Você está aqui: Página Inicial Acervo Edição 20 Retornos da educação

Retornos da educação

Para o economista Marcelo Néri, escolarização é, além de importante, valiosa: "significa dinheiro”

18/07/2011

18/07/2011

O economista carioca Marcelo Néri ganhou por formatar dados que decifram os caminhos seguidos pelos brasileiros na área da educação. Chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, pela segunda vez ele realiza um estudo sobre juventude, educação e mercado profissional, com exclusividade para o Instituto Votorantim. A pesquisa “A Educação Profissional e Você no Mercado de Trabalho” ratificou um princípio valioso, a ser seguido por rigorosamente todos os brasileiros e que já havia sido indicado no levantamento anterior, de 2008, “Você no Mercado de Trabalho”: quanto mais educação, melhor.

E é o que muitos brasileiros estão fazendo, por intermédio da educação profissional. O mercado aquecido pelo crescimento econômico tem recompensado estes estudantes com mais empregos e melhores salários. Mas há um alerta: a demanda aquecida não pode servir de desculpa para os jovens deixarem a escola. O que os estudos mostram é que, desde o analfabeto, até o profissional com pós-graduação, a ciranda do salário e da valorização profissional gira a favor de quem aposta na educação. O ganho de renda se materializa de forma direta, num resultado contundente. Jogo jogado: quanto mais estudar, mais valorizado o profissional será. A seguir, os principais trechos da entrevista de Néri ao Onda Jovem.

Onda Jovem: Qual é o principal conselho que se pode dar a um jovem, a partir dos resultados da pesquisa?

Marcelo Néri: São, na verdade, três conselhos: estudar, estudar e estudar. Hoje em dia, mais do que antes, a educação ganha importância crescente. Percebe-se que será assim, cada vez mais. Antes, era um “extra” em relação aos demais ingredientes do mercado de trabalho; hoje, quem não estuda fica inevitavelmente para trás. Verifica-se um aumento muito grande na evolução profissional, na relação com anos de estudo, em todos os níveis.
Mesmo entre os níveis mais elevados?

Sim. O salário e a empregabilidade estão associados à hierarquia educacional. Veja o caso da profissão mais difícil de passar no vestibular historicamente: medicina. Existem todos os sinais de escassez de médicos no mercado de trabalho. Logo, a situação é mais atraente para esses profissionais.
E nos degraus mais baixos da pirâmide educacional?

O cenário se repete até chegar ao analfabeto, que ganha menos do que quem tem apenas um ano de estudo. Olhando como economista, encontramos uma hierarquia clara. O tecnólogo ganha mais do que o técnico, que por sua vez tem renda superior aos trabalhadores egressos dos cursos de qualificação profissional. Não tem qualquer mistério. O mercado remunera muito claramente quem investe no estudo.
Há números que comprovam o avanço?

Sim, vários. O primeiro ano de pós-graduação dá um ganho de 42% no salário, em geral, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE) de 2007. A comparação de doutorado ou mestrado com a graduação em medicina, ou engenharia, confirma o número. Na mesma pesquisa, o ensino médio técnico representa um ganho de renda de 14% em relação aos estudantes do ensino médio tradicional. No caso da educação profissional, o prêmio pelo estudo faz o salário subir de R$ 700 para R$ 1.600. A empregabilidade também sobe de 68% para 78% nesses casos.
O que o mercado tem a oferecer aos que seguem o caminho da educação profissional?

Veja, a educação profissional é tratada historicamente no Brasil como uma opção de segunda classe. Só que estudo também é questão de vocação, e por aqui se aceita de maneira pior o fato de que as pessoas têm diferentes interesses. Não dá para negar que a opção pelo ensino universitário traz ganhos nítidos. Do mesmo jeito, inexiste razão para evitar a constatação de que o ensino profissional funciona para muita gente. Eu mesmo imaginava que não haveria retorno significativo nesse tipo de aprendizado, mas fui surpreendido. O dado mais importante aponta uma variação de 1,5% a 12% entre os alunos que apostam na qualificação profissional. Em março de 2010, 22,1% haviam concluído cursos profissionalizantes, num crescimento de 75,6% em relação aos números de 2004. Isso, num cenário em que 44,5% dos cursos exigiam pelo menos o ensino médio completo. Quando olhamos a Pesquisa Mensal de Emprego, encontramos outro resultado surpreendente, que demonstra o salto da educação profissional. A proporção, na idade ativa, de quem concluiu o curso e está no mercado subiu de 12,6% em 2004, para 22% em 2007. É uma revolução, que demonstra que nem estudantes nem instituições de ensino estão paradas. Ou seja: cresceu a quantidade de pessoas com nível profissionalizante completo, sem que a qualidade tenha diminuído. O ganho educacional é visível.
O mercado brasileiro tem características particulares, especialmente em relação à chegada dos profissionais. Aqui, a indicação é muito valorizada, por vezes mais do que o currículo ou o histórico escolar. O quadro da “porta de entrada” sofreu alteração?

Ainda está muito presente no Brasil a idéia do “quem indica”, mas, na outra ponta, a educação dá um super-retorno, por vezes impressionante, maior do que em outros países. É claro que continuamos sendo um país de grande desigualdade, e a mazela se expressa também entre os que têm educação e os que não têm. Quanto mais alto o nível do curso em qualquer parâmetro – profissional, universitário, na educação fundamental ou secundária –, mais bem-sucedido será o profissional em termos financeiros. A escolarização é, além de importante, valiosa. Significa, numa palavra, dinheiro.
A desigualdade se transforma num argumento a favor da educação?

Sim, mas com ressalvas. No Brasil, hoje, uma pessoa que completa o curso universitário tem salário maior do que quem só fez o ensino médio. Mas a diferença vem caindo – sinal de que a desigualdade também está em declínio. A diferença na renda diminuiu de 10 vezes para 8 vezes. Ao contrário, o prêmio para quem tem pós-graduação aumentou em geral.
Quais são os setores da economia campeões no emprego para quem tem curso profissionalizante?

Em primeiro lugar, o automobilístico, com 45,7%. É uma área mais estruturada, na qual o crescimento da economia tem permitido superar recordes. Costumo dizer que um símbolo do setor automobilístico é o presidente Lula, que começou a vida num curso do SENAI. Em segundo, vem a área de finanças, com 38%, seguida de perto por petróleo e gás (37%). Os últimos são o agronegócio (7%) e a construção civil (17,8%), setores com alto grau de informalidade.
O que a pesquisa mostrou em relação aos tipos de curso, como presencial e a distância, diurno e noturno?

Aqui, há também algumas surpresas. O pessoal que fez curso noturno tem salário um pouco maior, em média, do que as turmas que estudaram durante o dia – R$ 950 a R$ 650. Não existe diferença relevante entre o curso presencial e o a distância, nem na qualificação profissional, nem no ensino médio. O empate demonstra uma vitória do curso a distância, diretamente ligada ao desenvolvimento tecnológico.
Onde estão os maiores problemas?

Um dado preocupante: caiu de 7,5 milhões para 6,9 milhões o número de jovens de 18 a 24 anos que estão em instituições de ensino formal. É sinal de que o mercado está atraindo o jovem, que não está conciliando a educação formal com o trabalho. O apagão de mão de obra está se retroalimentando. Pode ser que a educação profissional esteja cobrindo essa lacuna, mas precisamos de gente com formação. Os jovens acabam saindo da escola, descuidando do próprio futuro. Existe a necessidade de políticas públicas que permitam ao jovem ficar mais na escola. Os brasileiros têm de estudar e olhar para a frente, cuidando da taxa de impaciência que faz o futuro parecer distante para os jovens.
Em sua opinião, onde está o erro?

A gente aborda a educação de maneira equivocada. É vendida ao adolescente jovem uma história “poliana”, de que escola é legal, colorida. Está errado. O conselho deveria ser: a escola é dura, mas vale a pena. O jovem se desestimula por não saber isso. Descobre muito tarde como deve encarar a fase educacional. Além disso, o ensino médio tenta juntar muita coisa e o jovem acaba fazendo muitas delas mal. Surge o pensamento “para que estou estudando isso?” O jovem não vê praticidade naquilo. Tanto que a evasão escolar é muito maior justamente nesta fase. Os dados de 2007 apontam que 18% dos alunos de 15 a 17 anos abandonaram a escola, enquanto na faixa de 7 a 14 anos, o ensino fundamental, o número foi de apenas 2%.
Qual é a solução?

É muito importante ouvir os principais interessados, aceitar que o mundo está se movendo. Muitas pesquisas detectam dados objetivos, como a escassez de médicos, que exatamente por isso são os profissionais que ganham mais e têm mais empregabilidade, mas também são submetidos a uma jornada de trabalho mais longa. Ou seja: é importante considerar a vocação do jovem, mas também buscar respostas na letra fria dos números. A análise do mercado de trabalho deve ser feita para aumentar a possibilidade de escolhas, não para limitá-las. E, claro, informação é fundamental. Quanto mais, melhor.

A velha ideia brasileira da importância do diploma se mantém?

Sim. Chamamos, aliás, de efeito diploma, algo virtuoso até mesmo na imagem do estudante/profissional. Alguém que termina o que se propôs a fazer dá sinal de que leva a termo as coisas do ensino. A escola sinaliza dados e comportamentos da vida profissional. O aluno que termina o curso vai ser trabalhador como foi na escola, alguém que sabe resolver problemas – seja de matemática, seja da vida profissional.

Aydano André Motta