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A ciência de aprender

Não há indiferença: no ensino médio, as relações com as disciplinas científicas são de amor ou receio

18/07/2011

18/07/2011

A manauara Thayná de Albuquerque, de 14 anos, discorre com facilidade sobre experimentos de química, conhece bem as vidrarias de um laboratório de ciências e relaciona sem pestanejar o que aprende em sala de aula com a realidade em que vive, na capital do Amazonas. “Eu tinha a idéia de que química fosse chato, mas é muito simples; basta ela ser explicada de forma interessante”, diz a garota, aluna do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Marcantônio Vilaça I, considerada centro de excelência, onde estuda em período integral.

Apresentação de slides, aulas em laboratórios e uma linguagem “que não é chata” ajudam a despertar o interesse dos alunos, afirma Thayná. “Não adianta nós gostarmos da matéria se o professor não tem uma boa dinâmica”, opina. “Tem que ter a união dos dois: aluno e professor.” Além de ter a grade comum a todos os alunos, ela integra um projeto especial de química, no qual assiste a palestras de professores e estudantes da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e participa de visitas a fábricas de Manaus.

Do outro lado do País, a gaúcha Bárbara Lima Rodrigues da Silva, de 16 anos, levou consigo um livro diferente nas últimas férias. Não foi o último da série do personagem Harry Potter, best-seller internacional, nem o clássico juvenil “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger. O que fez a sua cabeça foi um livro escolar de biologia, com o resumo de toda a matéria do ano. “Pela ciência, podemos conhecer a origem da vida em suas várias formas”, diz Bárbara, encantada.

Estudante do 3º ano do ensino médio no Colégio Província de São Pedro, escola particular de Porto Alegre, Bárbara também aproveitou as férias para uma atividade inusitada. Junto com uma prima de 10 anos, produziu alguns vídeos sobre a vida dos anfíbios, acompanhando o crescimento de girinos, que depois foram mostrados à professora de biologia. “Ela disse que esse é um bom caminho”, afirma.

Bárbara conta que se apaixonou pelas ciências aos 13 anos, na escola, quando a matéria ensinada passou a ser o corpo humano. “Desde a 7ª série decidi que vou fazer biomedicina ou nutrição”, diz resoluta.

Alfabetização científica

A desenvoltura com os temas científicos apresentada pelas adolescentes não é a regra entre os jovens brasileiros. Um conceito bastante usado e estudado no mundo acadêmico hoje em dia é o de “alfabetização científica”, que em linhas gerais seria o que uma população deveria saber sobre ciência para tomar decisões como cidadãos e na vida cotidiana.

Em um estudo de 2006, buscando mensurar a alfabetização científica de estudantes secundaristas catarinenses, a psicóloga social Clélia Maria Nascimento-Schulze, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), concluiu que apenas 36,5% dos pesquisados eram cientificamente alfabetizados, um número parecido ao encontrado na África do Sul. Dos alfabetizados, quase 70% eram de escolas particulares. Participaram da pesquisa 754 estudantes da 3ª série do ensino médio de escolas públicas e particulares de Florianópolis e Criciúma, que responderam a 110 questões do Teste de Alfabetização Científica Básica, desenvolvido originalmente por sul-africanos.
Além dos alunos, 63 professores de ciências se submeteram ao teste: destes, 51 foram considerados cientificamente alfabetizados. Ou seja, 12 professores não conheciam o básico da área que ensinavam.

Os resultados não destoam dos obtidos no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), onde o Brasil tem ficado junto dos piores do ranking do ensino de ciências, entre os países avaliados. Clélia afirma que, pela sua pesquisa, não é possível explicar as causas do mau desempenho. “Independentemente do interesse ou não, eles (os alunos) estão se saindo mal”, afirma.

Entre as possibilidades a serem consideradas nos estudos sobre os motivos de um desempenho tão ruim, segundo a pesquisadora, estão o “clima” escolar inadequado, verba insuficiente destinada ao ensino de ciências e, até mesmo, é preciso verificar se os alunos têm uma alimentação adequada. “Temos de ouvir os professores, ouvir os alunos e investigar mais pontualmente em algumas escolas”, diz a pesquisadora, que está participando de uma nova aplicação do teste, agora com estudantes do Amazonas e do Rio de Janeiro.

Ela também menciona a falta de bons museus de ciência fora dos grandes centros do Sudeste. “A ação de ensinar o público sobre ciência deve ser feita no ensino formal, mas também pode ocorrer nos museus e centros de ciência”, afirma Clélia, citando especificamente o exemplo da Estação Ciência, centro interativo administrado pela Universidade de São Paulo na capital paulista, e seu trabalho de inclusão social da comunidade.
Muita teoria

Em sintonia com boa parte dos alunos brasileiros, Caio José Cardoso Canerossi, de 15 anos, afirma que gosta pouco de ciências e considera matemática a matéria mais difícil da grade curricular.
Estudante da 1ª série do ensino médio na Escola Técnica (ETEC) Francisco Garcia, em Mococa, no interior de São Paulo, ele vê o envolvimento das ciências “na maioria das coisas do cotidiano”, mas acredita que as aulas ficam apenas na teoria. “Poderia se mostrar na prática como as coisas são feitas; às vezes a aula é interessante, mas fica só a mesma coisa, ficam só escrevendo”, diz Caio, que pretende ser engenheiro-agrônomo. Todas as tardes, fora do período da escola regular, Caio frequenta também o curso de aprendiz rural do Instituto Educacional Profissionalizante de Mococa (IEPROM), onde aí, diz, tem muitas aulas práticas.

Professor de geografia na Escola Estadual de Educação Profissional Professora Luíza de Teodoro Vieira, em Pacatuba, região metropolitana de Fortaleza, no Ceará, Adriano Soares Fernandes, de 29 anos, conhece bem o outro lado da questão e diz que o seu maior desafio é conseguir motivar os alunos para a educação.
“Muitas vezes temos de agir como comediantes ou palhaços para chamar atenção para a matéria”, diz o mestre.

Nada tem de palhaçada, porém, o projeto de monitoramento hidrometeorológico que Adriano orienta na escola, e que acabou por receber o apoio da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funcene). Após uma ‘aula de campo’ na Funcene, o interesse dos alunos acabou levando à instalação de um posto pluviométrico dentro do colégio. “Começamos com um pluviômetro convencional, agora temos uma estação eletrônica para comparar as medidas”, diz Adriano.

Os alunos que participam do projeto, envolvendo as áreas de geografia, química e física, colhem diariamente os dados do pluviômetro e os repassam à Funcene. As informações são importantes para o monitoramento do nível do açude do Gavião, um dos cinco que abastecem Fortaleza.

O projeto ganhou reconhecimento ao ficar entre os finalistas da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) 2010. Com isso, Adriano e dois alunos monitores viajaram até São Paulo para expor o trabalho na feira. “Foi algo totalmente diferente”, conta o estudante Magno da Silva Sousa, de 18 anos, um dos monitores. “Conheci gente nova, outros projetos, teve muita troca de experiência”, afirma o aluno do 3º ano do ensino médio, que está entre os melhores da classe. Antes não muito interessado pela área das ciências ambientais, agora (depois de três anos trabalhando no projeto) Magno vê o seu futuro ligado à meteorologia. “Quero fazer faculdade, especialização e mestrado.”
Práticas motivadoras

Outra que se apaixonou por um projeto desenvolvido na escola foi a goiana Adriana Jacinto da Silva, de 16 anos, no 2º ano do ensino médio do Colégio Estadual Hermógenes Coelho, em Araçu, a cerca de 60 quilômetros de Goiânia. Ao lado das colegas Yeda Resende Carvalho e Bárbara Yanara da Silva, Adriana ficou em primeiro lugar na feira de ciências da escola, no ano passado, depois de implantar uma horta orgânica no colégio. Para a feira de ciências regional, em Inhumas, para a qual foram selecionadas, as três estudantes avançaram com o projeto, adotando o modelo da mandala para a horta, técnica com a qual “plantas companheiras” atuam como repelentes de insetos e não concorrem pelos mesmos nutrientes. Todas as tardes, as três se revezam para cuidar da horta, mas Adriana garante que isso não prejudicou os estudos. “A partir do projeto, o nosso interesse cresceu, vamos aprendendo outras coisas e ficou mais fácil, inclusive, estudar química”, diz.

As três garotas também apresentaram o projeto na Febrace, em São Paulo, este ano e terão seu trabalho incluído num livro do Núcleo de Educação Ambiental do Estado de Goiás. A intenção agora é ampliar o projeto de horta orgânica para as comunidades mais carentes do município. “A ciência está presente em todo lugar, ela também pode ser feita para ajudar as pessoas e a natureza.”
Interesse familiar

No caso da estudante de Goiânia Débora Perillo Arruda Unes, de 14 anos, o ambiente doméstico é um incentivo a mais para o estudo de ciências. Com os avós biomédicos e o pai médico, as matérias ensinadas no Colégio Visão, escola particular onde cursa o 1º ano do ensino médio, acabam com frequência sendo debatidas em família. “O que mais gosto é de matemática: gosto de resolver contas e de tudo o que é exato”, diz a garota, que planeja prestar vestibular para engenharia de rede e comunicação, e que já participou de algumas Olimpíadas de Matemática.

Na capital paulista, Fernando Zorzi, de 16 anos, também prefere de longe a área de exatas. Estudante do 2º ano do ensino médio do Colégio Móbile, um dos campeões do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) no País, Fernando não considera puxado o ritmo dos estudos – talvez por conta da facilidade e do interesse que tem – e busca manter sua média nessas disciplinas em torno de 8 e 9.

Filho de engenheiro, Fernando percebe que a tecnologia está “em todo lugar”. E elogia como as ciências são ensinadas na sua escola, com bastante conteúdo em sala de aula, mas com experimentos em laboratório para introduzir ou exemplificar um tema. “Eles fazem muito a relação das matérias com o cotidiano e dizem sempre que estamos aprendendo não para a aprovação no vestibular, mas para usar na vida”, afirma.

Outro bom aluno da área de ciências, o mineiro Guilherme Pereira da Fonseca, de 17 anos, acha fácil estudar física, química e matemática porque são matérias interessantes. “A matéria é atual e se aplica no dia a dia”, diz o estudante do 3º ano do Colégio São Miguel Arcanjo, de Belo Horizonte, Minas Gerais, citando entre outros pontos os fenômenos de óptica e os problemas de visão. “Com a ciência, o homem evoluiu muito, ela é muito importante para a evolução da sociedade e o avanço tecnológico.”

Guilherme conta que muitos de seus colegas ainda consideram essas áreas o “bicho-papão” da escola, em especial a matemática. Para que os alunos prestem atenção, sugere, é preciso encontrar formas de se diversificar a aula. Estudos do meio, com visitas a museus, universidades e locais de interesse, ajudam. Outra forma pode ser usar o computador, um dos símbolos do avanço científico de nossa época, para o próprio ensino de ciências. É assim com Guilherme: além de fazer pesquisas para os trabalhos escolares, ele faz exercícios, vê as imagens dos conteúdos estudados e até tira dúvidas pela Internet.

Frances Jones