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Portas diferentes

A nova realidade econômica afetou as formas tradicionais de se ingressar no mercado e construir uma trajetória profissional

18/07/2011

18/07/2011

Era apenas mais um jovem que vivia como lavrador no interior de São Paulo e que nunca completou o ensino médio. Em 1963, tornou-se presidente do Bradesco, o maior banco do Brasil, no qual começou a trabalhar como office-boy aos 22 anos de idade. A história, real, é do conhecido banqueiro Amador Aguiar, que morreu em 1991. Longe de ser uma história comum, ela ilustra uma realidade que aparentemente já não existe mais: a possibilidade de ingressar numa grande empresa sem ter uma educação formal consistente e, nela, construir uma carreira frutífera e bem sucedida, até sua mais alta hierarquia.

Nas duas últimas décadas, as transformações do mercado de trabalho, em especial no que diz respeito às oportunidades oferecidas aos jovens, vem se transformando radicalmente. “O perfil de entrada no mercado de trabalho exige mais escolaridade e, sobretudo, atitude diante de um mundo do trabalho muito mais complexo e desafiador”, diz Marcelo Nonato, coordenador do portal Busca Jovem, projeto liderado atualmente por quatro investidores sociais privados associados ao GIFE – Grupo de Institutos, Fundação e Empresas. Criado em 2008, o portal nasceu do desejo de esses investidores –Fundação Itaú Social, Instituto Hedging Griffo, Instituto Unibanco e Instituto Votorantim – contribuírem na qualificação do processo de inserção de jovens, após concluírem sua formação profissional em projetos sociais apoiados.

O Busca Jovem procura fazer a conexão entre as instituições formadoras de jovens interessados em conseguir um primeiro emprego e as empresas que oferecem essa oportunidade. “Ao contrário do que se imaginava no início do projeto, existem sim muitas vagas abertas para jovens, mas com condições bem definidas. Elas exigem dos candidatos escolaridade e requisitos como criatividade, responsabilidade e iniciativa”, diz ele. Quase a totalidade das empresas que buscam o portal para contratar jovens profissionais pedem idade mínima de 18 anos e ensino médio completo.

“A porta está entreaberta para acolher jovens que apresentem bom desempenho escolar e tenham perfil comportamental adequado. Eles são observados atentamente, desde o momento em que entram na fila para se candidatar à vaga”, diz Nonato. Isso inclui aspectos como postura, comunicação escrita e falada, habilidades de relacionamento, disciplina, persistência...

E do lado dos jovens? Existe interesse em atender a essa expectativa do mercado para alcançar uma oportunidade de trabalho? Tudo parece indicar que há um desencontro entre a realidade do mundo profissional, a formação oferecida aos jovens e a informação que chega até eles para acessarem as vagas disponíveis.

Em geral, o interesse destes jovens não é exatamente começar uma carreira. Ainda que estejam buscando trabalho por necessidade, sabem que esse primeiro emprego é normalmente uma ocupação temporária e nem sempre determina os caminhos profissionais que venham a escolher no futuro. “O primeiro emprego é uma experiência, ou uma experimentação, quase nunca uma opção profissional”, diz Nonato. Mas isso não quer dizer que não devam se preparar para isso.

Por outro lado, uma parte significativa da juventude brasileira apresenta grandes dificuldades de conseguir uma inserção de boa qualidade no mercado de trabalho. Seja pela falta de preparo, seja pelas oportunidades precárias que lhes são oferecidas. Ao entrar precocemente no mercado, em condições marcadas pela precariedade, o trabalho juvenil acaba resultando na construção de trajetórias pouco promissoras. Um dos alertas sobre isso está no estudo Trabalho Decente e Juventude no Brasil, elaborado em 2006 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência das Nações Unidas, em parceria com o Conselho Nacional de Juventude.

O conceito de trabalho decente pode ser sujeito a interpretações diversas. A OIT “propõe uma reflexão não apenas sobre as suas oportunidades de obter uma ocupação de qualidade como também sobre as suas possibilidades de transição no mercado de trabalho, ou seja, de construção de percursos diferentes para trajetórias ocupacionais futuras”. Mas, para o próprio jovem, o emprego decente é aquele que dá segurança e consistência. Ou, em outras palavras, registro em carteira. “É o trabalho formal, com proteção social e remuneração adequada. O que fugir disso, é trabalho não decente”, explica José Eduardo Andrade, secretário-executivo do Conselho Nacional de Juventude.

Essa, no entanto, não é a mais comum das práticas em nosso mercado — principalmente entre jovens. Segundo a OIT, a incidência do emprego sem carteira de trabalho assinada, excetuando o trabalho doméstico, é maior para os jovens do sexo masculino (35,7% de sua ocupação total) do que para as jovens do sexo feminino (25,2% de sua ocupação total).

Por meio da análise de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2006 e atualizados em 2008, o mesmo relatório da OIT constatou que o índice de desemprego entre brasileiros de 15 a 24 anos é de 17,8% em relação aos 22,2 milhões de jovens economicamente ativos, ou seja, ocupados ou que procuram por uma oportunidade profissional.

Quase um terço dos profissionais dessa faixa etária não têm carteira de trabalho assinada (31,4%) e o estudo da OIT explica que essa incidência, duas vezes superior à registrada entre os adultos (14,1%), se deve ao fato de a maior parte estar empregada em micro e pequenas empresas, onde a parcela de informalidade é maior.Os dados podem estar mudando nos últimos anos, mas qualquer que seja o contexto econômico, para quem procura o primeiro emprego, essa situação é inadequada, ainda que seja apenas uma experiência. “É muito importante descobrir a vocação num ambiente formal, com garantias de direitos”, diz Nonato.

Porta de entrada e rotatividade

Quando se observam as oportunidades de trabalho que o mercado oferece aos postulantes de um primeiro emprego, um dos setores mais dinâmicos é o de telemarketing. De fato, pela grande demanda do mercado e, também, por não exigir experiência, o setor vem se tornando, muitas vezes, a porta de entrada daqueles que querem começar a trabalhar. “Não só telemarketing, mas atendimento em geral, normalmente ligado ao setor de serviços e ao varejo, como em lojas e supermercados”, diz Nonato.

Ainda que muitas empresas deste ramo ofereçam cursos de capacitação e condições aceitáveis de trabalho, com registro em carteira e benefícios, há uma grande rotatividade de empregados dessa categoria. Para superar esse desafio, o Instituto Nextel desenvolveu uma proposta própria de formação na área, oferecendo um programa de educação complementar para jovens em situação de risco social que já tenham se formado no ensino médio, ou estejam em escolas públicas. Depois de frequentar aulas de português, matemática, inglês, informática, técnica de atendimento a clientes e de vendas, o aluno conclui o curso com uma vivência prática dentro da Nextel durante duas semanas ,junto a atendentes de call center e de loja. Desta forma, o Instituto investe na preparação de jovens para a que considera ser a área que mais demanda e que oferece mais oportunidade para quem procura um primeiro emprego: a comercial – mais especificamente, atendimento ao cliente e venda de produtos por mídias interativas.

Embora exista a expectativa de que a melhora do desempenho econômico do País possa contribuir positivamente para este quadro, os dados pré-crise mostravam que nos últimos anos a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 24 anos aumentou de modo significativo. Se em 1992 era de 11,9%, em 2006 a taxa alcançava a marca dos 18%.

Mas esses números devem ser interpretados também por outro ângulo. Quando ocorre maior desemprego nas faixas etárias mais baixas, de 15 a 19 anos, é possível também concluir que há menos jovens destas idades que necessitam trabalhar e que, portanto, há um aumento da escolaridade e redução do trabalho infanto-juvenil. São consequências positivas determinadas pelo crescimento econômico.

Mercado e educação

Mas o fato é que a nova geração que hoje disputa vagas no mercado de trabalho é aquela que se ressente dos tempos difíceis da economia brasileira, quando deveriam estar em processo de formação. Segundo o estudo da OIT, “a juventude brasileira foi afetada pelas transformações econômicas e sociais das décadas de 1980 e 1990, pelo baixo ritmo de crescimento econômico e pelo processo de desestruturação do mercado de trabalho que caracterizou o período”. A recuperação econômica parece beneficiar muito mais aqueles que já estão inseridos no mercado de trabalho e que já possuem condições profissionais de preencher as vagas que se abrem devido ao aquecimento econômico.

Isso porque não basta apenas crescimento econômico para a redução do desemprego juvenil — esta é uma condição necessária mas não suficiente. É preciso ter, além disso, “políticas específicas voltadas para melhorar o padrão de inserção dos jovens no mundo do trabalho”, diz o estudo da OIT.

Em outras palavras, o assunto volta a ser educação. É preciso uma forte base educacional no ensino médio, para depois ir em busca de atualização constante, “em função da velocidade das transformações tecnológicas, que tendem a tornar o conhecimento adquirido obsoleto no curto prazo”, diz o estudo da OIT, que aponta números: a probabilidade de um jovem trabalhador com 12 anos ou mais de escolaridade conseguir uma ocupação no segmento formal é cerca de 4,2 vezes superior à daqueles com até 4 anos de escolaridade.

A necessidade do mercado de trabalho acaba se transformando num impulsionador decisivo para aumentar a taxa de escolaridade entre os jovens. E a situação tem melhorado. Segundo o estudo da OIT, em 2006, apenas 24% dos adultos tinham entre 9 e 11 anos de estudo, enquanto entre os jovens essa porcentagem era de 44%.

Independentemente dos números, a qualidade do ensino também é essencial para atender à demanda das empresas. Esse é um dos motivos do sucesso do Programa Educar, que oferece, desde 1996, cursos profissionalizantes a jovens. Durante seis meses, esses jovens se capacitam como operadores ou mecânicos de empilhadeiras e adquirem também noções de gestão empresarial. O programa tem resultados consistentes: no último ano, 87% dos jovens que completaram o curso tiveram colocação profissional. “As empresas conhecem nosso trabalho e sabem que os alunos saem daqui com qualidade para atender às necessidades do mercado”, diz Edvaldo Magalhães, coordenador da organização. O que chama a atenção, no entanto, é que as empresas muito frequentemente contratam os jovens, mas não para exercer a especialização adquirida nos cursos do programa. “Fomos uma das primeiras escolas com este tipo de curso e trabalhamos com a qualidade da formação dos jovens”, explica Edvaldo. O que acontece, na verdade, é que o programa acaba complementando a educação formal em todos os aspectos, e não apenas dando uma especialização ao jovem. Preencher as lacunas da educação formal é um desafio para os postulantes ao primeiro emprego e também para as empresas que os contratam. Desafios bem diferentes da época em que floresceu a carreira de Amador Aguiar.

Roberto Amado