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Ensinando com ciência

Professores do Amapá, Maranhão e Pernambuco inovam na iniciação científica dos alunos

21/07/2011

21/07/2011

Diante do desafio de motivar os alunos para o estudo de ciências, professores mostram que podem fazer muito, seja às portas da universidade, seja longe dos grandes centros urbanos e contando com pouquíssimos recursos.

Nas pequenas comunidades de Laranjal do Jari, no interior do Amapá, e Sítio Novo, no Maranhão, despontam exemplos premiados que impedem que essas cidades sejam apenas pontos perdidos no mapa da educação no Brasil.

E, no contexto da metrópole, em Recife, jovens estudantes têm a oportunidade de experimentar a vocação científica antes de ocupar um lugar na universidade: uma iniciativa que promove o melhor casamento entre candidato e carreira, para combater a retenção e a evasão na formação universitária.

Projetos premiados

Quatro projetos selecionados para a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) – a maior do gênero no País – foram produzidos por alunos de uma mesma instituição da rede pública de ensino de Laranjal do Jari, no Amapá, a 212 quilômetros da capital, Macapá. No município com pouco mais de 40 mil habitantes, e que faz fronteira com a Guiana Francesa e o Suriname, fica a Escola Estadual Mineko Hayashida, na qual estudam os jovens autores dos projetos premiados. Não se trata de reconhecido centro de produção científica, bem abastecido de laboratórios e recursos. Não, a escola não tem sequer telefone. A façanha dos alunos reflete o trabalho de uma dupla de mestres que consegue incentivá-los a produzir ciência a partir da própria experiência de precariedade: os professores José Antônio da Silva, 63 anos, e Elizabete Rodrigues, 33 anos.

Mas, se falta quase tudo em recursos materiais, sobram entusiasmo, trabalho e persistência desses mestres para criar projetos pedagógicos atraentes, como o “Física Nossa de Cada Dia”, em que os jovens são envolvidos com a construção de equipamentos e instrumentos feitos de sucata – pregos, fios de cobre, limão –, para demonstrar experimentos associados a conceitos científicos, como os de velocidade, espaço e tempo. A metodologia ganhou a adesão dos alunos, que, motivados, passaram a participar de feiras científicas como a Febrace, conquistando também, com seus projetos, reconhecimentos internacionais.

“Em 2009, recebemos o prêmio Destaque em Habilidade e Criatividade em Exibição de Ciência Atmosférica, que nos foi conferido pela American Meteorological Society, pelo projeto Pressão Atmosférica e suas Aplicações em Sistemas Energéticos”, conta o professor José Antônio. No trabalho, os estudantes apresentam uma alternativa para a construção de uma hidrelétrica na cachoeira de Santo Antônio, em Laranjal do Jari, preservando o potencial e a beleza de um ponto turístico do município.

“Partimos de experiências já comprovadas sobre pressão atmosférica e vasos comunicantes, que indicavam a possibilidade de produzir energia elétrica a partir de geradores movidos por turbinas aquáticas. A experiência nos permitiu conhecer novos conceitos e cálculos de engenharia hidráulica”, complementa a professora Elizabete Rodrigues.
A estatística da cidadania

Olhar para as dificuldades como oportunidades de inovação – e não como obstáculos intransponíveis – também foi fundamental para que a professora Fernanda Diniz da Silva, 27 anos, pudesse transformar um desafio numa conquista. Graduada em Ciências Exatas, com especialização em Metodologia do Ensino e da Pesquisa em Matemática e Física, a professora do Centro de Ensino Parsondas de Carvalho, de Sítio Novo (MA), foi uma das ganhadoras do Prêmio Professores do Brasil 2009, outorgado pelo Ministério da Educação, por seu projeto “Estatística na Escola: Ferramenta de Transformação Social”.

Realizado com a 2ª. série do ensino médio, o projeto nasceu da observação da professora sobre o pouquíssimo conhecimento que os alunos tinham de estatística. “Havia uma certa aversão à disciplina, o que me levou a pensar em algo mais prático para motivá-los. Convidei-os a realizar um conjunto de pesquisas junto à comunidade. Eles elegeram os temas: educação, saúde, tecnologia, comunicação e assistência social”, conta a professora.

Nas aulas, a teoria ganhou contexto de experiência de laboratório. Conceitos como linguagem estatística, amostra e representações gráficas envolveram não apenas os estudantes, mas também os pais, colegas, poder público e comunidade. “O projeto superou todas as minhas expectativas, e o mais importante é que os dados apurados foram decisivos para promover mudanças no município. A pesquisa sobre cesta básica possibilitou identificar os melhores preços. Um levantamento sobre o consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens resultou na realização de um seminário de orientação. Tudo foi divulgado pela rádio local, ajudando a conscientização dos moradores”, diz Fernanda.

Para a professora, o aprendizado dos alunos se tornou inevitável: “Como educadora, meu principal objetivo é garantir um ensino de qualidade que corresponda aos anseios destes jovens. Ao atuarem nas situações do cotidiano, com conteúdos contextualizados, eles se tornaram agentes do próprio conhecimento, percebendo a importância de exercerem a cidadania, interferindo positivamente na realidade em que vivem”.

Casamento ideal

A deficiência no ensino das ciências no ciclo médio, que projetos como os destes professores tentam superar, gera um nó na educação exatamente onde ela deveria coroar os esforços dos estudantes que lá chegaram: a universidade. Muitos estudantes que conseguem ingressar ficam repetidamente retidos em disciplinas básicas. Não conseguem acompanhar e desistem dos cursos, engrossando os índices de evasão que, nas áreas de exatas, chega a 70%, segundo o professor Alfredo Simas, diretor do Centro de Ciências Exatas e da Natureza da Universidade Federal de Pernambuco, CCEN/UFPE.

“Há enorme discrepância de nível entre o ensino médio e o ensino universitário”, diz o educador, que coordena na universidade uma modalidade de vestibular com três fases seletivas, destinada a casar da melhor maneira candidato e vaga no ensino superior. A iniciativa tem conseguido diminuir a evasão por ajudar os estudantes a perceberem melhor suas vocações, talentos e nível de maturidade para dar conta da vida universitária.

Realizada na UFPE desde 2005, a prática seletiva em três etapas é dirigida apenas aos candidatos às áreas de química, matemática e estatística, que são cursos de baixa demanda e altíssima qualidade. Depois de aprovados nas duas etapas do vestibular convencional (conhecimentos gerais e, após, redação com questões de português), os candidatos participam no campus universitário de uma formação pré-acadêmica de 180 horas de aula. Trata-se de um ensino médio intensivo, sob a orientação de professores doutores, com acesso a laboratórios, tecnologias e conteúdos atualizados.

Os aprovados nessa fase cursarão a universidade nas áreas escolhidas bastante motivados e em condições de tirar o melhor proveito da vaga conquistada. Os reprovados também saem mais preparados, por terem tido a oportunidade de receber o ensino a que teriam direito no ciclo médio, mas que é dificilmente encontrado.

Resultados parciais da experiência mostram êxitos. Uma disciplina dada no último período do curso de química teve média de 15 alunos matriculados em 2008 e 2009, contra 5 em 2003 e 2004. Outra, de mecânica quântica, era oferecida uma vez ao ano antes de 2005, com média de 5 alunos. Hoje, ministrada duas vezes ao ano, tem média de 14 alunos.

“Quando um estudante é aprovado no vestibular, não estamos avaliando sua capacidade de frequência às aulas por todo um semestre, tampouco sua aptidão para cursar estatística, matemática ou química. Também não conseguimos avaliar o seu grau de motivação para o estudo de nível superior, ou sua autonomia para ser um estudante universitário. E estes são os fatores que levam alguém a concluir um curso e se tornar um bom profissional”, ressalta o professor Simas. Ele destaca ainda que a seleção em três etapas também democratiza o acesso à universidade. “Estamos selecionando não pelo conhecimento prévio, mas pela capacidade de aprender, dando assim oportunidade a todos que tenham interesse e talento, independentemente de sua formação, aumentando a aprovação de alunos egressos de escolas públicas.”

Carmem Aliende e Liliane Oraggio