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Tempo de escolhas

Quatro estudantes de ensino médio trocam ideias sobre os dilemas da entrada no mercado de trabalho

18/07/2011

18/07/2011

O aluno do ensino médio está às portas de escolhas para o futuro. Que profissão quer seguir? Que tipo de trabalho o atrai? Qual sua vocação? As respostas têm de equilibrar os desejos pessoais e os limites impostos pela realidade de cada um. Duas garotas e dois rapazes, estudantes do ciclo médio, contam aqui como estão vivendo esse momento e que portas têm encontrado para auxiliá-los em suas definições.


Foto: Arquivo PessoalUma das meninas, de Teresina (PI), é Amanda Sampaio Sales Falcão, 16 anos, que cursa o 3º ano no CEMTI João Henrique de Almeida Souza. Ela está concentrando esforços no vestibular deste ano: “Gostaria muito de ser médica, mas ainda tenho dúvidas”, diz.

Foto: Arquivo PessoalA outra é a paulistana Stefanie Rodrigues Feitosa, 16 anos, aluna do 2º ano na E.E. Engenheiro Pedro Viriato Parigot de Souza. Ela pretende fazer um curso técnico de nutrição e dietética. Vê a opção como uma possibilidade de começar a trabalhar logo: “É para sentir se é isso mesmo que eu quero e depois fazer a faculdade”, explica.
Foto: Arquivo PessoalOs garotos – o gaúcho Bruno Kruger, de Porto Alegre, e o catarinense Dérick Pacheco Caitano, da cidade de Palhoça, têm uma experiência em comum: ambos estão iniciando caminhos profissionais na Junior Achievement, organização sem fins lucrativos que atua em escolas públicas e privadas de todo o Brasil promovendo atividades de preparação para o trabalho, como o projeto Empresário Sombra, do qual Dérick, 16 anos, do 2º ano do ensino médio no Colégio Catarinense, participou. “Passei o dia ao lado de um executivo, acompanhando sua jornada de trabalho”, conta. A experiência lhe rendeu a oportunidade de um estágio na ONG, onde está há 4 meses.
Foto: Arquivo PessoalPercurso semelhante fez Bruno, 17 anos, estudante de 3º ano no Colégio Santa Família. No colégio, ele participou do programa Miniempresa, que despertou seu gosto pela administração. Hoje dá os primeiros passos na carreira, trabalhando na sede nacional da Junior Achievement, em Porto Alegre.

A seguir, os principais trechos do bate-papo entre os jovens.
ONDA JOVEM: Profissão e trabalho são questões do seu presente ou assuntos distantes?

Amanda: Todos os dias penso sobre meu futuro profissional. No momento, esse é meu maior dilema, por estar concluindo o ensino médio. Gostaria muito de fazer medicina, mas tenho dúvidas. Bate uma preocupação, afinal não tenho experiência no mercado de trabalho, muito menos nessa área. Até aqui sempre me dediquei somente aos estudos.

Dérick: Penso muito em minha carreira profissional e em tudo que pretendo obter com isso. Quero ser jornalista, que não exige diploma, mas acho necessária uma formação superior. Eu já estou vivendo experiências: sou redator e editor de um jornal na igreja que frequento. Com uma equipe de adolescentes, levamos informações ao povo. Também faço um estágio na Junior Achievement há 4 meses, organização que conheci no colégio. Ajudo os coordenadores de projetos e a gerência operacional.

Stefanie: Profissão e trabalho são questões do presente. Eu gosto muito de química e quero fazer um curso técnico de nutrição e dietética para ver se é essa a área em que quero trabalhar e seguir com os estudos. Um curso técnico pode facilitar a escolha da faculdade. Além disso, caso eu não consiga uma vaga em universidade pública, essa experiência me permitiria trabalhar para pagar os estudos.

Bruno: Com certeza são assuntos do presente. Eu sempre tive incentivo em casa. Aos 12, 13 anos, eu ajudava meu pai, que é dono de restaurante, nas horas extras da escola. Depois, participei da formação e administração de um empreendimento estudantil, por meio de um projeto da Junior Achievement na minha escola. Nosso projeto era sabonetes artesanais. Gostei e decidi continuar próximo da organização, num núcleo que reúne jovens que participaram de seus programas, o Nexa. No final de 2009, surgiu uma oportunidade para ingressar na sede nacional da JA, em Porto Alegre. Comecei fazendo tabulação de pesquisas e, hoje, atuo no suporte dos projetos, na atualização de redes sociais e sou voluntário do Programa Miniempresa.
Vê diferença em ter uma profissão ou um trabalho?

Amanda: Sim. Para ter uma profissão é preciso se profissionalizar, ou seja, se especializar em uma determinada área escolhida. Já o trabalho é abrangente, a pessoa pode trabalhar em diversos setores, sem ter uma especialização.

Bruno: Trabalho é uma forma de se sustentar, mas nem sempre é o que queremos seguir para o resto de nossas vidas. A profissão é aquela que nos desperta maior interesse e para a qual temos uma vocação, um talento.

Dérick: Ter uma profissão é gostar daquilo que se faz. Ter um trabalho é simplesmente lutar pelo dinheiro de cada dia e fazer aquilo porque tem de ser feito.

Stefanie: O que interessa é que ter um trabalho ou uma profissão gera mais responsabilidades, mas também independência financeira.
O que acha mais importante: descobrir uma vocação, ou desenvolver habilidades para o trabalho?

Amanda: Descobrir uma vocação, pois a partir desse momento você pode desenvolver habilidades (ou melhorar) e trabalhar com algo que faça bem-feito e goste de fazer.

Stefanie: A habilidade mais importante para o trabalho, tendo-se ou não uma vocação, é saber dialogar com as pessoas. Mas descobrir a vocação é importante para saber o que estudar na faculdade, se aperfeiçoar e ter um ótimo emprego.

Dérick: Antes de descobrir uma vocação, é necessário desenvolver habilidades como trabalhar em equipe.

Bruno: Tanto descobrir uma vocação quanto desenvolver habilidades são importantes, e experiências no mercado de trabalho estimulam as duas coisas, dão suporte para construir uma carreira.
Para entrar no mercado, vale qualquer tipo de trabalho?

Amanda: Não. Isso vai depender do nível de conhecimento que se tem. Para quem não tem estudos, vale. Para quem almeja crescer profissionalmente, deve procurar se aprimorar.

Stefanie: Não, trabalhar na área em que se pretende estudar é melhor.

Dérick: O ideal é poder esperar pela oportunidade que mais lhe convém, pois assim o trabalho será feito com mais qualidade.

Bruno: Se você precisa se sustentar ou sustentar sua família, vale qualquer tipo de trabalho. Eu tive a sorte de poder escolher. Gosto da área administrativa e tento me focar nela.
Acha necessário ter uma formação específica?

Stefanie: Para ter um bom emprego, sim. O mercado de trabalho exige um ensino superior.

Dérick: Concordo, as empresas exigem formação.

Amanda: Acho fundamental ter conhecimento e, assim, adquirir experiência na área escolhida.

Bruno: O principal é ter o interesse e o esforço para ingressar no mercado de trabalho.
Ter um perfil empreendedor ajuda? Você se considera um jovem empreendedor? Por quê?

Bruno: Para entrar no mercado de trabalho é preciso ter muita coragem, assumir desafios e procurar experiências. Nessa direção, sou empreendedor.

Amanda: Teoricamente, sim, pois me considero resiliente, que é a capacidade que uma pessoa tem de lidar com problemas, superar obstáculos, ou resistir a pressões de situações adversas. Essa característica é fundamental para ser um bom profissional. Falta saber se, na prática, conseguirei aplicar esses predicados.

Stefanie: Tenho coragem, assumo meus desafios, quero batalhar e adquirir experiências, mas não me considero por isso uma empreendedora.

Dérick: Aprendi, no trabalho, ao conhecer novos hábitos e enfrentar mudanças, que empreender é descobrir algo que eu não sabia que possuía.
Que experiências você tem observado entre amigos e colegas que já estão trabalhando?

Amanda: Os que estão trabalhando na área que estudam estão desempenhando bem, conseguindo evoluir.
Stefanie: O mais comum é estar trabalhando para pagar a faculdade.

Dérick: A dificuldade de conciliar trabalho e estudo é comum. Noto desânimo em amigos nessa situação, diante de uma dificuldade escolar.

Bruno: Eu tenho observado a questão da organização e da dedicação. É essencial organizar sua vida, saber onde tudo começa e termina. E a dedicação é importante para que os projetos deem certo.
Como a escola, os professores, ou o ensino que recebe têm ajudado nas suas escolhas? Alguma atividade o inspirou?

Stefanie: O que tem me ajudado mais é pesquisar e ler sobre as profissões na Internet. Mas na escola um trabalho sobre as propriedades dos alimentos me inspirou.

Amanda: Não tenho tido suporte na minha escola, ela não dispõe de trabalhos direcionados à escolha de uma profissão.

Dérick: Minha escola dá apoio, oferecendo informações sobre carreiras, profissões, cursos em universidades. E a experiência de estágio melhorou minha comunicação com as pessoas.

Bruno: Foi a escola que possibilitou minha participação no programa Miniempresa, que ajudou muito na escolha da carreira que quero seguir.
O que é ou foi difícil na sua escolha profissional?

Bruno: A maior dificuldade foi conhecer as profissões para ver qual se encaixava no meu perfil. Hoje quero seguir a área de administração, e penso em me formar também em educação física para, quem sabe, abrir minha própria academia.

Dérick: Eu imaginava que a principal dificuldade era encaixar uma opção no meu gosto. Mas, trabalhando, percebi que é possível aprender a gostar de outras profissões, que é melhor testar antes de julgar.

Stefanie: Para mim, foi a dúvida entre duas profissões. Tive de pesquisar mais para ver o que realmente queria.

Na tomada de decisão, você se deixa influenciar por familiares e amigos? Como reage a críticas da família?

Bruno: Eu me deixo influenciar pelas características e oportunidades do mercado de trabalho. Sempre encaro as críticas da minha família de forma construtiva, pois são para o meu bem.

Amanda: A família com certeza influencia. Mesmo indiretamente, tem sempre uma pressão dela, que espera muito de nós, e isso acaba nos deixando mais nervosos e indecisos. Mas prefiro tomar a decisão por mim mesma.

Stefanie: Minha mãe me ajudou a escolher, mas as decisões foram minhas. Quero fazer o que gosto, não o que meus familiares desejam, mas não tive problema com isso.

Equipe Onda Jovem