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Pela porta da frente

Jovens investem na escola e buscam formas de entrar no mercado de trabalho para realizar seus sonhos

18/07/2011

18/07/2011

Independentemente de sexo, idade ou região do País, os estudantes do ensino médio concordam que sem estudo não têm chances de ingressar no mercado de trabalho pela porta da frente. Aos 16 anos, cursando o primeiro ano do ensino médio público, na Escola Maria Augusta de Ávila, na zona leste de São Paulo (SP), Eric Botini de Deus, que trabalha informalmente como distribuidor de folhetos, acha que vai precisar estudar mais, se quiser ter uma boa colocação. “Sem curso técnico ou faculdade, só vou conseguir emprego ruim. Com o inglês da escola não dá pra aprender a falar legal. A escola oferece também curso de espanhol, mas era fora do horário e não deu”, diz. A família tem papel de destaque no tema, assim como os amigos. “Queria fazer um curso de web design de arquitetura, que a minha mãe falou que é melhor pro meu futuro. Ela até me levou pra ver, mas ia ficar muito longe. Na minha casa todo mundo fala pra eu estudar, se quiser ser alguém na vida. Eu tenho alguns amigos que trabalham de operador de telemarketing e em lojas no shopping.” O objetivo imediato de Eric é simples: “Eu queria ter um trabalho melhor pra poder ajudar a família, comprar meus ‘negocinhos’ e fazer uma poupança”. Questionado sobre a profissão que gostaria de exercer para atingir seus objetivos, ele ainda não sabe responder. Mas ainda tem tempo para descobrir.

No outro extremo, acalentando a mesma dúvida, mas já correndo atrás do tempo perdido, Danielle Sartor, 22 anos, voltou à escola para cursar o ensino médio da Educação para Jovens e Adultos (EJA), do Colégio Horácio Ribeiro dos Reis, em Cascavel (PR). Trabalhando como diarista, casada e mãe de dois filhos – o mais velho com 3 anos –, ela também acha que precisa ingressar na faculdade para conquistar um lugar ao sol: “Quando eu era menor, pensava em fazer enfermagem. Agora, não sei. Nunca fui registrada, não tenho curso de nada. Engravidei e parei de estudar. Mas eu aprendo as coisas muito rápido. Gosto de escrever, ler, acho que poderia me dar bem como secretária. Agora apareceu pra eu fazer um curso financeiro. Acho que tenho que fazer mais cursos. Corro atrás de emprego, peço oportunidade, mas é difícil, não tenho experiência.”

Contando com sua força de vontade e o incentivo da família, Danielle segue lutando, sem orientação profissional. “Na escola só vou ter palestras no terceiro ano, mas como sabem da minha situação, tentam me ajudar. Meu marido me apoia pra eu continuar estudando, fazer um curso de informática. Minha sogra trabalha em um sindicato, me indica os cursos que aparecem. Eu vou fazendo tudo que dá. Sei que uma hora eu vou conseguir um emprego.”

Conexão com o amanhã

Para Wanda Engel, superintendente-executiva do Instituto Unibanco, discursos como os de Eric e Danielle refletem a distância existente entre a realidade destes estudantes e a escola: “O jovem está perdendo a perspectiva de futuro. Sabemos que ele é imediatista até por uma questão hormonal.” E circunstâncias como a pobreza e a violência aumentam essa urgência. “No cenário da vida real, a escola não tem sentido, pois o esforço necessário para que o jovem possa ter o que quer o desloca para um futuro muito distante. Assim, ter uma vida de consumo é uma impossibilidade para ele. A escola está totalmente desligada desta realidade.” Para a especialista, embora os parâmetros curriculares nacionais (PCN), construídos na década passada, já tratassem desta preparação para o mundo do trabalho, nada disso se vê na prática. “A grande maioria das escolas, cerca de 90%, continua preparando para a universidade, sendo que nem um terço dos alunos ingressa no ensino superior. Não chega a 10% a quantidade de estudantes ligados ao ensino profissionalizante. Não acredito que, de uma hora para outra, possamos chegar a 30%. É muito difícil, caro e requer um trabalho estruturado.”

Wanda reconhece que, além das diretrizes já existentes, é necessário ter um ensino voltado para o trabalho que contemple um plano de vida para o jovem. “É preciso ficar claro para o estudante que as coisas que ele fizer hoje vão ter consequências. Isto não quer dizer profissionalizar, mas estabelecer algum nexo entre o que ele está fazendo na escola e as suas perspectivas futuras.”

Uma forma de estabelecer este vínculo seria buscar no ensino médio alunos que trabalhassem por quatro horas, dentro do esquema da Lei do Aprendiz. “Conciliando trabalho e estudos, em condições dignas e recebendo um salário, o jovem conhecerá modelos e referências que talvez não tenha em sua comunidade e vai perceber, na prática, por que é importante estudar”, diz Wanda.

Um dos projetos do Instituto Unibanco – o Valor do Amanhã – tem motivado os jovens a conhecerem as noções de causa e efeito, ação e reação, atitudes e consequências, e do quanto tudo isso colabora para a realização de seus sonhos, sobretudo os que estão em situação de vulnerabilidade social.

Dando os primeiros passos no mundo do trabalho, por intermédio do Programa Jovem Aprendiz, o estudante do 1º ano do ensino médio Lucas Costa, de 15 anos, afirma que o estágio na COELBA – Companhia de Energia da Bahia – está sendo muito importante para ele. Além do salário e carteira assinada, Lucas, que mora em Salvador, recebe vale-transporte, tíquete-refeição e todos os benefícios trabalhistas. Uma vez por mês participa de uma reunião de avaliação do programa, junto com os pais e supervisores.

“Estou aprendendo como funciona uma empresa. Trabalho como auxiliar de protocolo, tiro xerox e levo os documentos pra assinatura. Além das horas do estágio, também tenho treinamento de informática, eletricidade e comportamento. Como os professores são muito experientes, aproveito bastante. Gosto de ficar perguntando, tenho curiosidade de aprender.”

Mas o sonho de Lucas é ser biólogo e trabalhar em zoológicos. Ele diz que, depois de concluir o ensino médio, pretende fazer vários cursos e faculdade. Ele acha que, para conseguir um bom emprego, é preciso saber mais sobre informática e ter experiência. “Quero ter a minha casa, uma boa situação financeira e criar uma família com alegria. Na minha família todo mundo é trabalhador, tenho esta herança. Vontade e garra a gente tem.”
Qualificação profissional

Ter formação profissional aumenta em 48% as chances de um indivíduo em idade ativa ingressar em uma carreira. A conclusão é da pesquisa “A Educação Profissional e Você no Mercado de Trabalho”, desenvolvida por iniciativa do Instituto Votorantim e coordenada pelo economista Marcelo Néri. O levantamento também constatou que os salários daqueles que têm um curso profissionalizante são até 12,94% mais altos e a chance de se conseguir um posto com carteira assinada é 38% maior, em relação a candidatos que não tem essa formação.

A pesquisa revelou ainda que a taxa de ocupação do mercado de trabalho para aqueles que têm qualificação profissional vem crescendo, com alguma flutuação, desde 2002. Apostando nesta tendência, alguns jovens como Camila Martins Santana, estudante do CEFET de Belo Horizonte, planejam a carreira usando os cursos técnicos como trampolim.

Cursando o terceiro ano do curso técnico de Edificações, a estudante aposta que tem 100% de chances de conquistar um emprego assim que concluir os estudos. “Muitos colegas já estão fazendo estágios, antes da formatura. Como estou trabalhando num projeto de iniciação científica, ainda não me interessei, mas converso com os professores, principalmente os que também trabalham em empresas, e visito os sites daquelas em que gostaria de trabalhar. O próprio CEFET disponibiliza constantemente uma lista de estágios e empregos. Sei que o mercado está aquecido.”

Este é um dos dados apresentados pela pesquisa “A Educação Profissional e Você no Mercado de Trabalho”. Nas escolas de educação profissional, o número de estudantes matriculados não para de crescer. Nas escolas federais, por exemplo, as matrículas de cursos técnicos de nível médio saltaram de 79 mil em 2003 para 160 mil em 2009. Em breve, com as novas escolas que entrarão em funcionamento, serão cerca de 250 mil estudantes. Segundo o Secretário de Educação Profissional do Ministério da Educação (MEC), Eliezer Pacheco, muito tem sido investido, já que o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) tem uma visão sistêmica da área: “O ensino médio é considerado o elo frágil desta corrente e, por isso, tem recebido atenção redobrada. Mudamos o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e criamos os institutos federais de educação, ciência e tecnologia, nos quais 50% das vagas devem ser de ensino médio integrado. Ao aliar o currículo tradicional a um curso técnico, cria-se uma alternativa concreta para a juventude. Uma pesquisa feita pelo MEC com estudantes técnicos de nível médio, egressos dessas escolas, demonstrou a empregabilidade de 72% deles já no primeiro ano depois de formados.”

Um mundo de desafios

Buscando traçar seu próprio rumo, a futura técnica em edificações quer trabalhar numa empresa que valorize o crescimento profissional e invista no seu aprimoramento. “Meu principal interesse é aprender. Penso que posso seguir carreira, cursar a faculdade de Engenharia Civil e continuar pesquisando. Sei também que preciso suprir algumas deficiências que dificultam a conquista de um bom emprego nesta área, como inglês fluente e alguns cursos especiais de desenho em computador, mas acredito que reúna as qualidades necessárias para ter sucesso na profissão.”

Sobre o papel da escola na orientação profissional, Camila tem sugestões: “A escola poderia melhorar a postura do aluno e orientar sobre as exigências e o comportamento adequado no mundo do trabalho, discutindo inclusive a possibilidade de frustração, pois muitas pessoas pensam que estão preparadas, mas não estão.”
É por reconhecer a importância deste preparo profissional que Vanessa Daiane Delgado, 17 anos, está fazendo o curso de assistente administrativo na DCA – Desenvolvendo a Criança e o Adolescente, ONG de Bebedouro, em São Paulo: “Ainda não terminei o curso e já estou estagiando na recepção da Unimed. Estou muito satisfeita, pois vejo que estou amadurecendo como pessoa e como profissional. Procuro me esforçar ao máximo para um dia ser efetivada”. Vanessa espera ainda conseguir ingressar numa faculdade. “Usando meus talentos e habilidades, quero atingir esta meta. Aprendi que oportunidade é a chance dada a quem se dedica e sempre está pronto para novos desafios. E eu estou.”

Aos 14 anos, Camila Justino Ferreira do Nascimento está cursando o 2° ano no Centro de Ensino Médio Integrado à Educação Profissional e Técnica - CEMI - Gama (DF) e, embora tenha um preparo diferenciado, vê com certa apreensão as chances de ingresso no mercado de trabalho: “Apesar de os professores se dedicarem, faltam muitos materiais essenciais para as aulas práticas das matérias do curso.”

Orientada pelos pais a buscar uma profissão que a satisfaça, Camila pensa em cursar a faculdade e acredita que a escola pode ajudar mais do que tem feito na hora da escolha do curso a fazer: “Deveriam ser promovidas palestras interativas, ou mesmo bate-papos com os alunos, como forma de despertar nosso interesse e ampliar o conhecimento sobre o assunto. Também seria muito útil um acompanhamento psicológico para ajudar na definição da profissão que seguiremos. Acredito que desta forma aumentariam as chances de fazermos escolhas acertadas.”

Carmem Allende e Liliane Oraggio