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Alunos e professores debatem ensino fundamental

O Instituto Desiderata reuniu, em encontro no RJ, estudantes e representantes de escolas públicas para debater os resultados da pesquisa Megafone na Escola.

18/07/2011

18/07/2011

Foto: Divulgação O Instituto Desiderata reuniu, no Rio de Janeiro, alunos e representantes de escolas públicas para apresentar os resultados da pesquisa realizada com estudantes do segundo segmento do ensino fundamental.

Aulas diversificadas, melhor conservação do espaço, área para esportes, computadores e acesso à internet, definição de regras de convivência são fatores considerados importantes para que a escola se torne um lugar melhor para estudar, segundo os dados da pesquisa Megafone na Escola, apresentados em encontro promovido no Rio de Janeiro na última sexta-feira, 20. A respeito desses temas houve consenso entre alunos e professores entrevistados. Já quanto ao apoio dos pais na aprendizagem, outro ponto levantado pela pesquisa, a discordância é radical: 85% dos alunos pesquisados se sentem incentivados pelos pais, enquanto apenas 9% dos professores observam tal incentivo por parte das famílias.

Os dados completos da pesquisa ainda serão trabalhados e divulgados oportunamente pelo Instituto Desiderata. Enquanto isso, serão debatidos e mais bem esclarecidos nas próprias escolas, estimuladas a promover o “Dia do Megafone na Escola”, apoiadas por material a ser produzido pelo Instituto. A organização elaborou uma carta aos diretores de escola explicando a importância dessa iniciativa e solicitando o compromisso. Ao final do evento no Rio, que contou com a participação de Cláudia Costin, titular da Secretaria Municipal da Educação, parceira no projeto, os representantes das instituições de ensino receberam um símbolo da proposta: um megafone, “para começar já o ‘barulho’”, destacou Roberta Costa Marques, gerente da área de educação do Desiderata.
O projeto

O Megafone na Escola promoveu uma consulta participativa sobre o segundo segmento do ensino fundamental com o objetivo de ouvir a opinião da comunidade escolar sobre os desafios desse ciclo escolar, que compreende a fase do 6º ao 9º ano. No primeiro semestre deste ano, durante 3 meses, 134 adolescentes de 8º e 9º anos foram capacitados em 25 oficinas para realizar entrevistas. Eles registraram os depoimentos de 2.194 alunos de 6º e 7º anos e 277 professores de 39 escolas de segundo segmento da cidade do Rio de Janeiro. Os gestores de 36 escolas também responderam a um questionário.

Segundo o Instituto Desiderata, a escolha do segundo segmento do ensino fundamental para aplicação da pesquisa foi baseada em dados da Secretaria Municipal de Educação. Visto por muitos como um grande desafio, o segmento apresenta resultados insatisfatórios na Prova Brasil. Em 2005, os alunos de 6º ao 9º anos tiveram média 4,71. Em 2007, o índice diminuiu, passando para 4,60. Em 2009 a média voltou a aumentar, chegando a 4,88, de acordo com a secretária Cláudia Costin. No entanto, o segmento tem dados críticos quanto à defasagem idade/série (dados de 2009 registram um índice de 22% no 6º ano) e a abandono (o número de matrículas cai de 84 mil no 6º ano para 58 mil no 7º ano, apresentando quedas a cada ano até o término do ensino fundamental. O Censo Escolar de 2008, na cidade do Rio de Janeiro, também mostra que os alunos entram no 6º ano com baixa aprendizagem dos conteúdos necessários à continuidade dos estudos para alcançar o ensino médio.

A secretária municipal de educação Cláudia Costin destacou no encontro a importância do foco da pesquisa no segundo segmento do ensino fundamental e também o fato de a iniciativa ter o jovem da rede como protagonista na ação. “Os resultados dessa pesquisa serão essenciais para o desenho da educação juvenil que estamos planejando para 2011”, ressaltou Costin.
Os dados do Megafone

Na opinião dos professores entrevistados, a transição do 1º para o 2º segmento deveria ter uma ação específica (70%), pois o 6º ano é considerado o mais crítico, quando os alunos se depararam com uma escola com mais matérias e professores. Para os diretores, os fatores mais presentes no 6º ano são: desmotivação dos alunos, dificuldades de aprendizagem e menor acompanhamento dos pais na fase da adolescência.

A necessidade de mais regras de convivência na escola foi item apontado por 28% dos docentes como ferramenta mais importante para tornar as aulas melhores. Para os alunos também, pois 83% acham que há muitos colegas bagunceiros que atrapalham a aula. Alunos e mestres concordam que as aulas deveriam ser mais diversificadas para tornar a escola mais atrativa. Outro ponto que chamou a atenção foi a falta de pessoal administrativo nas escolas, declarado por 92% dos diretores que responderam o questionário.

Na opinião dos alunos, aulas de reforço (20,8%) e mais aulas com internet, vídeos, fotografias e música (24,6%) são importantes para atrair o interesse e atenção. Cerca de 29% também acreditam que a conservação do ambiente escolar é fundamental para tornar o estudo mais prazeroso.

A expectativa do Instituto Desiderata é que os resultados encontrados gerem subsídios para as escolas pensarem soluções e também para a elaboração de políticas públicas dirigidas ao segundo segmento do ensino fundamental. “Estamos à disposição para seguir com este diálogo e também apoiar o processo de reflexão, elaboração e implementação de mudanças na rede municipal, contribuindo com soluções para os desafios do segundo segmento” — comentou Beatriz Azeredo, diretora do Instituto.

“A metodologia participativa é o diferencial desta pesquisa, que gera grande mobilização e diálogo dentro da escola e também entre as escolas” — ressaltou Ana Lima, diretora do Instituto Paulo Montenegro (ligado ao Ibope), um dos parceiros da ação, juntamente com o Cedaps (Centro de Promoção da Saúde), ONG que capacitou os adolescentes, e a PUC/RJ, que realiza acompanhamento das oficinas e mediação dos adolescentes na internet para um diário de campo.

Acesso ao ensino médio

Os participantes do encontro destacaram ainda a oportunidade da pesquisa e das ações de melhoria na qualidade do ensino que ela deve provocar para impactar o acesso ao ensino médio. Uma escola mais atraente no segundo segmento diminuirá os índices de evasão e defasagem idade/série, beneficiando o ciclo médio.

Segundo avaliação do Instituto Desiderata, atualmente os investimentos públicos e privados, assim como pesquisas acadêmicas focam, principalmente, nas séries de alfabetização ou na formação do jovem para o mercado de trabalho, estudantes do ensino médio. Porém, pouco se discute sobre uma grande parcela da população que está numa fase intermediária, o segundo segmento do ensino fundamental, em um país onde apenas 55% dos jovens de 15 a 17 anos têm esse nível de escolaridade completo.

De acordo com o Ideb 2009 (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), divulgado pelo MEC no final de julho, nas séries iniciais do ensino fundamental a nota passou de 4,2 em 2007 para 4,6 em 2009, em uma escala até 10. Já nos anos finais (6º ao 9º ano), a média nacional cresceu de 3,8 para 4,0, sendo que 21% do total de municípios (1.146 cidades) tiveram queda de 2007 para 2009. No ensino médio, esse crescimento foi ainda menor, de 3,5 para 3,6.

“Os dados são preocupantes, pois a melhora de aprendizado nas séries iniciais não chega às séries finais e nem ao ensino médio, o que indica desaceleração no processo de aprendizagem ao longo da educação básica. Além disso, o Brasil corre um sério risco de não conseguir cumprir a Emenda Constitucional 59 de 2009 que torna o ensino obrigatório dos 4 aos 17 anos até 2016”, afirmou Roberta Costa Marques, gerente da área de educação do Desiderata. Segundo Marques, o problema é nacional e a realidade do Rio de Janeiro não é diferente. “Com 1063 escolas municipais, a rede do Rio possui 405 escolas de segundo segmento onde estudam 256 mil alunos. Apesar dos ganhos com a universalização do ensino, os indicadores apontam alta defasagem idade-série e evasão especialmente no 6º ano, momento exato da passagem do primeiro segmento para o segundo segmento. Os dados oficiais e o projeto Megafone na Escola ratificam isto”, concluiu.

Para mais informações sobre Megafone na Escola, acesse www.desiderata.org.br.

Fonte: Onda Jovem/ Instituto Desiderata