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A busca do conhecimento

O conceito de ciência muda ao longo da história, mas conserva o compromisso com a prática do saber

18/07/2011

18/07/2011

Afinal, o que é “ciência”? Para Dennis Flanagan, um sujeito que trabalhou com ela e seus praticantes por mais de trinta anos, “é um fato notável que quase todo mundo tem um retrato claro do que ela seja, mas raramente dois dos retratos são parecidos. É a fábula dos homens cegos e do elefante elevada à enésima potência”.

Na fábula, cegos que apalpam diferentes partes de um elefante concluem que ele é como a parte apalpada.

Flanagan foi editor da revista “Scientific American” nos Estados Unidos. Uma maneira que encontrou para escapar de uma definição foi afirmar, quando foi entrevistado por um jornalista holandês, que “ciência é o que fazem os cientistas”. O editor particularmente gostou de ver a frase traduzida para o holandês: “Wetenschap is Wat Wetenschappers Doen”, tanto que até a imprimiu em letras grandes e a colocou no quadro de avisos da redação da centenária revista.

O curioso da definição é que a palavra “ciência” é usada há bem mais tempo que “cientista”. Ciência vem do latim scientia, e já tinha o sentido de “saber”, de “conhecimento”, para os antigos romanos. Já a palavra “cientista” surgiu, em inglês, apenas em 1833, cunhada pelo filósofo e historiador da ciência britânico William Whewell (1794-1866).

Antes de Whewell, os praticantes deste “saber” eram mais conhecidos como “filósofos naturais” ou “naturalistas”. Fazia sentido, pois esses “homens de ciência” – ainda havia pouquíssimas mulheres interessadas no tema – procuravam obter conhecimento novo sobre o mundo natural.

“É bom distinguir entre ‘ciência em sentido restrito’ e em ‘sentido amplo’. Em sentido estrito, temos as ciências naturais, ao passo que o sentido amplo inclui também as ciências humanas. As fronteiras não são claras”, afirma um conhecedor das duas áreas, o físico e especialista em história e filosofia da ciência Osvaldo Frota Pessoa Junior, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo).

Hoje a ciência pode ser descrita como a busca de conhecimento sobre a natureza, lastreada pelo chamado método científico – um processo de investigação racional, metódica, que acumula evidências observáveis e realiza experimentos mensuráveis e capazes de serem reproduzidos por outros pesquisadores. Como lembra Flanagan, uma definição como esta está aberta a revisões, ao gosto do freguês. A palavra “ciência” também pode ser usada para se referir à soma organizada dos conhecimentos obtidos por cientistas em todo o mundo, a “comunidade científica”.

“Pessoalmente, não acho que a ciência se defina por um método específico, pois o método pode depender do objeto. Dizer que a ciência é o que os cientistas fazem é um bom critério para caracterizar a ciência em uma época ou área: por exemplo, ela pode ser mais especulativa em um contexto (como na cosmologia) do que noutro. Mas eu não ‘definiria’ a ciência desta maneira”, continua Osvaldo.

Um autor influente foi o filósofo da ciência austríaco, naturalizado britânico, Karl Popper (1902-1994) e sua noção de “falseabilidade” para definir o que é científico. Popper afirmava que uma teoria científica é sempre algo provisório, até ser substituída por outra que descreva melhor a realidade. Mais experiências e mais observações podem encontrar provas da falsidade da teoria original. Uma teoria é científica porque pode ser falsificada por uma observação negativa, e eventualmente trocada por outra que se ajuste melhor aos fatos.

Apesar de gregos e romanos já terem uma tradição de busca de conhecimento sobre a natureza, assim como chineses e outros povos, a ciência dita moderna costuma ser descrita como a que foi criada durante a Revolução Científica dos séculos 16 e 17, na Europa, obra de homens como Galileu Galilei, Isaac Newton e René Descartes, por exemplo.

“Na verdade, o marco fundamental é Nicolau Copérnico, que nasceu em 1473 e fez uma contribuição pouquíssimo conhecida em sua época. O que ele fez, na verdade, foi se livrar de certas amarras que vinham desde o Egito e a Grécia e se dispor a explicar o mundo sem compromissos com a religião”, afirma o biólogo Nelio Marco Vincenzo Bizzo, especialista em ensino de ciência da Faculdade de Educação da USP.

“Os astros deixaram de ser vistos como divindades caprichosas, a Bíblia deixou de ser vista como o guia único do pensamento, enfim, ele ousou afirmar que a Terra se move em torno do Sol, mesmo se isso contrariava as escrituras, que afirmam que o profeta Josué mandou parar o Sol, e não a Terra. Galileu, quase cem anos depois, conheceu e compreendeu a obra de Copérnico e passou a produzir novos conhecimentos com os mesmos princípios, e o resultado foi uma verdadeira explosão de conhecimento”, continua Bizzo.

“Científico” é um adjetivo em geral ainda com conotação positiva na linguagem popular – embora, curiosamente, algumas disciplinas científicas tenham uma imagem ruim. Por exemplo, é comum que muitas pessoas contraponham “química” a “natural”: “essa comida tem muita química, prefiro levar esse que é natural”, na típica visão romântica da natureza.

A explosão ainda maior do conhecimento científico no século 20 e suas imensas aplicações práticas – “ciência aplicada”, “tecnologia” – contribuíram para criar uma mística própria deste conhecimento, ao mesmo tempo gerando medo e polêmica em áreas mais controversas – como a energia nuclear, ou as culturas transgênicas.

“A ciência é apenas uma maneira de produzir conhecimento sobre o mundo natural. E essa maneira, surgida durante o período da Revolução Científica, num longo período que se estende por quase dois séculos, tem características sociais específicas, tais como: organização das sociedades científicas e do reconhecimento dos pares por meio da demonstração, a queda da barreira entre os artesãos e os escolásticos, a valorização da experimentação, da prova matemática, atitudes práticas e racionais que eram valorizadas socialmente”, diz Lea Maria Leme Strini Velho, especialista em Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Chamar uma determinada forma de produzir conhecimento de ciência não é uma questão de mérito”, segundo Lea Velho. A ciência moderna tornou-se ao longo desse período uma nova forma de produção do saber, “nem melhor e nem pior, na minha opinião”, afirma a pesquisadora da Unicamp.

Uma atividade específica

Não há dúvida de que a ciência seja uma atividade humana, feita por seres humanos e, portanto, sujeita aos seus erros, temperamentos e mesmo modismos. Mas isso não significa que seja uma atividade como outra qualquer.

“Galileu não conheceu Copérnico nem Newton – viveram em épocas diferentes –, mas os três trabalharam juntos, ao compartilharem princípios e métodos.

Quando Newton dizia ter enxergado longe por ter subido no ombro de gigantes, ele não estava apenas espicaçando Leibniz, que tinha baixa estatura [Gottfried Wilhelm von Leibniz, filósofo alemão, 1646-1716], mas havia alguma sinceridade ali. Ele ajudou a aperfeiçoar uma forma de criar conhecimento que tinha sido inventada antes dele”, declara Nelio Bizzo.

“Essa é a ciência moderna, uma atividade humana, sem dúvida, no que há de bom e mau nisso, mas que está longe de ser como outra qualquer. Observe qualquer religião e compare o quanto ela mudou nos últimos dez anos com as mudanças de qualquer área da ciência. A diferença mostra que ela está longe de ser uma atividade como outra qualquer”, complementa o biólogo e educador.

“Não parece inapropriado afirmar que a ciência é aquilo que os cientistas fazem. Eles efetivamente juntam evidências, realizam experimentos e formulam teorias explicativas. Porém todo este trabalho está localizado num contexto de investigação da natureza. Este contexto, muitas vezes, acaba tomando a forma daquilo que os filósofos da ciência chamam de ‘tradições de investigação’ [como prefere Larry Laudan], ou de ‘paradigmas’ [caso de Thomas Kuhn], que são amplas estruturas conceituais que fornecem suporte geral para as pesquisas específicas que os cientistas produzem”, segundo outro especialista em filosofia da ciência, Marcos Rodrigues da Silva, do Centro de Letras e Ciências Humanas da UEL (Universidade Estadual de Londrina).

É claro que cientistas também se preocupam em pagar contas, levar o filho ao supermercado – e conseguir apoio financeiro para suas pesquisas, concorrendo com outros colegas.
“Estas tradições de investigação, por sua vez, não estão isoladas dos contextos sociais e humanos mais amplos – elas precisam ser financiadas, por exemplo –, e é neste sentido que a produção científica começa a ser compreendida também como uma atividade humana”, diz o pesquisador do Paraná.

Isso significa que a prática da ciência está intimamente ligada à sociedade da qual faz parte. Por exemplo, cientistas e engenheiros contribuem para criar e aperfeiçoar armamentos.
“Arquimedes usou a matemática para matar romanos, Galileu para melhorar a artilharia do grão-duque da Toscana, físicos modernos, mais ambiciosos, para exterminar a raça humana”, ironizou o matemático e filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970). “É geralmente nesse sentido que o estudo de matemática é louvado ao público em geral como digno de apoio do Estado”, complementou Russell, conhecido por sua militância contra as armas nucleares.

“A crítica é válida, mas, para ser justa, não pode se restringir aos cientistas”, diz Nelio Bizzo. “A dialética da ciência a leva a produzir ao mesmo tempo venenos e antídotos, mas a sociedade é que decide o quanto de cada um deles deve ser usado. O uso da bomba atômica, malgrado a tragédia que o envolveu, contou com a aprovação popular, não nos esqueçamos disso. O mesmo pode ser dito das fogueiras da Inquisição e de tantos outros momentos da história dos quais não nos orgulhamos e que não queremos ver repetidos – muitos dos quais nada tiveram a ver com a ciência ou com os cientistas”, continua o professor da USP.

“Parece que toda intervenção humana social destinada a procurar uma solução para certo problema traz, na proposição desta solução, os germes de novos problemas. Isto não é diferente na ciência. Aliás, seria incrível se a ciência fosse diferente”, diz Marcos Rodrigues.

Aprender a duvidar

É impossível pensar a vida hoje sem a presença da ciência e da tecnologia – de vacinas a computadores, de curas de doenças a aviões a jato. Só isso já justificaria sua importância no ensino fundamental; mas aprender ciência na escola é, sobretudo, um modo de aprender a pensar criticamente e escapar de preconceitos e superstições. O método científico envolve um ceticismo sadio: o estudante aprende a duvidar de respostas fáceis, a fazer perguntas, a testar afirmações com experimentos.

“Estudar ciência significa muito menos memorizar fatos e termos técnicos e muito mais entender como a humanidade se livrou das amarras da escuridão do intelecto. Parafraseando um antigo adágio latino, os cientistas do passado não nos legaram ideias hoje ultrapassadas, mas, sim, o pensar criativo de seu tempo”, diz Bizzo.

Para Marcos Rodrigues, no ensino médio um problema grave é a imagem de ciência passada aos alunos: “A ciência muitas vezes não passa de uma aplicação bem-sucedida de um método. E assim se ignora todo o contexto da produção científica. Talvez devesse ser ensinado menos conteúdo e, com isso, poderiam ser escolhidos alguns assuntos que exemplificam a prática científica”.

“Ciência pode ser fascinante e divertida, e é essa atitude que tem de ser objeto de construção. Veja a capa do livro do Nicholas Mullis, prêmio Nobel de Medicina, com a prancha de surf. Pra ele, fazer ciência é tão divertido quando surfar!”, diz a pesquisadora Lea Velho.

Ricardo Bonalume Neto