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Artes do ofício

Projetos pedagógicos de educadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Pará atestam o poder transformador da arte e da cultura

11/08/2011

11/08/2011

Vera de Sá

 “Se o Estado tiver de optar entre oferecer cesta básica ou cultura, deve desistir da cesta básica.” Essa opção preferencial pela cultura soou mais como uma provocação quando foi enunciada anos atrás por um diretor teatral crítico das políticas públicas. Mas hoje, a julgar pelos resultados dos projetos inovadores descritos a seguir, privilegiar a cultura pode ser encarado como uma ideia mais que razoável.

Experiências no ensino fundamental e médio com enfoque na arte e cultura têm atestado surpreendente poder de transformação. Seja em uma escola de bairro, ou envolvendo uma cidade inteira, mais que a teoria, a força destas iniciativas está na capacidade de mobilizar a comunidade em que os projetos estão inseridos. E, como medida para o futuro, os novos parceiros que conseguirem atrair para seus objetivos.
A trilha da cidade

Em 2003, o maestro Vantoil de Souza Júnior começou a avaliar na prática sua tese: a de que a música poderia representar um grande diferencial na educação, capaz de ser um instrumento poderoso no desenvolvimento dos alunos e de cumprir uma função social. Um dos principais responsáveis pela implantação do “Projeto Música nas Escolas” em Barra Mansa, estado do Rio, nos anos seguintes o maestro viu sua tese original ser embasada por números superlativos. Hoje, o projeto não só atende 22 mil crianças e jovens, como inclui sete corpos musicais estáveis e é responsável por uma nova história da cultura local.

“O impacto na cidade foi enorme. Antes, a atividade cultural era quase nula. Agora tem temporada oficial de concertos, além da apresentação de, ao menos, um balé e uma ópera por ano. O acesso à boa música formou público e a platéia cresce dia a dia”, diz Souza Júnior.

A música faz parte da atividade das creches e do currículo de 72 escolas públicas de Barra Mansa e se estende até o Centro Universitário, que já oferece curso superior na área. A melhora nos índices de desempenho escolar foi sensível, o que é atribuído ao desenvolvimento da percepção, do ritmo, do controle motor e da concentração exigidos pela nova disciplina. Outro saldo do projeto, que tem uma parcela de 84% realizada na periferia, é ocupar o tempo ocioso dos alunos e mantê-los afastados de atividades de risco, violência e drogas.

“A melhora no aspecto social foi enorme, e o resultado também muito positivo no rendimento dos alunos na sala de aula, com diminuição do índice de reprovação”, diz Souza Júnior. Ele afirma que, nos primeiros anos de implantação, a redução da delinquência juvenil pôde ser medida pela variação do número de menores infratores internados, de 30 para 3.

Além de a música integrar a grade curricular, a prática instrumental é oferecida como disciplina optativa. Caso o aluno queira participar de um dos grupos musicais oferecidos pelo município, recebe um instrumento em comodato. O projeto gerou sete corpos estáveis: a Orquestra Sinfônica Municipal, a Orquestra Infantojuvenil, a Banda Sinfônica, a Banda Sinfônica Infantojuvenil, a Orquestra de Metais, o grupo de percussão Drum Latas e um coral.

As apresentações, cuja meta é chegar a noventa por ano e acontecer cada vez mais longe de casa, já atraem público de cidades vizinhas, como Volta Redonda, Rezende e Angra dos Reis. O continente é o limite: um dos objetivos de longo prazo é inserir Barra Mansa no circuito musical da América Latina. O preparo é promissor.

A Orquestra Sinfônica Municipal, com 105 membros, recebe muitos solistas convidados, já mereceu workshops da estrela internacional Zubin Mehta e de integrantes da Filarmônica de Israel, da Orquestra de Câmara da República Tcheca e de Isaac Karabtchevsky, que, à frente da OSM num concerto recente, atraiu público de sete mil pessoas ao Parque da Cidade. É neste local que se concentra a nova ambição do projeto: a construção de um teatro.

O projeto Música nas Escolas custa 5 milhões de reais por ano, dos quais 1,5 milhão é captado junto à iniciativa privada, via Lei Rouanet, participação que Souza Júnior espera ver aumentar nos próximos anos. Ele, que além de Coordenador Técnico do projeto também é Controlador Geral do Município, graduado em Música e em Direito Público, espera fechar estas contas num patamar que garanta a manutenção financeira independente. Respaldo ele tem: em 2008, a Câmara atribuiu ao projeto o status de Patrimônio Cultural do Município. Agora, é lei.
 Terra de alguém

O ponto de partida é simples: ninguém depreda o que é seu. Essa é a premissa fundamental na equação do problema de vandalismo na Escola Estadual Canuto do Val, na capital paulista. José Nogueira de Souza, mais conhecido como professor Zeca Nog, devolveu a identidade dos alunos com o espaço em que estudam por meio do projeto “Nossa Cara”. E reverteu um processo histórico: “Ao longo dos anos, aconteceu uma desvalorização da escola pública, foi criado um descompromisso dos alunos e pais por causa da visão de que nessa escola tudo se pode fazer, porque é uma terra de ninguém”, diz.

O professor constatou a relação dessa atitude de desrespeito por meio de outro problema crônico da rede de ensino: as horas ociosas dos alunos em razão da falta de professores, circunstância em que a depredação era mais acentuada. O projeto, basicamente, direcionou a ocupação desse tempo vago dos alunos na revitalização do espaço da escola. Implantado em março deste ano, o “Nossa Cara” mobilizou todas as turmas do ensino fundamental e médio em oficinas de grafites, mosaicos, máscaras de lambe para aplicação nas paredes, restauração de móveis.

A adesão não foi só dos alunos, mas também da diretoria e de boa parte do corpo docente. Em novembro, começou a ser executado um plano anual. Os alunos vão continuar interferindo na estrutura física da escola e restaurar jardins, área de lazer, customizar armários das salas de aula, criar uma sala de leitura ao ar livre, trabalhar com reciclagem, construir bancos com garrafas pet, tecidos, etc. Também deve ser aprofundada a atividade de interação social e integração cultural, de especial importância numa escola em que 20% dos alunos são de origem boliviana, reflexo de uma significativa leva de imigrantes que se estabeleceu no bairro paulistano onde fica a escola, a Barra Funda. Como a alfaiataria é uma das atividades principais destes imigrantes, o projeto vai se estender a oficinas nesta área e já conta com uma máquina de costura e contribuições de ateliês de tecido da região.

Com formação em Filosofia e em Arteterapia, Zeca já detecta efeitos das atividades: “Os alunos estão mais tranquilos, diminuiu o número de atos predatórios e de agressões entre eles, e há um sentimento maior de pertença do espaço físico, surgido da noção semeada de que a escola é deles.” O professor faz a coordenaçãodo projeto, mas são os alunos que o monitoram, porque a ideia é que eles assumam a responsabilidade como agentes da própria história: “O eixo é a valorização da cidadania e a criação de um sentimento de identidade, de ‘eu no mundo’.”

Algumas atividades pontuais da escola foram desenvolvidas em parceria com o Escola Aprendiz e com o Projeto Nossa Barra. O Rotary é um novo parceiro e outras instituições e empresas privadas devem ser contatadas pela Associação de Pais e Mestres. Com os recursos, a ideia é estender o projeto além das horas vagas dos alunos e criar “sábados culturais”, enriquecidos com música, capoeira etc., além de aumentar a participação e presença de pais na escola.
 Rio de histórias

Quando Jaqueline Cristina Souza da Silva chegou para assumir seu posto de professora de Arte no Colégio São Francisco Xavier, em Abaetetuba, no Pará, região de rica cultura popular, encontrou os alunos se preparando para a festa de Halloween, o tradicional dia das bruxas comemorado nos Estados Unidos. Discordou dessa importação. E, em parceria com o professor Paulo Anete, exumou personagens de mitos e lendas amazônicos, como a feiticeira Matinta Perera, e montou com os alunos um cortejo com estrutura carnavalesca que atravessou a cidade em 2007, com o tema “A Noite de Lua Cheia”. A referência é feita à reunião das antigas gerações na beira do rio, nas noites de lua cheia, para contar e ouvir histórias de assombrações. Assim, foi inaugurado o “Auto da Barca Amazônica”, que em 2010 recebeu o prêmio Arte na Escola Cidadã, do Instituto Arte na Escola, como melhor projeto voltado ao ensino médio.

Abaetetuba é cortada por um rio. Dele vêm lendas, histórias, cultura, tráfico, pirataria, drogas. Jaqueline explorou o positivo para enfrentar o negativo. A cultura regional voltou no desfile de 2008 com “Lendas da Cobra Grande”. Há praticamente uma história de cobra grande em cada cidade da área, como foi constatado pela pesquisa histórica feita para o trabalho. Os colonizadores se apropriaram das lendas já existentes e incrementaram o enredo, localizando a cabeça da cobra sob a igreja matriz. Se ela se mexer, afunda toda a cidade.

No ano seguinte, o tema foi “Cordões de Pássaro”, resgatando uma manifestação cultural que estava em extinção porque, sem registro, ia se perdendo com a morte dos habitantes mais velhos. A pesquisa constatou que, com encenações de dança burlesca, este tipo de apresentação contava a história do pássaro encantado que protege a floresta amazônica e que tem como guardiã uma moça, mas é caçado pelos que querem destruir a floresta. Nesta edição, 2009, o cortejo, que começou com 200 participantes, já tinha perto de dois mil jovens de 14 a 23 anos e mobilizava toda Abaetetuba. Com comissões e alas, parando em vários pontos, o auto usa técnicas de teatro-dança para contar suas histórias.

Em 2010, foi feita uma edição especial retrospectiva do projeto, para um documentário realizado para o Arte na Escola que pode ser visto no blog www.autodabarcamazonica. blogspot.com. “Um dos objetivos era trazer e aumentar o tempo do aluno na escola, manter os problemas a distância. Eles serão os futuros multiplicadores do projeto que, quem sabe, no futuro, vá gerar renda”, diz Jaqueline. O desempenho escolar já melhorou e a ideia é avançar com a abertura à participação de outras escolas, buscando parcerias pela inscrição do projeto em editais de leis de incentivo fiscal.