ambiguidade seja uma característica distintiva das grandes obras de arte. Apesar de ele ser uma referência na área, suas posições estão longe de serem consensuais.

Já o neurologista indiano V.S. Ramachandran, da Universidade da Califórnia em San Diego, defende que “toda arte é uma caricatura”, no sentido de que toda forma de arte apresenta uma distorção em alguma dimensão: na cor, como no caso dos pintores impressionistas, ou na forma, no caso das esculturas hindus. “O propósito da arte é aumentar, transcender, ou até mesmo distorcer a realidade”, diz ele no artigo “The Science of Art: a neurological theory of aesthetic experience”, publicado em 1999 no Journal of Consciousness Studies.

“Quer consideremos imagens, quer obras musicais, são os recursos de contraste e destaque, as possibilidades de combinação e agrupamento, de seleção de módulos ou sistemas, ou de identificação de ordens metafóricas que vêm se revelando fortes enunciadores do êxtase neurocognitivo-emocional atrelado à experiência artística”, acrescenta a professora Maira Fróes, que também é integrante da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento e está à frente de um grupo de pesquisa multidisciplinar que atua na interface arte/ciência intitulado “Anatomia das Paixões”.
Vias da percepção

Há hoje identificados dois tipos de processamento das sensações a partir dos órgãos dos sentidos. O primeiro é o chamado “de baixo para cima”, pois acontece no sentido dos órgãos (olhos, ouvidos, pele, etc.) para os centros de processamento neurais primários, no cérebro, criando as sensações primárias. Em seguida, num controle dito “de cima para baixo”, “os estímulos percebidos e já identificados primariamente como sensações, no cérebro, sofrem modificações recursivas graças à atividade deflagrada em diferentes áreas e circuitos distribuídos pelo encéfalo como um todo, o que lhes confere camadas de significação complexas, contextualizadoras, isto é, que nos permitem associações com eventos e dados do acervo de memória individual, identificação de padrões e julgamentos”, afirma Maira.

Nesse segundo tipo de processamento, “de cima para baixo”, diz ela, conferimos valores emocionais-afetivos, bons ou ruins. O mecanismo modula nossa atenção e o modo como projetamos para o mundo externo o que é percebido e elaborado conscientemente sobre o estímulo físico original. “Esses dois sistemas de processamento perceptual em humanos, confirmados pela ciência, nos mostram que a percepção é um processo ativo, subjetivo, seletivo-atencional, pois envolve um ‘julgamento’ cerebral também ativo sobre si próprio, modulando a vivência subjetiva da realidade física de forma bastante sofisticada”, resume Maira.

Isso explica em parte porque cada um de nós vive de forma tão diferente as experiências relacionadas a uma obra de arte: depende do quanto uma determinada obra é capaz de evocar significado em cada um. “Nossa mente, dada a subjetivação a que estamos presos em nossa transdução da realidade física para a única realidade a que temos acesso direto, a subjetiva, é uma grande criadora de metáforas”, afirma Maira. “O simbolismo presente na arte, a meu ver, nada mais seria do que a transdução do simbolismo mental e subjetivo do indivíduo artista para o mundo dos fatos objetivos.”

“Na medida em que a expressão de arte trabalha em níveis de significação, e não de objetos propriamente ditos, seu impacto é justamente por prover, como nenhuma outra categoria elementar do mundo físico, objetivo, um poderoso atalho entre a percepção objetiva, técnica, e os sistemas neurocognitivos complexos, que atuam nos processamentos de cima para baixo e que fazem a significação em todos os aspectos subjetivos da experiência do homem com a obra de arte”, acrescenta a professora.
Força transformadora?

Para o pesquisador André Tavares, professor de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a arte é uma espécie de ficção humana, “uma seleção que extrai do mundo partes às quais esse personagem que é o artista deseja conferir um sentido ou um significado afetivo”. “Acredito que os nossos receptores para os objetos de arte sejam, para além dos sentidos, um conjunto de memórias afetivas que vão sendo formadas ao longo da vida”, diz ele. “E o interesse pela arte amplifica nossa capacidade de sentir e de nomear os estados de espírito.”

Além de ser um ato de comunicação, capaz de registrar momentos e preservar memórias, a arte traz prazer para quem a produz e a recebe, afirma o pesquisador. “Não apenas como o reconhecimento de formas belas, mas o prazer em identificar o processo de seleção, a lógica, qualquer que seja ela, de que se vale o artista, ou o artesão na composição de seu objeto, ou na realização da obra artística em largo espectro”, diz.

E a arte seria capaz de transformar a espécie humana? O acúmulo de experiências artísticas poderia, em tese, criar uma humanidade privilegiada e mais refinada em termos de capacidade intelectual e afetiva, afirma Tavares. “Mas esta é apenas uma das utopias a que a arte sempre esteve associada. Resta saber se essa transformação atingiria a todos de modo similar, ou se criaria grupos de indivíduos mais ou menos suscetíveis a essas manifestações”, diz ele. No Brasil, por exemplo, “há fomento e uma excelente produção artística, mas a circulação da produção de arte e o acesso a esses objetos ainda são limitados a determinados setores da sociedade”.

Para a neurocientista Maira Fróes, em termos biológicos, é a evolução – e não a arte – que transforma a espécie. Atualmente, entram nesse jogo ainda as pressões positivas da ciência sobre a saúde e as profundas modificações ambientais que trazem consequências à saúde. À arte, estaria reservado o papel de inspiradora para a consciência e para a ciência. E aí, sim, ela teria o poder de transformar e conceber um “novo homem”.