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Pontos de atração

Projetos aproximam a escola básica dos centros científicos para melhorar o ensino das ciências

05/08/2011

05/08/2011

Manter o relacionamento contínuo entre a sociedade e os centros de produção da ciência é uma das missões das universidades e instituições públicas da área. Na tarefa, elas incluem ações educacionais voltadas a estudantes e professores da escola básica. O objetivo, a exemplo de quatro projetos desenvolvidos nessa linha, em São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal, é motivar o interesse dos jovens pela ciência e também envolver seus professores em práticas educativas mais atraentes, que beneficiem o aprendizado na sala de aula.

Em São Paulo, o “Adote um Cientista” integra o programa educacional Casa da Ciência, iniciado em 2001 no campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), que já atendeu mais de 1.200 alunos de ensino básico, de 30 municípios da região. Os jovens investigam diferentes temas, acompanhados por pesquisadores. “Do complexo voltamos ao básico. Das descobertas com células-tronco à célula”, exemplifica a coordenadora da Casa da Ciência, Marisa Barbieri.

Na Universidade Federal de Minas Gerais, o programa UFMG&Escolas provoca o pensamento crítico e criativo dos estudantes e professores, procurando mostrar que a graça da ciência está em duvidar. “Aqui tem de ter pergunta, experimentação para desenvolver hipóteses e construir conhecimentos”, diz a professora Leda Quercia Vieira, do Instituto de Ciências Biológicas.

Na Universidade de Brasília, o projeto Experimentoteca aborda os fenômenos da física inseridos na história. Alunos e professores, em visitas agendadas, têm contato com grandes descobertas da humanidade, apreciando os fenômenos e inventos relacionados. “A experiência revela a eles a imensa capacidade humana na arte de resolver problemas”, diz o professor José Eduardo Martins, do Instituto de Física.

Por fim, o programa AEB Escola desperta nos jovens o interesse pelas ciências do espaço. A iniciativa é da Agência Espacial Brasileira e desde 2003 já atingiu mais de 1,5 milhão de alunos do ensino médio e fundamental e capacitou cerca de 5 mil professores no Brasil. “Os 850 mil inscritos na última Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica é um grande indício do que temos conquistado”, diz o coordenador Carlos Eduardo Quintanilha. A seguir, confira mais detalhes sobre as iniciativas.



Projeto Adote um Cientista, do Hemocentro-Casa da Ciência da FMUSP - Ribeirão Preto, São Paulo

Foto: Divulgação

A Casa da Ciência começou suas atividades em 2001 com o curso “As células, o genoma e você, professor” e o projeto “Caça-Talentos”, dirigido a estudantes. Foram experiências que apontaram para um maior investimento na aprendizagem escolar, surgindo daí, em 2005, o “Adote um Cientista”, projeto que aproxima os alunos dos pesquisadores por meio de palestras e trabalhos em grupos temáticos. Os conteúdos estão relacionados ao campo de estudo ao qual o orientador se dedica. Os interesses e necessidades dos alunos são identificados pela equipe da Casa da Ciência e acabam incorporados ao programa, como estratégia para estimular a aprendizagem. A programação é semestral, com atividades semanais. Nos grupos, aprofunda-se a teoria e a prática é desvendada no laboratório. Ao final, há um “minicongresso”, o Mural. Os alunos apresentam os resultados de suas pesquisas dando aula, encenando uma peça teatral ou produzindo folhetos, entre outros. Neste ano, pelo menos 60 estudantes estão participando assiduamente. Mas a falta de transporte e lanche dificultam a freqüência para muitos inscritos. Para professores, desde 2009, há também o curso “Parceiros na divulgação científica”, outra forma de aproximação com os centros de pesquisa. Os resultados são sempre positivos. “Os alunos se mostram mais interessados em aprender. Em algumas escolas, surgem até propostas de criar monitorias para eles”, conta a coordenadora da Casa da Ciência, a bióloga e ex-docente da USP Marisa Ramos Barbieri.




Programa AEB Escolas - Nacional

Foto: Divulgação

Astronáutica, astronomia e fenômenos ambientais são os grandes temas das oficinas promovidas pelo projeto da Agência Espacial Brasileira que, desde 2003, se empenha em atrair o interesse dos estudantes de ensino fundamental e médio de todo o Brasil para os assuntos espaciais e, ao mesmo tempo, mostrar a seus professores práticas criativas de aprendizagem. “Há uma atração natural pelos assuntos do espaço e o programa alia essa premissa à outra, de que a temática espacial permeia todas as áreas do conhecimento. Mostramos aos estudantes e professores que suas aplicações estão presentes no cotidiano e isso facilita o ensino das ciências na escola”, explica o coordenador Carlos Eduardo Quintanilha, lembrando que o projeto também tem o propósito de contribuir para o empreendedorismo e a formação profissional na área. As atividades costumam ser inseridas na agenda de eventos científicos nacionais, como congressos e jornadas, na forma de workshops ou cursos, ou atender a demandas específicas de escolas e professores. O produto dessas ações está também em livretos como o “Mão na Massa”, com cerca de 15 sugestões de oficinas para aplicação em sala de aula. São experimentos com materiais de baixo custo para explicar o funcionamento, por exemplo, dos foguetes e satélites, da microgravidade no espaço, ou as diferenças entre os planetas e o Sol, as cores do arco-íris, a construção de uma luneta, ou ainda o derretimento do gelo dos polos e das geleiras e o desmatamento da Amazônia.




Projeto UFMG&Escolas – Educando para a Ciência - Belo Horizonte, Minas Gerais

Foto: Divulgação

As atividades acontecem nas férias de janeiro e julho, com cerca de 50 estudantes selecionados para uma semana de curso. Para professores, são duas semanas. Os programas são gratuitos. Os melhores cientistas doam seu tempo ao projeto em palestras. Pós-graduandos recebem bolsa para orientar os jovens – alguns fazem estágios mais longos nos laboratórios. A dinâmica da aprendizagem é lançar perguntas. “O que é a ciência na cozinha?”, por exemplo. E surgem mais questões: por que o leite ferve, o pão cresce, a pipoca estoura? O monitor dá retorno com mais interrogações. Os grupos vão para o laboratório encontrar as respostas por meio de experimentos. Um deles criou uma enorme pipoca artificial, um bolo de amido envolvido em capa, para investigar todas as hipóteses para o estouro do grão de milho. “As experiências mudam o conceito de ciência, que não é conhecimento estático, mas sempre produto de dúvidas. O aprendizado torna-se assim mais interessante ”, diz a coordenadora Leda Quercia Vieira, professora do Departamento de Biomedicina e Imunologia da UFMG. Ela explica que o programa faz parte da Rede Nacional de Educação em Ciência: Novos Talentos da Rede Pública, idealizado pelo cientista Leopoldo de Meis, da UFRJ, em 1985, a partir de um lamento dirigido às favelas cariocas: “Quantos cérebros desperdiçados...”. A observação virou projeto e agora envolve 23 universidades públicas na tarefa de melhorar o ensino de ciências nos ciclos fundamental e médio da escola pública.




Projeto Experimentoteca - Brasília, Distrito Federal

Foto: Divulgação


Dos pêndulos a luz até os pêndulos a laser, do âmbar (experiência dos gregos) até o elétron, o Gerador de Graaf, a Bobina Tesla. Todos fenômenos que fizeram a diferença na história do conhecimento humano. Eles fazem parte da Experimentoteca, um laboratório de demonstrações criado em 1998 pelo Instituto de Física da Universidade de Brasília, para despertar o interesse dos alunos de ensino médio pelas ciências. Na exposição, eles conhecem conceitos de mecânica ondulatória, óptica, eletromagnetismo, acústica, que são conteúdos que estão aprendendo na escola. Mas a eletricidade e suas faíscas são a grande atração do espaço, com capacidade para receber até 45 estudantes por vez. Eles exploram o local com monitores -- alunos da Física ou Engenharia da UnB. “Antes de compreenderem o formalismo matemático, os estudantes precisam ver o comportamento espontâneo da natureza”, explica o coordenador José Eduardo Martins. O espaço já recebeu mais de 40 mil visitantes. Muitos grupos de escola, incluindo os pré-vestibulares, já têm a visita em sua agenda anual. “Não é raro encontrar estudantes do curso de Física da Unb que declaram ter sido sua escolha influenciada por essa experiência no ensino médio”, conta o professor. “As áreas da física são vistas aqui de um jeito que não costuma ser encontrado na sala de aula. Os professores se apegam a fórmulas e esquecem de passar ao aluno o seu significado físico e implicações no cotidiano”, diz Gabriela Antunes, ex-monitora do programa.


Lélia Chacon