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Muito além dos laboratórios

Infraestrutura é sempre desejável, mas usá-la para dar receitas prontas não ajuda o ensino das ciências

21/07/2011

21/07/2011

Segundo pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), somente 5,4% das escolas públicas de ensino fundamental e 37% das de ensino médio têm laboratório de ciências. No setor privado, os índices são de 31% e 66%, respectivamente.

O governo federal só em 2005 passou a comprar livros didáticos para o ensino médio, mas apenas para português e matemática. Biologia foi contemplada a partir de 2007, e hoje são também incluídos livros de química, física, história e geografia.

É claro que os laboratórios são desejáveis e não tê-los aumenta a dificuldade do ensino. O bom ensino de ciências, no entanto, não depende (apenas) de um laboratório bem equipado. Aliás, a forma como ele é trabalhado nas aulas tem sido muito questionada, conta o professor Roberto Nardi, do Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), no campus de Bauru.

“Dependendo do enfoque dado aos experimentos, se forem repetidos como se fossem receita de bolo, isso não acrescenta nada ao estudante”, diz Nardi, que também é coordenador da área de ensino de ciências e matemática na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação). “Não adianta ter infraestrutura se o professor não é bem formado.” Laboratório é importante no aprendizado de ciências, mas existem outras situações nas quais o estudante é capaz de ver na prática o que se aprende na teoria. “Na biologia, por exemplo, a natureza é um laboratório aberto”, diz Nardi, mencionando também as feiras de ciências e os museus.

Entre as linhas fortes no estudo sobre o ensino de ciências, afirma ele, estão a introdução de elementos da história e da filosofia da ciência. Quando se repetem os experimentos de Newton, por exemplo, é preciso deixar bem claro para o aluno o contexto em que eles foram feitos originalmente. “O fato de se ter uma lupa, um telescópio ou o (telescópio espacial) Hubble faz enxergar as coisas de formas diferentes.”

Outro ponto importante para os professores é respeitar o desenvolvimento cognitivo da faixa etária para a qual lecionam, além de levar em conta as singularidades regionais e étnicas. As relações entre a produção científica e tecnológica e o impacto que exercem sobre a sociedade não devem ser esquecidos para se ensinar ciência com base em uma perspectiva mais crítica.

“Com um ensino que leva à memorização, por exemplo, um aluno pode decorar tudo sobre os vermes, mas não perceber que ele mesmo pode estar com a barriga cheia de vermes”, diz Nardi, que é físico de formação.

Para o professor, apesar de o Brasil estar entre os países de maior produção científica mundial, ainda tem de aprender a formar melhor seus professores.

Com 61 programas de pós-graduação na área do ensino de ciência e matemática, há muita gente estudando o assunto, mas a excelência ainda não chegou às escolas do ensino médio, segundo Narde.

“Fala-se muito em falta de professores, pois a maioria dos licenciados vai para outros setores, atuando na pós ou em outros locais.” Entre os possíveis motivos para isso, afirma, está o salário.