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Valor estratégico

O conhecimento científico é essencial à formação básica e profissional dos jovens, para assegurar ao Brasil plena inserção no plano internacional

05/08/2011

05/08/2011

Na ultima década, os estudantes brasileiros têm participado dos exames internacionais realizados no âmbito do PISA, Programa Internacional deAvaliação de Alunos, promovido pela OCDE, Organização para a Cooperação  e o Desenvolvimento Econômico, que é uma instituição intergovernamental dos países industrializados. Dessas avaliações educacionais, além dos países mais industrializados do planeta, também têm participado outros países não integrantes do grupo, na qualidade de países convidados. Da última, em 2006, na área do ensino

de ciências, participaram 30 países membros da OCDE e 27 países convidados, entre os quais Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai.

O exame, realizado de três em três anos, conta com uma amostragem de alunos entre 15 anos e 3 meses e 16 anos e 2 meses de idade. Os resultados são medidos em uma escala de 1 a 6, onde o nível 6 representa que os alunos avaliados conseguem demonstrar raciocínio científico avançado na procura de soluções para situações científicas novas. O nível 1 significa que os alunos avaliados evidenciam um padrão de conhecimentos científicos tão limitado que só conseguem aplicá-los a umas poucas situações familiares ou, então, apresentar explicações científicas bem óbvias, bastante similares a uma evidência apresentada.

Exatamente no nível 1 estão situados 34,1% dos alunos brasileiros avaliados. Acontece que os resultados obtidos por eles ainda são um pouco pior. Um total de 27,8% dos alunos brasileiros avaliados foi classificado num índice ainda abaixo do mínimo, não apresentando evidências de possuir as competências científicas mínimas demandadas para realizar as tarefas mais simples propostas nas provas do PISA. Esses alunos não conseguiram, inclusive, apresentar explicações científicas óbvias em situações corriqueiras e familiares.
O resultado é gravíssimo. Mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer para que o ensino de ciências no Brasil adquira a qualidade mínima exigida para que as empresas e seus trabalhadores tenham efetivas condições de competitividade internacional neste século do conhecimento.

Os resultados são reveladores. Um total de 61,9% dos alunos avaliados nas provas do PISA não demonstrou ter desenvolvido um conjunto mínimo de competências na área de ciências, que permitam lidar com as exigências e os desafios mais simples do dia a dia da vida atual em sociedade e do mundo do trabalho. Apenas 23,4% dos alunos avaliados demonstraram possuir conhecimentos científicos suficientes para fornecer explicações referentes a situações familiares e corriqueiras, tirando conclusões de investigação de menor complexidade, demonstrando capacidade de interpretar resultados de forma simples, ou realizar interpretações literais de resultados de pesquisas científicas, ou de soluções tecnológicas. Os demais 14,6% dos alunos brasileiros avaliados apresentaram resultados bem melhores, embora ninguém chegasse ao nível 6 e apenas 0,4% fosse incluído no nível 5.

Ao menos, contamos com um pequeno grupo que já demonstrou ter desenvolvido competência para identificar claramente questões científicas em uma gama de contextos diferentes, podendo selecionar fatos e conceitos científicos para explicar fenômenos e podendo, também, aplicar estratégias simples de pesquisa. Eles evidenciam o resultado positivo que ainda podemos alcançar. Será uma tarefa difícil, mas não será impossível erradicar esse analfabetismo científico dos brasileiros. Ainda resta muito esforço pela frente, em termos de valorização do ensino de ciências, objetivando a plena inserção do Brasil no plano internacional, em condições competitivas, com trabalhadores mais bem qualificados e em condições de mobilizar, articular e colocar em prática, no dia a dia do seu exercício profissional, os exigidos conhecimentos científicos e tecnológicos que farão a diferença.

Condição de cidadania

Felizmente, a sociedade brasileira já está tomando consciência de que só um ensino de qualidade para as nossas crianças e adolescentes pode assegurar a eles, e a nós todos, um futuro promissor. Não resta a menor dúvida de que o esforço do poder público e da sociedade com a finalidade de garantir a oferta de uma educação sintonizada com as exigências deste século do conhecimento seja uma pré-condição essencial para a conquista da cidadania plena. Neste contexto, a educação em ciências assume um valor estratégico relevante para o pleno desenvolvimento econômico e social da nação e dos seus cidadãos no mundo do trabalho.

Muitas pessoas são levadas a pensar que a providência a ser adotada, para resolver o grave problema do chamado “apagão” de profissionais no mercado de trabalho, seja a universalização da profissionalização obrigatória no nível do ensino médio. O Brasil já fez isso na década de 60 do século passado e não obteve os resultados almejados, em especial porque, equivocadamente, decidiu colocar a educação profissional técnica de nível médio no lugar de parte do ensino médio.

Não deu certo porque muitas das profissões existentes no mercado de trabalho não demandam supostos conteúdos profissionalizantes, mas sólidos conhecimentos de linguagens, matemática e ciências da natureza e humanas. Faltou aos gestores de políticas públicas em educação daquela época suficiente clareza quanto aos elos entre educação profissional e educação básica que permitissem ter a exata compreensão de que é impossível colocar uma no lugar da outra. É desejável e necessária a articulação entre elas, mas não a substituição de uma, no todo ou na parte, por outra. Uma sólida educação básica é fundamental, não apenas para garantir o acesso e a permanência em muitas das profissões do mundo do trabalho, mas para a própria educação profissional técnica e tecnológica, a qual se assenta sobre uma sólida educação básica, da qual depende, como um dos prerrequisitos absolutamente obrigatórios.

A educação básica, cuja etapa final e de consolidação é o ensino médio, deve garantir a preparação mínima do cidadão para o trabalho, para o exercício da cidadania e para a aprendizagem permanente, prosseguindo estudos e adaptando-se com flexibilidade às novas condições ocupacionais e às exigências posteriores de especialização, aperfeiçoamento e atualização. Ela deve garantir as precondições para um contínuo aprimoramento como pessoa, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico, para ver o mundo com perspicácia, julgar orientado pelos valores da cidadania, da verdade e da justiça, orientando assim o seu agir, como cidadão trabalhador, pelos princípios éticos da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do respeito ao bem comum; pelos princípios políticos dos direitos e deveres de cidadania, do exercício da criticidade e do respeito à ordem democrática; pelos princípios estéticos da sensibilidade, da criatividade, da qualidade, do belo e da diversidade de manifestações artísticas e culturais.

Para garantir às crianças e aos adolescentes, bem como aos jovens e adultos que demandam seus serviços educacionais, essa formação básica do cidadão para a vida em sociedade e para o mundo do trabalho, a educação básica deve orientar a sua ação pelos princípios educativos da ciência, da tecnologia, da cultura e do trabalho, assegurando aos seus alunos, pelo contínuo relacionamento entre teoria e prática no ensino de cada componente curricular, a compreensão dos fundamentos científicos e tecnológicos dos processos produtivos e da vida moderna.

Para tanto, o currículo escolar deverá ser tratado de forma interdisciplinar e ser contextualizado, a fim de que faça sentido para os alunos, desde que não seja apresentado como algo descolado da vida do cidadão e se adotem metodologias de ensino e de avaliação que estimulem a iniciativa dos alunos e o gosto pela aprendizagem permanente.
Competência profissional

Esta é uma exigência da sociedade atual e, de modo especial, do mundo do trabalho, o qual vem passando por profundas mudanças nas últimas duas ou três décadas, decorrentes do avanço científico e tecnológico, bem como da adoção de novas formas de organização e de gestão das relações de trabalho.

Um novo cenário econômico e produtivo se estabeleceu, com o desenvolvimento e o emprego de tecnologias complexas agregadas à produção e à prestação de serviços e com a crescente internacionalização das relações econômicas. Em consequência, passou-se a requerer sólida base de educação geral para todos os trabalhadores; educação profissional básica aos não qualificados; qualificação profissional dos técnicos; e educação continuada, com permanente atualização, aperfeiçoamento, especialização e requalificação de trabalhadores. Como impacto direto da implantação de novas tecnologias no mundo do trabalho, tem-se observado o aumento da exigência de profissionais mais polivalentes, capazes de interagir em situações novas e em constante mutação.

Em resposta a este desafio, escolas e instituições de educação básica e profissional vêm buscando diversificar programas e cursos, elevando os níveis de qualidade de suas ofertas. As empresas passaram a exigir trabalhadores cada vez mais qualificados, não apenas com o conhecimento técnico específico, mas especialmente com conhecimentos gerais, considerados básicos e essenciais para o sucesso no trabalho. À costumeira destreza manual se agregam novas competências relacionadas com a inovação, a criatividade, o trabalho em equipe e a capacidade de monitorar desempenhos, bem como o preparo para adquirir, avaliar e utilizar informações, além da autonomia na tomada de decisões. Isto exige não apenas a tradicional formação profissional, mas em especial uma sólida educação básica, de boa qualidade.

A estrutura rígida de ocupações está se alterando. Equipamentos e instalações complexas requerem trabalhadores qualificados com níveis de educação cada vez mais elevados. As novas condições do mundo do trabalho, para superar o temido “apagão” de profissionais qualificados, exigem a oferta de uma educação profissional que se assente sobre uma sólida educação básica, complementando-a, de sorte a concorrer para a efetiva profissionalização dos cidadãos trabalhadores, garantindo-lhes dois direitos fundamentais para o exercício da cidadania: o direito à educação e o direito ao trabalho.

Por isso, a valorização da educação profissional não pode representar a negação da importância da educação básica, pois a melhoria da qualidade da educação profissional pressupõe uma educação básica da melhor qualidade, a qual é condição indispensável para o êxito do trabalhador num universo pautado pela competição, pela inovação tecnológica e pelas crescentes exigências, definidas em termos de maiores níveis de qualidade, produtividade e competência profissional.

Neste contexto, tanto a educação profissional quanto a educação básica, e sobretudo esta, devem ser encaradas como fatores estratégicos para o desenvolvimento humano e social. Para tanto, é fundamental a oferta de uma ação educacional comprometida com o desenvolvimento de competências para a laborabilidade, em relação ao preparo do cidadão trabalhador para manter-se em atividade produtiva e geradora de renda em contextos socioeconômicos cambiantes e instáveis, numa sociedade cada vez mais complexa e dinâmica, em suas descobertas e transformações, e cada vez mais exigente quanto à qualidade dos produtos e serviços oferecidos.

A perspectiva da laborabilidade como possibilidade e intencionalidade de transformar competência em trabalho produtivo é uma referência fundamental para se entender um conceito que vem sendo cada vez mais utilizado, no mundo do trabalho, com o sentido de desenvolvimento de competência profissional, caracterizada pelo Conselho Nacional de Educação como sendo a capacidade pessoal e social de mobilizar, articular e colocar em ação os diversos saberes do cidadão trabalhador, os quais foram identificados pela Unesco como saber conhecer, saber fazer, saber ser e saber conviver.

A chave para entender esse saber operativo, dinâmico e flexível, capaz de guiar desempenhos num mundo do trabalho em constante mutação e permanente desenvolvimento, é identificada como capacidade de mobilizar, articular e colocar em prática Conhecimentos, Habilidades, Atitudes, Valores e Emoções, exigências necessárias tanto para o desempenho eficiente e eficaz de atividades requeridas pela natureza do trabalho e pelo desenvolvimento tecnológico, quanto para o exercício da vida cidadã em sociedade.
Sobre o autor

Francisco Aparecido Cordão é consultor educacional, especialista em Educação Profissional e conselheiro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.
Foto: Arquivo Pessoal

O estímulo necessário

“Desde cedo as pessoas me estimularam a conhecer as coisas. Começou com minha mãe, que me ensinou o gosto pela leitura. Primeiro gibis, depois revistas, livros, programas na TV. Aí continuou na escola. Lá eles divulgam bastante eventos como olimpíadas de matemática, conhecimentos e outras. A gente se prepara para participar e também vai aprendendo cada vez mais. Com mais informação, você fica mais interessado em saber o porquê dos problemas, fica mais atuante e presente, percebe melhor as questões da sociedade e participa mais. Eu gosto das ciências humanas, da história e geografia. Meu professor de geografia sabe dar aulas que chamam a atenção da gente. Ele estimulou a turma a participar do Desafio National Geografic – Viagem do Conhecimento, e eu venci a competição de 2009. Agora estou me preparando para a disputa mundial, em 2011. Serão seis concorrentes para essa final. Não sei que carreira seguirei no futuro, mas tudo isso já está fazendo diferença. Estou acumulando experiência, conhecimento e reconhecimento da minha capacidade.”

Lucas Silva Souza, 16 anos, cursa o 2º ano do ensino médio no Colégio Termomecânica, mantido pela Fundação Salvador Arena, em São Bernardo do Campo (SP)


Francisco Aparecido Cordão