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Atividade multifuncional

Para além do retorno financeiro, o trabalho tem impactos internos e sociais na formação juvenil

12/07/2011

12/07/2011

O trabalho é a ação pela qual o homem transforma o mundo e, nas sociedades atuais, consiste em um dos grandes marcos da autonomia do jovem em direção à vida adulta. Mas qual o impacto dessa atividade sobre as pessoas de forma geral – e em especial sobre os jovens?

No Brasil, há ainda uma especificidade, já que uma parcela significativa da juventude torna-se trabalhadora muito antes da conclusão da educação formal. Em 2008, 3,5 milhões de adolescentes brasileiros, de 13 até 17 anos, trabalhavam, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

Ao contrário do que se costuma imaginar, o trabalho – para os jovens adultos, mesmo para os que trabalham e estudam ao mesmo tempo, ou os que pararam de frequentar a escola para trabalhar – não significa apenas uma necessidade econômica. “Em vários estudos, os jovens indicam o quanto o trabalho é importante para eles, mas não só pela necessidade; um outro aspecto, por exemplo, é a questão da independência dele com relação à família”, diz a socióloga Maria Carla Corrochano, assessora da organização não governamental Ação Educativa.

“A juventude brasileira trabalha porque precisa, mas trabalhar também é um desejo.” Além da renda, diz ela, o trabalho é fonte de sociabilidade, é o espaço de se encontrar pessoas, é onde o jovem pode aprender e encontrar a realização. Os que têm um emprego ganham um novo status, uma posição diferente no interior da família e, com isso, constroem uma nova identidade social.

A questão é: que tipo de trabalho se encontra hoje? As pesquisas mostram que os rapazes e moças mais pobres deparam-se com situações de trabalho mais precárias, em geral na informalidade e com uma jornada diária mais extensa. Em relação aos adultos, os jovens ganham menos e são mais afetados pelo desemprego – mesmo com o desemprego em queda nos últimos tempos.

Organização do mundo interno

Assim, é preciso diferenciar o impacto de um trabalho decente e o de um extenuante, com condições indignas para o trabalhador, ou que coloque em perigo o seu funcionamento físico.

Para Mirlene Maria Matias Siqueira, professora titular da Faculdade de Psicologia e Fonoaudiologia da Universidade Metodista de São Paulo, o trabalho é uma forma de estruturar a imagem do indivíduo na sociedade.

“A inserção no mundo do trabalho ajuda o jovem a se estruturar e a se organizar internamente, elaborando o seu papel no contexto social”, afirma. Porém, ela faz a distinção entre um trabalho que oferece condições positivas para o desenvolvimento do jovem e o que apresenta condições negativas.
“Um local de trabalho onde há muita pressão, competição, onde o jovem não é reconhecido como indivíduo e onde ele é menosprezado pode desencadear sentimentos negativos – como raiva, frustração, vergonha e tristeza – e dificultar o desenvolvimento dele como adulto saudável”, diz a professora.
Por outro lado, o que se dá em um ambiente social propício, com orientação, incentivo e condições que ajudem o jovem, é muito benéfico. “A vida sem trabalho é como se fosse um barco solto, à mercê das correntes. O trabalho coloca limites, coloca metas, e o jovem se estrutura melhor”, afirma Mirlene.

Além disso, a execução de uma tarefa é uma forma de se fixar melhor o que foi aprendido nos livros ou nas salas de aula. Isso porque, explica a neurociência, mais áreas do cérebro são usadas ao se executar algo na prática do que ao se ler, por exemplo.

“É mais difícil lembrar de fatos, como a capital da Austrália, do que de nadar ou andar de bicicleta”, exemplifica o neurocientista Renato Sabbatini, professor colaborador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), citando dois tipos de memória: a relacionada aos fatos e a ligada a hábitos e movimentos. “Aquilo que você ouve, vê e faz é aprendido de forma mais duradoura do que aquilo que você apenas ouve e vê”, afirma ele.

Diferentes áreas do cérebro são requisitadas para cada tipo de ação. Ao ouvir alguma coisa, acionamos o córtex temporal. Quando se ouve e vê, entra em campo também o córtex occipital. Já a prática de uma atividade envolve o córtex frontal (motor) e a área da linguagem. Coordenando tudo isso está o chamado cérebro executivo, o córtex pré-frontal. O cérebro do jovem tem ainda a particularidade de apresentar uma maior plasticidade, facilitando a aprendizagem de coisas novas.
Construção da identidade

Um emprego na vida de um jovem pode ter repercussões tanto internas como externas, na sua aparência, por exemplo, que acabam afetando a formação de sua identidade. Cortar o cabelo, tirar o piercing e mudar o modo de se vestir são demandas frequentes aos funcionários de várias organizações. Há empresas em que o código de vestimenta (dress code) interfere até mesmo no tipo de óculos usado pelo funcionário, ou no tamanho do relógio. “Esse conjunto de exigências às vezes é muito descolado do mundo do jovem e interfere nos sinais de construção de sua identidade”, afirma a socióloga Maria Carla. “Isso é pouco problematizado.”

Para o antropólogo José Carlos Gomes da Silva, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Campus Guarulhos, os piercings, tatuagens, modos de vestir e de falar são símbolos identitários, traços muito importantes para a construção das diferentes identidades juvenis, e não são retirados sem que haja uma tensão ou certo confronto.

“Para o jovem, o ingresso no mundo do trabalho é um momento conflitivo; os elementos identitários são em geral negociados, podendo ser retirados momentaneamente e recolocados posteriormente”, afirma.

Ou seja: se o rapaz tem tatuagem, usará uma roupa que a cubra, ou a garota pode tirar o piercing do nariz, mas colocá-lo de volta no fim de semana. Por outro lado, em geral, o universo do trabalho não costuma “exportar” seus símbolos e elementos para os grupos de jovens. Poucas vezes isso aconteceu na história: “Com o movimento dos skinheads, na Inglaterra dos anos 1960 e 1970, o grupo incorporava elementos do mundo do trabalho, como macacões, coturnos, botas, cabelos cortados bem curtos”, diz o antropólogo.

Desemprego

Se por um lado o trabalho precoce, que impede a formação escolar básica do jovem, pode prejudicar a trajetória profissional dele no futuro, é a ausência de trabalho que preocupa após os 18 anos, ou mesmo durante o curso do ensino médio. “A falta de emprego gera uma superfrustração, pois o trabalho muitas vezes ajuda a bancar os estudos”, diz Carrochano.

Hoje fundamental para a constituição do ser humano, o trabalho nem sempre teve esse papel. “O trabalho não era separado do resto da vida”, explica a socióloga. Historicamente, com a constituição das sociedades capitalistas, a tendência foi o afastamento do jovem do trabalho e a sua inserção no mundo escolar. Na Europa, durante muito tempo o jovem se preparava primeiro, para depois ingressar no trabalho, e durante décadas houve uma passagem quase automática da escola para o trabalho. Com a crise dos empregos da década de 1970, o fantasma do desemprego começou a rondar mesmo os países desenvolvidos. Hoje, em meio a uma crise econômica mundial, é uma difícil realidade, em especial na Europa e nos Estados Unidos.

 

Frances Jones