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Corrida de obstáculos

A caminho do mercado de trabalho, o jovem precisa superar o gargalo da conclusão do fundamental, que tem reflexos diretos no ensino médio

14/07/2011

14/07/2011

Quem já passou pela escola sabe: sair do 5º ano (antiga 4ª série) para o 6º ano (antiga 5ª série) significa passar por uma experiência totalmente nova. A escola muda completamente: de unidocente passa para pluridocente, o número de matérias aumenta e os alunos, de uma hora para outra, deixam de ser tratados como crianças, pois já estão entrando na adolescência.

Nesta fase, os alunos possuem especificidades que influenciam diretamente a sua forma de aprender, com necessidades de experimentação, sociabilidade, questionamento e reflexão. Além disso, vivem em uma sociedade marcada por conhecimentos e aprendizados compartilhado com base no uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Os adolescentes que estão na escola hoje fazem parte de uma geração de “nativos digitais”, que já nasceu diante das telas da TV e do computador e têm uma grande empatia pela linguagem das novas tecnologias. Os professores, por sua vez, ainda são parte da geração de “imigrantes digitais” e muitos ainda não dominam bem essas novas tecnologias. Neste sentido, a distância entre a experiência cultural a partir da qual os professores falam e aquela a partir da qual os alunos aprendem gera conflitos que ainda não foram solucionados pelo sistema educacional.

Tudo isto faz com que o segundo segmento do ensino fundamental seja uma fase peculiar na vida escolar. No entanto, esta etapa, que está entre o ciclo de alfabetização e o ensino médio, não recebe a merecida atenção: há nela poucos investimentos públicos e privados e raramente ela é foco de pesquisas acadêmicas.

Os dados ajudam a entender como são grandes as mudanças de um segmento para o outro no ensino fundamental. O IDEB 2009 – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, divulgado pelo Ministério da Educação – MEC no início de julho deste ano, apontou que nas séries iniciais do ensino fundamental a nota passou de 4,2 em 2007 para 4,6 em 2009, em uma escala até 10. Já nos anos finais (6º ao 9º ano), a média nacional cresceu de 3,8 para 4,0, sendo que 21% do total de municípios (1.146 cidades) tiveram queda de 2007 para 2009. No ensino médio, esse crescimento foi ainda menor, de 3,5 para 3,6. O índice, calculado desde 2005 em todas as escolas públicas do Brasil, a partir dos dados sobre aprovação escolar obtidos no Censo Escolar e de médias de desempenho nas avaliações do INEP – Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, mostra que a melhora de aprendizado nas séries iniciais não tem o mesmo ritmo nas séries finais, nem no ensino médio. O que ocorre é uma desaceleração no processo de aprendizagem, ao longo da educação básica, colocando em risco o cumprimento da Emenda Constitucional 59, de 2009, que torna o ensino obrigatório dos 4 aos 17 anos até 2016.

Segundo dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB 2007, no Brasil, apenas 28% e 24% dos alunos aprenderam o que era necessário, respectivamente, em português e matemática no 5º ano. Ao chegar ao final do ensino fundamental, no 9º ano, essa aprendizagem cai para 20% em português e 14% em matemática. Ou seja, os alunos entram no 6º ano com baixa aprendizagem dos conteúdos e terminam o segundo segmento sabendo ainda menos o que deveriam ter aprendido ao longo destes anos, comprometendo sua chegada no ensino médio.

Os problemas de aprendizagem que começam ainda no primeiro segmento geram demandas especialmente na alfabetização, o que tem estimulado a concentração de investimentos públicos e privados nos anos iniciais do ensino fundamental. Ao mesmo tempo, o MEC afirma que, ao aumentar as matrículas na faixa de 0 a 6 anos (80% de 4 e 5 anos e 98,5% de 6 anos), os resultados nos anos iniciais têm aparecido, mas no segundo segmento os gestores não têm percebido os reflexos.
Etapa crítica

O ensino médio é outra etapa de ensino que vem ganhando mais atenção pelos baixos indicadores e pelas discussões em torno do currículo e da demanda dos jovens por uma formação que os coloque no mercado de trabalho. Mas como chegam os alunos no ensino médio e por que muitos desistem antes? A baixa aprendizagem ilustrada anteriormente pode ser um motivo importante, pois prejudica o acompanhamento de novos conteúdos.

Uma pesquisa recém-divulgada pelo INEP mostra que apenas 55% dos jovens de 15 a 17 anos têm o ensino fundamental completo no Brasil. Esses jovens são em sua maioria dos centros urbanos e 71% nunca trabalharam. Tais informações vão ao encontro dos resultados de uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas em 2008, que identificou a falta de interesse como o principal motivo da evasão escolar dos alunos de 15 a 17 anos, contrariando o senso comum de que a maioria trabalha, ou abandona os estudos para trabalhar.

Para que o adolescente siga sua trajetória escolar até concluir o ensino médio, os dados de desempenho e fluxo colocados aqui apontam gargalos específicos e medidas importantes a serem tomadas concomitantemente: melhorar o fluxo e a aprendizagem no segundo segmento do ensino fundamental, para que o aluno chegue com os conhecimentos necessários ao ensino médio; e conseguir tornar o ensino atrativo, fazendo com que o aluno deseje estudar e complete os estudos. A escolarização no ciclo médio nada vai avançar, caso a alta retenção de alunos no fundamental não seja resolvida. Neste sentido, tornar visíveis indicadores e estudos é indispensável para iluminar possíveis soluções para a escola de hoje.

Para trazer um olhar qualitativo aos dados, é preciso entender o que está acontecendo com base na percepção dos principais envolvidos no processo educacional, alunos e professores. Possíveis soluções para essas questões tão complexas só serão abraçadas pela escola se forem desenhadas junto com ela. E isto significa incluir os profissionais da educação e os alunos no processo de identificação dos problemas, na reflexão sobre a prática e na elaboração de ações específicas para cada escola, assim como de propostas de mudanças estruturais para a rede pública de ensino como um todo. Transformações significativas que possam ocorrer nos diversos níveis de ensino, refletindo na trajetória escolar e na realização profissional dos jovens, de fato serão representativas e atenderão às demandas atuais da juventude quando houver a participação de toda a comunidade escolar neste processo.
Uma iniciativa no Rio de Janeiro

Os indicadores educacionais são preocupantes em todo o Brasil e, no município do Rio de Janeiro, isso não é diferente. A rede municipal carioca é bem estruturada, se comparada a muitas outras do Brasil, e é considerada a maior da América Latina, com 1.063 escolas, sendo 405 escolas de segundo segmento, onde estudam 256 mil alunos atualmente.

Dados de 2009 da Secretaria Municipal de Educação mostram que na cidade do Rio de Janeiro a defasagem no 6º ano chega a 22%; isso significa que cerca de 19 mil alunos têm dois anos, ou mais, de atraso em relação à idade ideal para este ano, 11 anos. Os indicadores apontam também alta evasão, em especial no 6º ano – o número de matrículas cai de 84 mil para 58 mil no 7º ano, com quedas que continuam a cada ano, até o término do ensino fundamental. Segundo dados do SAEB 2007, apenas 29% e 23% dos alunos da rede municipal aprenderam o que era necessário, respectivamente, em português e matemática no 5º ano.

Com o intuito de chamar a atenção para esta etapa esquecida, gerar o debate dentro da própria escola e contribuir com o enfrentamento dos problemas do segundo segmento do ciclo fundamental, alunos da rede municipal do Rio de Janeiro pesquisam a opinião de outros alunos e professores de 40 escolas, amostra representativa da rede. É o Megafone na Escola, projeto idealizado e coordenado pelo Instituto Desiderata e realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Ao todo são 122 alunos de 8º e 9º anos que entrevistam cerca de 2.400 alunos de 6º e 7º anos e 360 professores. Os diretores das escolas também participam e respondem a um questionário autoaplicável que foi distribuído a todas as escolas de segundo segmento da rede. Os alunos entrevistadores foram indicados pela própria escola e participaram de oficinas para ajudar na elaboração do questionário, ter noções básicas de pesquisa, compreensão sobre as perguntas e aprender a aplicar o questionário.

O projeto vem mostrando seu jeito de trabalhar desde o início, envolvendo diversas organizações na sua formulação e execução. A metodologia participativa foi elaborada em conjunto com o IPM – Instituto Paulo Montenegro, que também tabula as informações; o CEDAPS – Centro de Promoção da Saúde é a organização que capacita os adolescentes entrevistadores e faz o monitoramento do trabalho de campo; bolsistas e pesquisadores da PUC-Rio fazem o acompanhamento das oficinas e colhem as percepções dos alunos sobre o processo de pesquisar e sobre a escola, além de mediar os adolescentes na Internet, para realizarem um diário de campo digital.

Os resultados do Megafone na Escola vão além dos indicadores obtidos com base na opinião de alunos, professores e diretores, quando permitem que a escola seja ouvida a partir da própria escola, com envolvimento, em especial, dos alunos. Os espaços de diálogo e troca são escassos nas redes de ensino e, quando existem, não incluem de forma representativa os aprendentes do processo. Esse tipo de pesquisa traz um novo olhar sobre a prática escolar, estimulando a reflexão e a elaboração de ações de acordo com a demanda da própria escola, revertendo o caminho das soluções prontas “de fora para dentro”, que costumam bater na porta da escola.

A metodologia aplicada mostrou ser uma ferramenta simples e potente de reflexão e ação dentro da escola, além de provocar resultados diretos nos alunos entrevistadores. Seguindo um pensamento de Bernard Charlot (“Da Relação com o Saber – Elementos para uma Teoria”, Ed. Artmed), “direcionar-se para o saber” pressupõe um movimento de mobilização e não, simplesmente, de motivação, ou seja, é na relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo que o desejo de aprender aparece. E isso vale para todos da escola que participaram do projeto.

Existe uma aposta do Instituto Desiderata em um caminho diferenciado de trabalhar com a escola, no qual uma organização da sociedade civil propõe uma nova forma de parceria com o gestor público e com a escola em que todos os atores envolvidos participam da formulação de um projeto conjunto para a educação pública. Esta pesquisa é apenas a primeira etapa de um processo de longo prazo de criação, reflexão e encaminhamento de soluções.

A expectativa é que o Megafone na Escola possa transbordar das 40 escolas da amostra e ter efeito multiplicador em todas as outras escolas de segundo segmento que não participaram do projeto. Pesquisas como esta podem trazer um olhar qualitativo para os dados quantitativos já existentes, além de levantar novas informações, proporcionar a reflexão e o diálogo entre alunos, professores e gestores de diferentes escolas, assim como fornecer elementos que deem subsídios às políticas públicas voltadas para o segundo segmento do ensino fundamental. Dar qualidade a esta etapa tão peculiar da vida dos adolescentes é essencial na construção de sua autonomia, iluminando suas escolhas e tornando o ensino médio um destino importante para a realização profissional de cada aluno, seja qual for o caminho que ele escolher.

Sobre as autoras

Joana Milliet, jornalista pós-graduada em Mídia–Educação pela PUC-Rio, é analista de projetos da Área de Educação do Instituto Desiderata

Roberta Costa Marques, mestre em Economia pela USP, é gerente da Área de Educação do Instituto Desiderata





Em busca do melhor

Foto: Arquivo Pessoal“Estudando sempre em escolas públicas, a preocupação na minha casa sempre foi procurar onde o ensino era melhor. Por isso, mudei de colégio várias vezes. No ensino fundamental, foram três, principalmente por causa da matemática, em geral fraca nessa fase na maioria das escolas públicas. Quando a gente chega na 7º série, já deveria ter mais preparação para o ensino médio e para o vestibular. Para muitos alunos, isso representa pressão. Meu problema era outro, era garantir que eu ia aprender o que precisava e ter professores mais preparados para isso nesse período. Comecei o ensino médio num colégio muito fraco. O espaço era mal cuidado, os professores não demonstravam interesse, não interagiam muito com os alunos, não ensinavam coisas mais práticas para a gente usar no futuro. Mudei para uma escola melhor: os professores interessados, a direção acompanhando tudo de perto, preocupada em preparar os alunos para o Enem, informar sobre oportunidades de trabalho, elaboração de currículo. E foi no mural da escola que vi o estágio para o Acessa São Paulo, programa de inclusão digital do governo do Estado. É uma monitoria de 4 horas, na escola, e ganho R$ 390,00. Recebi treinamento em informática, mas a oportunidade está sendo ótima para aprender a lidar com o público. Tem sido uma complementação ao ensino, que é mais focado na preparação para entrar na faculdade, o que acho certo porque a gente precisa de ensino superior para ter um bom emprego. Gostaria de estudar medicina, me dou bem nas matérias exatas. Jornalismo também, aconselham meus professores, dizendo que tenho facilidade para me expressar e escrever. Ainda não sei, decidi apenas que vou fazer um curso superior ”.

Amanda Cristina de Paiva Monteiro, 17 anos, cursa o 3º ano do ensino médio na Escola Estadual Mario Marques de Oliveira, na zona leste da cidade de São Paulo.

Joana Milliet e Roberta Costa Marques