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Arte na cabeça

Jovens de diferentes territórios, estudantes do ensino médio, debatem seu envolvimento com as expressões artísticas

11/08/2011

11/08/2011

Equipe Onda Jovem

Diz um verso de Manoel Bandeira que “a arte é uma fada que transmuta e transfigura” o destino. Para muitos jovens brasileiros, a frase do poeta cai como profecia. As artes, que a internet tornou mais acessíveis, têm sido para as novas gerações um dos principais instrumentos de aproximação com a educação e a cultura. Quatro jovens, estudantes de ensino médio e envolvidos com artes diversas, trocam aqui impressões sobre o tema.
 
   

Diogo de Oliveira Lopes, 19 anos, cursa o 2º ano. Ele participa há sete anos do projeto Aprender com Arte, da Fundação Raimundo Fagner, em Fortaleza (CE). “Tudo que aprendi na Fundação é a base do meu desenvolvimento, pessoal e social”, diz.
 
   
Para o quilombola Romário Xavier Torres, 16 anos, também no 2º ano do ciclo médio de uma escola agrícola, a capoeira é a arte que “dá sentido” e deixa seu coração “repleto de alegria”. Com Mestre Fumaça, na Associação Cultural Chapada dos Negros, no município de Arraias (TO), Romário aprende desde 2007 a tocar instrumentos, cantar e jogar capoeira.
Na cidade do Rio de Janeiro, a estudante Michelly Batista da Silva, 17 anos, cursa o último ano de um ensino médio especial, parte do Núcleo Avançado em Educação (Nave), um projeto do Governo do Estado do Rio e do Instituto Oi Futuro e que compreende uma escola pública de alta tecnologia e um centro de pesquisa e inovações voltado ao ensino. Michelly está se especializando nas artes multimídias, aprendendo técnicas de cinema, design, animação e a desenvolver sites. “Pretendo seguir carreira na área de produção cultural”, diz.

Acompanhe a seguir os principais trechos da conversa entre os jovens.
Onda Jovem: O que é cultura para você? 

Diogo: Cultura são os costumes que identificam um povo por meio de suas próprias expressões, como a dança, as músicas, as comidas etc.

Adriana: Para mim, é a forma como levamos a vida e os conhecimentos que isso envolve. Quando conhecemos pessoas com outras formas de viver, isso pode influenciar nossa cultura e transformar nossa vida.

Romário: É o que faz parte da nossa história.

Michelly: São as crenças, hábitos e estilos de vida. A nossa cultura é o conjunto do que adquirimos na sociedade na qual vivemos. E, assim, cada povo tem a sua, constituindo as diversas culturas existentes no mundo.
Qual é, para você, a principal forma de transmissão da cultura, ou qual você mais valoriza? Por quê?

Romário: A música, porque ela reflete mais o coração das pessoas.

Adriana: A leitura, porque nos traz muitos conhecimentos e aprendemos a ver a vida de outras maneiras.

Diogo: Toda arte tem seu valor. Eu respeito e admiro a música por já fazer parte de minha história.

Michelly: A principal fonte de transmissão de cultura são as pessoas, porque é por meio de seus hábitos, crenças e costumes que se forma a cultura de cada região. Além disso, o conhecimento se adquire quando conversamos com outras pessoas, pois elas transmitem umas para as outras um pouco de sua cultura. Temos muito que aprender com cada ser humano, por cada um ter sua própria cultura, sua própria raça e sua própria história.
Você acredita que a internet e a maior facilidade de acesso à produção de bens artísticos e culturais estão mudando as formas dos jovens de fazer e consumir cultura?

Michelly: Sem dúvida, muda sim. Atualmente, ficou muito mais fácil conhecer a cultura de outra região e de outras pessoas pela internet. Se vamos ao YouTube, encontramos amostras de todas as culturas de toda parte do mundo. Com as redes sociais, a transição entre uma cultura e outra é muito mais rápida, sem contar que é muito divertido conhecer a cultura de outras pessoas.

Romário: Sim, a internet hoje é a fonte para o jovem se integrar ao mundo das aventuras culturais.

Diogo: A internet popularizou a cultura, fazendo com que todos, a qualquer momento, possam consumir e produzir material cultural.

Adriana: Sim, porque temos acesso a muita informação. Podemos ouvir música, ver filmes, aprender sobre a arte do mosaico e até pegar receitas para experimentar pratos de outras culturas, coisa que eu adoro fazer.
A escola oferece bom acesso à cultura e às artes para os jovens? Qual a sua experiência?

Romário: Sim, quando preciso de apoio da escola para desenvolver minhas artes, tudo corre bem.

Adriana: Minha experiência não foi muito positiva na escola. Os professores não levavam a sério as artes, não estimulavam os alunos nem ofereciam conhecimento sobre as manifestações artísticas, para que os alunos pudessem se identificar com algum segmento. A escola deveria oferecer cursos diversificados de arte.

Diogo: Aqui na minha comunidade, há alguns projetos que já desenvolvem a educação por meio da música ou da dança, que estimulam o corpo e a mente.

Michelly: Acho que sim. Na minha escola, já teve grupo de dança, com coreografias de músicas diversas. Temos também aulas de teatro e podemos expressar tudo que sentimos sobre o que acontece no mundo e mostrar o estilo de vida de cada um. Acho que todos os alunos deveriam dar sugestões de como deixar a escola com a “cara” mais jovem e de como transformá-la em um ambiente agradável para a diversidade cultural que temos.
Para você, há relação entre cultura e educação? Qual?

Diogo: Há uma relação muito forte. O respeito é o ponto mais forte da relação entre cultura e educação. A escola pode tratar a cultura como fator de desenvolvimento educacional e não simplesmente como conhecimentos isolados. Mas a escola está muito preocupada em formar o aluno para este mundo capitalista. Deveria investir mais na cultura regional para nos tornar pessoas mais sociáveis, sem preconceitos.

Romário: Sim, para ter educação é preciso ter acesso à cultura.

Adriana: Sim, quando a pessoa adquire cultura, ou seja, hábitos e conhecimentos, ela se transforma em um ser humano melhor, porque passa a compreender de uma forma mais ampla as relações humanas.

Michelly: Sem dúvida, a educação é uma das formas que se tem de adquirirmos conhecimentos de diversas culturas, uma está ligada à outra. Toda cultura tem uma educação diferente e toda educação tem uma cultura diferente, e uma colabora com a outra.
Você acha que as artes ajudam você a se conhecer melhor, a entender mais do mundo em que vive, a ter um crescimento pessoal?

Adriana: Sim, o mosaico transformou a minha vida, ampliou meus horizontes. Por causa da arte conheci pessoas novas e outras visões de mundo, o que me ajudou a perceber que eu não tenho barreiras para o meu crescimento.

Diogo: Com certeza! Nada melhor do que “abrir a cabeça” para a arte!