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Novos cientistas

Estudantes vencedores de competições científicas debatem o ensino de ciências

21/07/2011

21/07/2011

O ensino das ciências prioriza hoje a formação de “pesquisadores”. Enfatiza a observação e a investigação para o aluno mobilizar e criar conhecimentos num contexto social. Pretende-se que ele perceba sua condição de cidadão capaz de influenciar a comunidade, dando assim sentido ao aprender. É por esse motivo, entre outros, que essa pedagogia científica, ainda carente de maior aplicação na escola pública, tem conseguido conquistar, a cada ano, mais estudantes para as várias olimpíadas das ciências. Quatro campeões dessas iniciativas trocam idéias, aqui, sobre sua experiência com o ensino e o significado de suas premiações. São eles:
Foto: Bruno Tadeu

Alissa Taschen

Paulista, 16 anos, estudante do 3º ano do ensino médio e vencedora, na categoria Ciências Humanas, da última edição do Programa de Pré-iniciação Científica da pró-reitoria de pesquisa da Universidade de São Paulo;


Júlia Soares Parreiras

Estudante de psicologia, mineira de 20 anos, premiada desde 2007 em eventos científicos e vencedora, em 2009, do Prêmio Jovem Cientista, na categoria ensino médio;


Daniel Patrocínio Zen

Capixaba, 19 anos, que faz medicina na Universidade Federal do Espírito Santo e foi medalha de ouro nas olimpíadas brasileiras de biologia de 2008 e 2009 e trouxe de competição internacional no Japão uma medalha de bronze;

Foto: Arquivo Pessoal

Pedro Pinheiro de Negreiros Bessa

Cearense, 18 anos, também estudante de medicina na Universidade Federal do Ceará e medalhista de ouro, prata e bronze de vários concursos nas áreas de matemática, informática, química e biologia.

ONDA JOVEM: Como foi seu primeiro contato com as ciências? Seu interesse foi despertado em casa ou na escola?

Pedro: Quando eu fazia a antiga sétima série no colégio, fui apresentado a um “Clubinho de Ciências” onde eu e outros colegas tivemos noções sobre as ciências da natureza. Mas antes, em casa, meus pais estimulavam minhas curiosidades sobre a natureza, eu via documentários na televisão e folheava livros de ciências.

Julia: Desde pequena me interessava pelas atividades práticas oferecidas pela escola, como, por exemplo, a clássica experiência do feijãozinho plantado em algodões úmidos pra gente observar a plantinha crescer em busca de luz. Experiências como essa me permitiam perceber o que aprendia em aula e marcaram meu envolvimento com a área das ciências. No ensino médio no CEFET-MG, os professores me marcaram também pela alta qualidade de suas aulas.

Daniel: Meu primeiro contato foi no ensino fundamental, como um passatempo. Em casa, eu lia os livros da escola e assistia a programas educativos na TV.

Alissa: Eu sempre queria saber como as coisas aconteciam à minha volta. Na escola, queria saber como eram feitas as bolhas de sabão e o que era o raio. Em casa, a televisão teve um grande papel, pois eu assistia aos programas que explicavam como as coisas eram feitas e perguntava para as pessoas se era mesmo daquele jeito. Meus pais e professores sempre me ajudaram com a minha curiosidade, não só pela ciência.
Que atividades escolares foram marcantes para inspirar a dedicação às ciências?

Daniel: A discussão e a proposição de questões de raciocínio envolvendo a biologia.
Pedro: As olimpíadas de ciências foram determinantes para que eu desenvolvesse ainda mais o meu gosto pela área. Comecei a participar delas na 5ª série, na modalidade de matemática.

Alissa: Acho que foi a minha primeira prova, sobre fotossíntese. Tornou-se meu assunto favorito em biologia.
Julia: O que mais inspirou foram as atividades práticas e as experiências de laboratório. Via as teorias serem aplicadas e isso era um estímulo para saber o porquê das coisas acontecerem do jeito que acontecem.
O laboratório é fundamental para aprender?

Daniel: Sim, é fundamental para o aluno perceber que a ciência está em constante evolução e que ele pode contribuir para essa evolução.

Alissa: Sim, você pode estudar aquela matéria a vida toda, mas não é a mesma coisa que ver aquilo acontecendo. Certas coisas não podem ser apenas explicadas.
Pedro: Quando o mundo da ciência se torna mais palpável para os estudantes, o aprendizado é facilitado. As atividades laboratoriais, desde que contextualizadas, são fundamentais para o ensino, aumentam o interesse pela matéria, facilitam a adesão dos estudantes e o seu aprendizado.

Julia: A prática é intrínseca à ciência. O aprendizado das disciplinas da área só é completo se se compreender a teoria, em aulas regulares, e a prática, em experiências de laboratório, com o objetivo também de atender alunos que tenham mais facilidade de aprender em um dos dois diferentes ambientes.
Que diferença fez ganhar um prêmio de iniciação científica?

Alissa: O mais importante foi perceber o quanto aprendi em um ano para conquistar o prêmio. Ele também me motivou a participar de mais projetos.

Daniel: Tive mais esperança em relação a uma possível carreira como pesquisador e ao desenvolvimento da ciência no Brasil. Hoje faço medicina e procuro dar continuidade à pesquisa na universidade.

Julia: Além da satisfação pelo reconhecimento, o prêmio trouxe a possibilidade de divulgação dos resultados e do produto do projeto para as populações envolvidas. Reforçou também a minha vontade de continuar no meio científico e envolvida em projetos. Logo após ser premiada, ganhei uma bolsa de iniciação científica e iniciei meu contato com a pesquisa em psicologia na UFMG. Minha bolsa foi renovada e já estou em meu segundo ano de pesquisa. Também participo de um estudo sobre metacognição, que diz respeito basicamente à capacidade do ser humano de ter consciência do próprio conhecimento e controlá-lo.

Pedro: Os prêmios que recebi possibilitaram que eu assumisse o cargo de professor em instituições de ensino, podendo, assim, ajudar a formar novos campeões olímpicos. Hoje curso medicina e integro a equipe do Laboratório de Genética Molecular da UFC na condição de estudante de iniciação científica.
Como a escola pode atrair os alunos para as áreas científicas?

Julia: Reforçando a relação do conhecimento acadêmico com o cotidiano, por meio das atividades práticas.

Daniel: Oferecendo livros, sites, tecnologias multimídias e também debates e discussões. E é preciso desburocratizar o ensino, reduzir a carga horária, tornar as aulas menos passivas. E o governo também deveria valorizar o estudante empenhado em competições, durante os vestibulares e outros processos seletivos.
Pedro: Principalmente, tornando o ensino mais próximo do cotidiano dos alunos, para que eles se sintam estimulados a buscar explicações para os fenômenos naturais que veem todos os dias.

Alissa: Dar mais recursos para o professor faz diferença. Foi o que percebi ao me envolver com a pesquisa de iniciação científica no programa da USP: nós tínhamos muito material para ser usado, como filmes, livros, revistas em quadrinhos e fizemos muitos trabalhos de campo, não ficando sempre no mesmo lugar.
Você concorda com a maneira como os conteúdos da ciência são encadeados e trabalhados na escola? Que alterações proporia?

Daniel: Não, há excesso de conteúdos de ciências, e muitos não são fundamentais para o entendimento da matéria. A carga horária obrigatória também atrapalha, visto que a maior parte do aprendizado ocorre no contato do aluno com atividades práticas e com os livros. Matar aula foi essencial para o meu bom desempenho na olimpíada e no vestibular.

Julia: Parece até contraditório afirmar que o sistema de ensino atrapalha o desenvolvimento do aluno, mas vejo acontecer na universidade. A grade curricular de alguns cursos é menos flexível do que deveria para o estudante aproveitar as várias oportunidades que a própria universidade oferece. Quanto ao ensino médio, a maneira como os conteúdos foram trabalhados poderia ter sido melhor, com mais aulas práticas de laboratório e aulas mais dinâmicas e interativas, nas quais houvesse debates, que instigam mais a participação do aluno.

Pedro: Muitas vezes os conteúdos das diferentes disciplinas da ciência não são inter-relacionados, o que dificulta o ensino e o aprendizado. A bioquímica, por exemplo, é um dos primeiros temas da biologia, mas para o aluno compreender com exatidão seus conceitos precisa ter fundamentos da química orgânica, que só é abordada muito depois, no curso de química. Quanto ao encadeamento das matérias, a abordagem da biologia, por exemplo, tende a partir do campo molecular/celular até a biologia dos ecossistemas e comunidades, o que considero artificial e ineficiente. Atualmente o ensino da biologia recebe forte enfoque evolutivo, portanto o conteúdo de evolução, tão fundamental, deveria ser tratado como os de introdução à biologia, pois forma a base da ciência biológica.
Qual é a participação ideal do orientador/professor nos projetos de pesquisa?

Daniel: É dar o respaldo inicial à pesquisa, indicando boas obras, ajudando o aluno a organizar as ideias, corrigindo seus erros finais.

Pedro: Acho que é guiar o aluno, mostrando a ele os pontos mais relevantes dos diferentes temas abordados e auxiliando na solução de problemas mais complexos. Esse papel do professor orientador pode ser decisivo para o resultado final de uma pesquisa ou de uma olimpíada.
Qual é a melhor memória que você guarda das competições das quais participou?

Julia: Primeiro a surpresa de ser premiada, depois o significado disso: a percepção da relevância do trabalho que realizei.

Pedro: Em uma competição internacional em Mumbai, na Índia, quanto entrei no hotel, todas as delegações estavam reunidas no saguão. Naquele momento me dei conta da importância daquele evento, de como era único e especial.

Daniel: O que mais me marcou foi a oportunidade de conhecer grandes cientistas. Na última olimpíada, em particular, um importantíssimo cientista japonês (Hideo Mori, descobridor da tubulina, uma proteína), já bem idoso, se levantou para me cumprimentar por ter ganhado a medalha. Foi emocionante.

Lélia Chacon