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“A arte diz ao jovem quem ele é”

A frase é o destaque da entrevista com Laís Bodanzky, diretora de cinema e teatro, com obras sobre adolescência e projetos de formação e difusão cultural

27/05/2011

01/01/2011

Muitas idéias na cabeça, uma câmera numa mão e um projetor na outra – essa poderia ser uma síntese da trajetória da diretora de cinema e teatro Laís Bodanzky. No início dos anos 1990, ao mesmo tempo em que iniciavam sua produção de filmes de curtametragem, ela e o parceiro, o diretor e roteirista Luiz Bolognesi, criaram também o Cine Mambembe, projeto que consistia em levar no próprio carro um projetor para os mais variados pontos da cidade de São Paulo e exibir filmes para platéias sem acesso às salas de cinema.

Dos curtas, como “Cartão Vermelho”, Laís passou aos longas, começando pelo premiado “Bicho de Sete Cabeças”, de 2001, incluindo “Chega de Saudade”, de 2008, e, neste ano, “As Melhores Coisas do Mundo”, sobre as atribulações de Mano, adolescente de classe média que estrela uma série de livros escrita por Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto. O filme, roteirizado por Bolognesi, mostra Mano enfrentando a separação dos pais e os terremotos emocionais típicos da adolescência, como a descoberta da sexualidade e as ruidosas relações com o grupo, hoje amplificadas pelas novas tecnologias a volumes que podem ser devastadores.

Enquanto Laís consolidava sua carreira, incluindo a direção de peças teatrais, o Cine Mambembe também cresceu, multiplicando-se em três projetos: o Oficinas Tela Brasil, que oferece cursos de formação para que jovens façam seus próprios filmes; o Cine Tela Brasil, com duas salas de exibição itinerantes, na forma de tendas, que já acolheu mais de 600 mil espectadores; e o Portal Tela Brasil, que oferece, pela internet, formação e informação sobre o universo audiovisual brasileiro.

O esforço para manter os projetos de acesso e difusão do audiovisual derivam da convicção de Laís de que cultura e educação não se separam. “O importante é criar repertório, e é na infância e na adolescência que temos tempo pra isso”, diz. “Adultos e educadores devem oferecer esse repertório e a percepção de que o mundo das artes não é só entretenimento, mas provoca a reflexão e a compreensão de quem sou eu.”

Em entrevista a Onda Jovem, a diretora avisa aos educadores que queiram trabalhar com audiovisual como conteúdo pedagógico que o Portal Tela Brasil (www.telabr.com.br) terá, a partir do próximo ano, um canal específico para professores.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

ONDA JOVEM: O que a levou a filmar “As Melhores Coisas do Mundo”?

Este foi um projeto muito especial, que surgiu de um convite. Quando penso sobre por que me convidaram, acho que talvez seja porque eu tivesse dirigido o filme “Bicho de Sete Cabeças”, que trata do universo da loucura, mas também da relação entre pais e filhos, com um personagem que é um adolescente. Também havia dirigido a peça “Essa Nossa Juventude”. Já havia essa relação com o tema. O convite era para criar uma nova história, a partir da série de livros “Mano”, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. Então, fui a campo, pesquisar, fazer entrevistas com estudantes, para poder ter o diálogo mais verdadeiro, mais sincero possível com estes adolescentes.
E o que você descobriu sobre estes jovens? Eles são muito diferentes das gerações anteriores?

Descobri que adolescentes são adolescentes em qualquer lugar e que as questões não são tão diferentes da minha própria adolescência. As questões da adolescência são atemporais.
Alguns aspectos dos personagens podem ser mais característicos dos jovens de classe média dos grandes centros. Quais seriam os traços que provavelmente são comuns a todos os jovens?

Fiz a pesquisa em escolas particulares porque precisava ser fiel ao personagem dos livros, o Mano, que estuda em escola particular, tem pais muito intelectuais. Procuramos escolher escolas com propostas diferentes, umas mais liberais, outras com outros perfis, embora todas particulares. E fizemos a pré-estréia para um público de 800 adolescentes de escolas públicas do Rio de Janeiro, cheios de dúvidas: será que eles vão dizer “isso não tem nada a ver comigo”? Foi um sucesso! Eles adoraram. Porque as questões são as mesmas: quem eu sou; a descoberta da identidade e da vida, que coloca situações das quais você não tem como escapar; o medo de não ser aceito pelo grupo, medo que acaba fazendo com que o grupo também exclua. São todas questões típicas dessa fase do amadurecimento.
Afinal, o fato de terem crescido com as novas tecnologias de informação torna a juventude contemporânea muito diferente das anteriores? Existe mesmo uma barreira entre as gerações mais velhas e estes jovens?

As tecnologias fazem diferença, sim, não seria correto dizer que não. Acho que as questões não mudam, mas, sim, a forma e a intensidade. As tecnologias trouxeram coisas inusitadas e interessantes, e outras nem tanto. Por exemplo, o bullying. Ele sempre existiu, não existia o nome, mas na minha infância já havia. Mas hoje, por causa das novas formas de comunicação, ele extrapola a sala de aula, a escola, o bairro, a cidade. Essa invasão é avassaladora e acontece como um pesadelo que só os jovens de hoje sabem como é. Para o adolescente, isto tem outro peso, porque é um momento de muita insegurança, e quando sua individualidade é exposta, ele fica muito fragilizado. Nós, adultos, não temos como dimensionar isso, porque a intensidade, pra nós, era diferente. Mas tem outro lado, legal, que é a possibilidade de encontrar seus pares, que é o que os adolescentes mais querem. Isso acontece na internet. Num momento em que ele pensa “eu sou diferente de todo mundo”, ele tem como encontrar seu grupo, e isso pode parecer um colo.
O filme se passa quase o tempo todo dentro da escola. Qual é hoje o papel da escola na vida dos jovens?

O filme se passa na escola porque a pesquisa mostrou que os adolescentes passam a maior parte do seu tempo nela. Eu não tinha percebido isso. É claro que o grupo familiar conta, mas a escola é muito importante. E acho que a escola também ainda está patinando neste aspecto, não está preparada para questões que são muito sérias. Acho que estamos todos pensando sobre isso. Há uma angústia entre os educadores, que percebem isso, mas ainda não houve tempo para amadurecer todas estas mudanças.
O Mano, protagonista do filme, é um adolescente que está aprendendo a tocar violão. Como você vê a relação da juventude com as artes? Qual a importância da arte nesta etapa da vida?

Uma das expressões da cultura são as artes. Elas “vestem” o que somos, como o abstrato que se materializa, num corte de cabelo, numa música, numa arquitetura. Como o adolescente precisa saber quem ele é, a arte se torna muito importante. Outro dia, um garoto me mostrou a lista de músicas prediletas dele e disse que, olhando a lista de seis meses atrás, ele viu como havia mudado. Isso o ajuda a se ver. A arte diz ao jovem quem ele é.
E quanto ao consumo e produção de arte e cultura pelos jovens? Há características próprias dos jovens contemporâneos?

Os jovens se apropriaram com muita facilidade das novas tecnologias de produção e divulgação. Talvez as gerações anteriores produzissem muito também, mas agora há canais de divulgação, como o YouTube, onde aparece muita gente boa. Eles utilizam muito bem esses canais, sem grandes pretensões de atingir o mercado, o que é legal porque traz muito frescor.
O tema do acesso e da produção sempre estiveram presentes em sua trajetória, por meio de vários projetos. Por quê?

Eu não separo cultura de educação. O importante é criar repertório, e é na infância e na adolescência que temos tempo pra isso e também não temos a rigidez de pensamento que o andar da vida vai acarretando. Adultos e educadores devem oferecer esse repertório e a percepção de que o mundo das artes não é só entretenimento, mas provoca reflexão e a compreensão de quem sou eu. E essa formação não pode ficar restrita ao mundo da escola. Tem de ir ao cinema, ter a experiência na sala escura, com outras pessoas. É papel dos educadores mergulhar os jovens no ambiente das artes, como elas são na vida real.
Como foi a criação do Cine Mambembe? E do Oficina Brasil, do Tela Brasil e do Portal Brasil?

Com o amadurecimento dos projetos, agora está mais claro que o importante é a formação. O Cine Mambembe começou com a ação mais romântica, levando o projetor, Luís e eu. Mas o retorno do contato com as pessoas era tão rico, com visões tão surpreendentes, tão elaboradas, que o que faltava era mesmo formalizar. E aí passamos para as oficinas e para o Cine Tela Brasil, que tem duas salas itinerantes e que viaja cada vez mais para escolas. O portal levou tudo isso para a internet.
Como você vê o panorama atual quanto ao acesso aos produtos e aos meios de produção artísticos e culturais no Brasil?

Eu entendo que a pirataria existe, embora eu não concorde com ela, porque existe desejo. Veja o “Tropa de Elite 2”, que conseguiu evitar a pirataria e levar milhões aos cinemas porque “Tropa de Elite 1” plantou o desejo. Então, existe desejo. Mas é claro que o ingresso ainda é caro e em muitas partes do Brasil não há salas, e aí se vive o consumo informal.
Qual tem sido a contribuição das políticas públicas nesta área?

Existe uma consciência das necessidades, há projetos e até já há uma linha de crédito, mas ainda falta acontecer. O Brasil tem um potencial enorme de economia criativa, mas ainda não atingiu sua plenitude.
E qual deve ser a contribuição das escolas?

Olha, a França integrou o cinema ao currículo. Os estudantes têm caderno de química, de geografia e de cinema. E eles vão às salas de cinema, num acordo com as redes exibidoras. Depois, isto é discutido na escola, não só para aprender mais geografia, de forma interdisciplinar, que é legal também, mas eles vão além disso. Faz-se um grande debate, sem que o professor interfira, como se fosse uma grande terapia. Tudo isso é para formar um cidadão crítico e que saiba se expressar. Vejo às vezes que as pessoas têm muita dificuldade para se expressar. E isso os franceses sabem fazer: se expressar de forma crítica.

E os educadores brasileiros?

Faço um convite a todos que desejem trabalhar com audiovisual, para que visitem o Portal Tela Brasil (www.telabr.com.br), com canal específico para professores.