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“Ensinar ciência não é transmitir dogmas”

Fernando Reinach, pesquisador e divulgador científico, afirma que a diferença é mostrar ao aluno como se chegou a determinado conhecimento

18/07/2011

18/07/2011

O pensamento científico é arma poderosa na sociedade contemporânea, diz o sujeito da frase acima, Fernando Reinach, 54 anos, pesquisador renomado em biologia molecular e também líder empresarial respeitado no mundo tecnológico. O biólogo, professor titular de Bioquímica aos 35 anos na USP, foi um dos mentores e coordenadores do primeiro projeto genoma brasileiro, o da Xylella fastidiosa, bactéria que causa doenças em plantas como a laranjeira.

No universo dos negócios, criou a Genomics, a primeira empresa brasileira a fazer testes de paternidade. A experiência o colocou, em 2003, na lista da revista Scientific American de 50 empreendedores de destaque em todo o mundo. Ex-executivo da Votorantim Novos Negócios, onde ajudava a criar empresas de base tecnológica, o cientista empreendedor gosta mesmo é de ver o pensamento científico em ação. O ensino das ciências na escola, para ele, tem de fomentar esse raciocínio, crítico e dedutivo, que impulsiona o empreendedorismo e o desenvolvimento da sociedade.

Reinach também atua como divulgador científico em uma coluna semanal do jornal O Estado de S. Paulo, atiçando a curiosidade, intrigando e fazendo pensar. Uma coletânea desses textos foi reunida no livro “A Longa Marcha dos Grilos Canibais”, publicado pela Companhia das Letras. Por causa do interesse que professores demonstram pelo conteúdo dessas crônicas, Fernando e a editora têm um projeto destinado a mostrar aos docentes da rede pública de ensino, em encontros, como aplicar o material do livro na sala de aula, o que deve acontecer no segundo semestre deste ano. Na entrevista a seguir, ele mostra o que faz de melhor pela educação científica: dar a ela um delicioso sabor de aventura.

O que caracteriza a ciência hoje?

Fernando Reinach: A ciência é um modo de entender o mundo. Uma sociedade educada para a ciência tem mais condições de, diante de desafios e do inesperado, oferecer questionamentos, debates e soluções melhores para avançar. Esse é o grande valor da ciência e do pensamento científico em todos os tempos.
Que consequências a falta de educação científica provoca?

Ela nos afeta em tudo. Não só a produção de conhecimentos, a pesquisa, como todo o desenvolvimento. Para dar um exemplo, no passado nascimento e morte eram entendidos apenas pelo primeiro e último suspiro, momento em que, muitos acreditavam, a alma entrava e saía do corpo. A questão da morte precoce, do aborto, não existia porque não se considerava a existência antes do nascimento. As descobertas científicas nos levaram à fecundação. Passamos dos suspiros ao batimento cardíaco e ao aparecimento do sistema nervoso, detetáveis nas primeiras semanas de gestação. Chegamos à parada cardíaca e à morte cerebral. São marcos regulatórios da existência que ajudam a sociedade a proteger a vida. E mudam e podem ser revistos ao longo do tempo, à medida que a ciência e a sociedade avançam e se deparam com novos desafios e necessidades. É um exemplo da percepção que temos de transmitir sobre a importância da ciência.
E o ensino da ciência na escola?

O problema é que a ciência é comunicada de forma dogmática e ensinar ciência é diferente de transmitir dogmas. O que faz diferença no aprendizado é mostrar ao estudante como se chegou a determinado conhecimento, como foi feito. E, se ele duvidar, poderá repetir o experimento para verificar. É o que separa a ciência de outras formas de conhecimento. A cada verdade científica corresponde um experimento com resultados que podem ser repetidos. Para dar outro exemplo: o professor pode informar ao aluno que formiga sabe contar. Se parar aí, não tem graça, é um dogma. Afirmo em meu livro que cada descoberta científica é uma pequena história de aventura. Está lá a história. Os cientistas suspeitaram que as formigas saem e conseguem voltar ao formigueiro porque elas determinam a distância contando passos. Para testar a hipótese, eles alteraram o comprimento do passo da formiga, apostando que isso iria levá-la a errar a conta da distância. Num grupo de formigas, as patinhas foram aumentadas com uma espécie de perna de pau. Com passos mais longos, elas ultrapassaram o buraco do formigueiro. As formigas de outro grupo tiveram as patas encurtadas, e elas paravam antes de chegar ao formigueiro. Se a ciência for passada assim, fica muito mais divertido aprender e se transmite ao aluno a prática do pensamento científico.
Mas é possível transmitir todos os conteúdos dessa forma?

É complicado. Escola dá muito conteúdo, fica impossível explicar tudo. Mas sempre que possível o conhecimento deveria ser passado assim. E não precisa ter laboratório, microscópio, tecnologias de ponta. Dizer que não tem recurso é desculpa. O recurso mais escasso é o tempo. A questão está na maneira de fazer. Você pode ensinar sobre a germinação de sementes de uma forma contemplativa, colocando lá o feijãozinho no algodão úmido sob a luz. Ou apresentar a experiência de forma questionadora, fazendo o estudante plantar o feijão com água, sem água, no claro, no escuro. Na escola, o principal é ensinar o método, a maneira de pensar. Isso gera uma atitude, um comportamento diante do conhecimento e da vida. A capacidade de inovar gira em torno desse pensar científico, de questionar o status quo, não aceitar passivamente. Isso é a educação científica.
Como foi despertado seu interesse pela ciência?

Foi no colegial. A professora de biologia faltou um dia e mandou o marido, que era um professor universitário, dar aula no lugar dela. Em vez de falar sobre um conteúdo específico, ele resolveu dar para nós uma big picture da ciência, um panorama mostrando como os conhecimentos se juntavam. Tudo fazia sentido. Essa aula foi fundamental para definir meu interesse pela biologia.
A divulgação científica está em alta. Qual sua importância?

O mais importante é que ela fomente o pensamento científico. É o que procuro fazer no meu livro. As crônicas repetem o método do trabalho científico: dou um panorama inicial do conhecimento que vou tratar (o contexto); conto o experimento e a seguir os resultados (dados objetivos); aí entro na discussão (isso quer dizer que...). Não divulgo necessariamente as últimas descobertas da ciência. Às vezes é coisa irrelevante, mas tem história boa, que permite contar como se chegou lá, mostra o pensamento científico. Eu escrevi uma crônica sobre a teoria da extinção dos dinossauros por um asteróide. Uma pessoa escreveu dizendo que já tinha ouvido falar muito daquilo, mas só agora compreendia. Como um asteróide teria acabado com todos os dinossauros? A explicação é semelhante ao que todos vimos acontecer com a erupção do vulcão na Islândia, aquela fumaça que se espalhou. Quando se examinam os fósseis, acima deles há uma camada de iridium, matéria presente no asteróide. A espessura dessa camada varia de região para região no planeta. Onde a encontraram mais espessa, havia uma cratera cheia de iridium. Quando o asteróide atingiu a Terra, o iridium se espalhou, abafando e matando a vegetação que alimentava os dinossauros. Eles desapareceram porque morreram de fome.
E esse jeito de contar as descobertas científicas é que tem despertado o interesse dos professores?

Sim, e veio a ideia de fazer workshops, cinco ou seis eventos, com 300 a 400 professores da rede pública cada um, para mostrar que artigos do livro podem ser mais usados na escola e como aplicá-los no ensino de ciências. Para melhorar o aprendizado dos alunos, o mais importante é capacitar o professor, porque o efeito multiplicador é maior. Com o projeto, poderíamos atingir de 20% a 30% dos professores de ciências da escola pública
Há uma especificidade na educação científica de jovens?

O que é básico na educação do pensamento científico é ensinar como se comportar diante do inesperado. Mas é comum ver os educadores, tanto professores quanto pais, tomar uma atitude autoritária na hora de educar: dizer que tal coisa é assim, ou isso não pode e ponto final. Dá trabalho levar o filho e o aluno a questionar, a pensar. Em casa ou na escola, isso desestimula o pensamento científico. Há muito medo de pensar coisa diferente, medo de errar. O papel do educador é ensinar o oposto, mas, sem o medo de pensar, de errar, as pessoas ficam mais rebeldes, inquietas, querem explicações. O educador não pode atuar como pregador religioso, transmitindo dogmas. Assim a curiosidade natural vai sendo inibida. Ter o apoio para descobrir sozinho gera atitude que vai se replicar diante de tudo na vida.

Principalmente no mundo do trabalho...

Sim, o que as empresas querem é um profissional que saiba resolver problemas, portanto, um profissional com espírito científico para pensar, questionar e oferecer solução. Não aquele que vem contar simplesmente que o computador pifou e você pergunta se é problema na eletricidade e ele nem checou a tomada, não pensou, não questionou, não tem pensamento científico, a mínima formação para resolver problemas. Esse é o indivíduo que fica sujeito a boatos, a apelos emocionais. Uma população assim despreparada afeta toda a economia de um país.