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Curto-circuito

Com bons efeitos pedagógicos, as feiras de ciências já acontecem em grande parte das escolas, mas falta consolidar uma programação que leve do local ao nacional

21/07/2011

21/07/2011

Era o pós-guerra. Nos Estados Unidos, vivia-se um entusiasmo sem

precedentes pelos benefícios da tecnologia e do conhecimento científico.  

Nas escolas, professores e alunos se empenhavam em mostrar projetos e

idéias novas nas pequenas feiras de ciências que já eram promovidas desde

o começo do século, a partir de projetos e novas idéias de caráter científico dos

próprios alunos. Até que em 1950, um grupo de professores resolveu unir os trabalhos

de 13 feiras regionais do país para fazer, na Filadélfia, a primeira grande Feira Científica.

Foi um sucesso que estimulou uma prática constante, instaurando uma “moda” de feiras

científicas que se internacionalizou, tornando-se uma espécie de competição “olímpica”

— com direito a prêmios, como bolsas de estudo, viagens para outras feiras e até verbas para novos projetos.

No Brasil, a moda também chegou. Mas, enquanto as feiras nos Estados Unidos procuravam revelar novos “gênios cientistas”, capazes de dar impulso aos avanços tecnológicos que se buscava — desde novas soluções produtivas até necessidades bélicas —, as feiras brasileiras sempre tenderam a ter um objetivo mais educacional.
Já nos anos de 1970, as feiras de ciências começavam a surgir, modestas, em várias instituições de ensino, geralmente estimulando projetos feitos em equipe, nascidos dentro de classe — ao contrário dos norte-americanos, que privilegiam as iniciativas individuais.

“As feiras de ciências são a melhor forma para promover o aprendizado das ciências clássicas e também a divulgação científica”, diz Luiz Ferraz Neto, físico e mestre em Ciências Experimentais, e uma autoridade no tema, sobre o qual escreveu vários livros e sites. “Hoje, praticamente todas as escolas têm uma feira de ciências”, diz Léo, como é chamado. Ele se refere, em especial, à prática de se construírem aparelhos e instrumentos destinados a todo tipo de experiência científica, especialmente ligadas à medição. “Desta forma, o aluno tem um elemento lúdico para chegar ao conhecimento necessário, refletindo sobre ele e tirando suas próprias conclusões”, diz o professor.

Teoria e prática

Mas Léo lamenta que o verdadeiro espírito deste tipo de evento não esteja resistindo aos novos recursos tecnológicos: “Hoje em dia há acesso a todo tipo de informação pela Internet, e os professores colocam as questões científicas já com uma receita para o aluno encontrar a solução. Não se estimula tanto a investigação, a iniciativa desses alunos. Mesmo nas feiras, o que se vê é um apanhado de aparelhos comprados prontos para se montar um instrumento de medição. Se um pisca-pisca quebra, compra-se outro. Não há interesse de desmontá-lo para encontrar o problema, tentar entendê-lo e consertar. Um pisca-pisca é um aparelho maravilhoso, simples e eficiente. E é isso que o aluno deve compreender”.

O professor enfatiza dois aspectos importantes das feiras de ciências: o uso e domínio da metodologia científica — que prevê a elaboração de uma hipótese e experiências para transformá-la em tese — e a construção física das partes do projeto. “É inconcebível que um estudioso de ciências não saiba manusear uma chave de fenda, uma furadeira elétrica, um soldador elétrico, um bico de Bunsen, uma fonte de tensão elétrica. A sua participação nas feiras de ciências pode capacitá-lo também nesses detalhes técnicos. Basicamente, o projeto deve ampliar seus conhecimentos pessoais e aumentar sua capacidade de observar, especular, formular, experimentar, deduzir e chegar a conclusões”, diz o professor Léo, hoje, aos 71 anos, aposentado, com dedicação quase exclusiva a orientar alunos e professores a construir projetos de feiras de ciências.

Embora a realização de feiras de ciências já seja uma realidade em boa parte das escolas, não há um circuito oficial que congregue essas iniciativas. “Nos Estados Unidos, há um calendário de feiras, em que os vencedores das pequenas escolas vão sendo promovidos para participar de eventos maiores, até conseguirem ingressar num evento de caráter nacional. Lá a agenda é institucionalizada, o que não acontece aqui”, explica Léo. O resultado é que, no Brasil, as feiras de ciências, pequenas ou grandes, são fruto de iniciativas individuais de professores e alunos, às vezes com apoio de alguma instituição de ensino ou do governo.
Feira nacional e regionais

O modelo cabe até mesmo na maior realização do gênero no País, a Febrace, Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, uma iniciativa de Rosely Lopes, engenheira e professora da Politécnica da USP, uma observadora das lacunas da educação, principalmente nas ciências clássicas, ainda que sua referência fosse o ensino superior. Preocupada com o assunto, ela visitou, em 2000, nos Estados Unidos, a ISEF (Intel International Science and Engineering Fair), a maior feira de ciências do mundo, concentrando o trabalho de 1.500 alunos do ensino médio, de mais de 50 países.

A professora voltou da viagem com uma idéia fixa: fazer algo semelhante no Brasil. Em 2002, com a chancela da USP e patrocínio da Intel, a mesma patrocinadora da feira norte-americana, realizou-se a primeira edição da Febrace. De lá para cá, a mostra de ciências se consolidou como um encontro anual, que congrega trabalhos e projetos de escolas de vários estados brasileiros, e ganhou apoios de outras empresas e organizações. Este ano, o evento, realizado em março nas dependências da própria Escola Politécnica, na USP, teve a participação de 13 unidades da federação, mais de 1.200 submissões e 280 projetos selecionados. Ao fim do evento, há uma ampla gama de prêmios, distribuídos para os melhores projetos, incluindo a participação na própria feira dos Estados Unidos. “No ano passado”, diz Rosely, “quatro de nossos representantes foram premiados na ISEF”.

A feira é o resultado final de uma ação contínua, ao longo do ano, para a seleção e o monitoramento dos projetos submetidos, feitos com rigorosa disciplina e critérios científicos. “Nós procuramos trabalhar em torno do protagonismo dos estudantes, buscando desenvolver a ciência no seu sentido mais amplo, desde que obedeçam à metodologia científica”, explica a professora. Assim, os trabalhos selecionados não são exclusivos das ciências clássicas, mas incluem também os domínios da linguística, da filosofia e da comunicação. “É preciso fazer boas perguntas para se obter respostas enriquecedoras”, diz Rosely. “A intenção é fazer com que o aluno se sinta parte do processo de construção do conhecimento”.

Mas também é proposta da Febrace estimular alunos e professores a desenvolver projetos que levem em conta soluções para questões locais, a custo baixo e com alta eficiência. “Encontramos projetos de jovens que utilizam o método científico para produzir soluções específicas às suas realidades. Problemas complexos podem ter soluções simples”, diz a professora. “O mais importante, no entanto, é estimular a autoestima dos alunos e do professor e propiciar o entendimento de que eles fazem parte do processo de aquisição do conhecimento”, completa ela.

Uma das participantes premiadas da Febrace é a Fecitec – Feira de Ciências e Tecnologia –, uma das mais importantes da categoria, realizada em outubro, em Imperatriz, no sul do Maranhão. Seu principal organizador é o professor de química Alexandre Passos da Silva, que, depois de conhecer várias produções do gênero, resolveu tomar a iniciativa de criar algo semelhante em sua cidade. A feira começou timidamente com 40 projetos, em 2007, e no ano passado já contava com mais de duzentos trabalhos selecionados e a participação de estudantes de sete estados do Brasil. “As feiras de ciência estimulam a curiosidade e a capacidade de questionamento dos estudantes. Não importa tanto o conteúdo, mas, sim, a utilização de um método para responder suas questões, ou comprovar suas teses. O método dá a disciplina necessária para que ele possa ser ao mesmo tempo criativo e concentrado em seus objetivos”, diz Alexandre.

Fontes paralelas

Valorizar o estudante que demonstra ter um perfil de pesquisador, seja das ciências clássicas ou não, estimular a determinação, a capacidade de persistir na busca do que acredita, a iniciativa e a realização de seus projetos são normalmente os objetivos de empreendimentos como esse. Como a Semana Nacional de Ciências e Tecnologia (SNCT), coordenada pelo Ministério de Ciências e Tecnologia, um dos maiores eventos científicos do País, destinada à mobilização da população em geral e, mais especificamente, a jovens e estudantes, segundo Adriana de Pieri, do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência do MCT. A finalidade principal da SNCT é divulgar temas e atividades de ciência e tecnologia, valorizando a criatividade, a atitude científica e a inovação. E, também, mostrar a importância da ciência e da tecnologia para a vida de cada um e para o desenvolvimento do País. “Ela possibilita, ainda, que a população brasileira conheça e discuta os resultados, a relevância e o impacto das pesquisas científicas e tecnológicas e suas aplicações”, diz Adriana.

A SNCT é uma maratona de eventos, na maioria das vezes no formato de feira de ciências, com exposição de projetos feitos por equipes de estudantes, que envolve 500 municípios brasileiros e mais de 25 mil alunos e professores. A semana, que ocorre sempre no mês de outubro, teve, no ano passado, uma verba de R$ 20 milhões, distribuídos por secretarias, coordenações de ensino público e escolas, para a promoção de projetos pré-aprovados envolvendo todo tipo de atividade educacional científica — de palestras a concursos de redação. A participação é livre — qualquer cidadão pode inscrever um projeto de caráter científico, desde que obedeça às condições determinadas pelo programa. Na maioria das vezes, as verbas contemplam instituições e escolas que promovem ou apoiam iniciativas do tipo feira de ciências.

Uma das entidades participantes dessa iniciativa foi a Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), que promoveu, no fim de 2009, na cidade de Parintins, a Mostra Pública do Programa Ciência na Escola. A mostra foi resultado de uma seleção, ocorrida ao longo do ano anterior, de projetos de várias áreas do conhecimento, ao fim da qual as equipes — formadas por cinco alunos, um professor e um especialista orientador — foram contempladas com bolsas em dinheiro e a oportunidade de apresentar seus projetos ao público. Segundo Cristiane Barbosa, chefe do Departamento de Difusão do Conhecimento da Fapeam, os projetos apresentados cobriram uma ampla área do conhecimento, com trabalhos que iam da educação física à linguística. Cada aluno da equipe cujo projeto foi selecionado recebe uma bolsa mensal de 120 reais. “Foi fantástico, com uma grande participação de alunos e professores, e envolveu até as famílias dos estudantes”, diz. “É um estímulo incomparável à produção do conhecimento e ao desenvolvimento dos alunos.”

 

Roberto Amado