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Processando símbolos

No ápice da escala de complexidade das funções cerebrais, a leitura e a escrita são processos que transformam o próprio cérebro

12/08/2011

12/08/2011

Frances Jones

Para um adulto alfabetizado e letrado, como eu e você, leitor, de tão automática, a leitura pode muitas vezes parecer inerente ao ser humano. Apontadas por muitos como o ápice do desenvolvimento humano e o que o distinguiria definitivamente dos demais animais, a leitura e a escrita, no entanto, são bem recentes na história do homem. Apenas nos últimos 5 mil anos, dos seus mais de 100 mil anos de existência sobre a Terra, é que os Homo sapiens começaram a se comunicar sistematicamente por meio de sinais gráficos, que passaram a formar letras, que por sua vez compuseram palavras com significado, e por fim geraram um texto.

A possibilidade de ler e escrever um texto abre uma nova era na história da humanidade e, a partir daí, as informações, histórias e mensagens ganham permanência, sendo transmitidas entre gerações, locais e mesmo culturas diferentes. Ao contrário do que acontece com a linguagem oral, porém, nosso cérebro não nasce programado para ler e escrever. É preciso treiná-lo para aprendermos essas habilidades.
Como funciona

A questão é que ainda hoje os cientistas e educadores debatem e levantam hipóteses sobre os processos que ocorrem no cérebro, quando se aprende a ler e a escrever, e sobre qual é a melhor forma de inserir as pessoas nessa dimensão.

Amparados por novas técnicas de imageamento cerebral, como a ressonância magnética funcional, os neurocientistas têm jogado luz numa seara já muito estudada e pesquisada por psicólogos, pedagogos e neurocientistas, como o suíço Jean Piaget (1896-1980), o bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934), o russo Alexander Luria (1902-1977) e a argentina Emilia Ferreiro (1937).

O funcionamento do cérebro ainda permanece cercado por mistério, mas alguns pontos parecem certos – por exemplo, que ele funciona de maneira integrada e que a plasticidade é uma de suas grandes características. “A leitura e a escrita fazem parte de sistemas funcionais complexos, nos quais diferentes áreas cerebrais contribuem de forma específica e atuam em concerto”, diz o neurocientista Marcio Balthazar, pós-doutorando da Unicamp especializado em neurologia cognitiva.

Para que uma pessoa aprenda a ler e a escrever, ela precisa, entre outras coisas, relacionar os traços gráficos, os formatos das letras, aos sons produzidos por elas quando faladas em voz alta. Ela só consegue ligar a palavra ao significado quando os símbolos grafados na página são traduzidos pelos sons correspondentes. A palavra “pena”, por exemplo, é decomposta nos componentes fonológicos “pe” e “na”. Nesse processo, são ativadas as áreas cerebrais do processamento visual e da linguagem relacionadas à compreensão. Para fazer a distinção das letras escritas, acionamos uma parte do cérebro usada na distinção visual detalhada dos objetos da natureza. Já quando passamos à escrita, utilizamos também uma outra parte do cérebro, relacionada à destreza manual.
Mundo de relações

"As habilidades de leitura e escrita acontecem de forma interligada e interdependente, mas não são a mesma coisa”, explica a fonoaudióloga Heloísa de Oliveira Macedo, doutora em linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp. “O passo inicial é o estabelecimento de relações com uma referência simbólica já definida de conhecimento, de significação do mundo”, afirma. Para aprender a ler, diz Heloísa, a pessoa aprende que os símbolos gráficos, as letras, correspondem ao som “pena” como um todo. “Para aprender a escrever, o sujeito, seja adulto ou criança, se vale do mesmo processo, só que então decompõe os sons da palavra e, inicialmente, atribui um símbolo gráfico para cada um dos sons ouvidos (as sílabas, ou os componentes fonológicos), ainda buscando a correspondência com o conhecimento estabilizado que já tem, para depois conseguir usar as normas-padrão estabelecidas pelo uso da língua.”

De forma geral, durante a leitura o hemisfério esquerdo, relacionado à parte da linguagem, é mais utilizado. Estão envolvidos na ação: o córtex visual (que permite o reconhecimento das letras), na parte posterior do cérebro; o córtex auditivo (permite que se reconheça a palavra pelo som); a área de Broca (que liga a palavra escrita à falada), no córtex frontal esquerdo; e o lobo temporal (onde se faz a correspondência das palavras aos seus significados, ao resgatar as memórias). Nas áreas frontais, interligam-se o som, a grafia e o significado de uma palavra. A escrita requer ainda mais a integração de diferentes funções e habilidades (como memória, atenção, coordenação visomotora), na associação entre os lobos temporal, parietal e occipital.

Apesar de serem habilidades interligadas, é possível conseguir ler sem escrever, ou escrever sem ler, mas geralmente quando ocorrem lesões cerebrais. Um exemplo clássico estudado pelos neurologistas é a síndrome da alexia sem agrafia, nas quais os pacientes conseguem escrever, mas não ler, em razão de problemas na comunicação entre os hemisférios cerebrais. “Nessa síndrome, mais comumente causada por acidentes vasculares cerebrais, uma mesma lesão acomete o córtex visual esquerdo e desconecta o córtex visual direito de áreas mais relacionadas com a linguagem verbal do hemisfério esquerdo. O paciente não consegue ler, enquanto outras funções linguísticas, como a escrita, estão preservadas”, afirma Balthazar.
Novos significados

Quanto mais hábil o leitor, menos ele terá de se preocupar em ligar o símbolo escrito que vê ao som correspondente, pois esse processo fica cada vez mais automático. Com isso, o cérebro pode se ocupar mais do significado das palavras.

“Vivemos em um mundo letrado, com muita informação veiculada pela escrita, e, para acessá-la, é preciso ser leitor”, diz Heloísa Macedo, que participa do grupo de pesquisas COGITES - Cognição, Interação e Significação, do IEL. “A leitura acaba sendo uma grande estratégia que se tem de acesso ao mundo. A partir do momento em que se consegue ler, o mundo se abre completamente.”

As pesquisas também mostram que a alfabetização aumenta a capacidade de as pessoas fazerem distinções sutis entre os sons ouvidos, e que a leitura pode melhorar as funções cerebrais, aumentando as conexões do cérebro.

“Quanto mais lemos, mais criamos a possibilidade de novas sinapses; com isso, o cérebro fica mais rápido e temos mais informação para agir rapidamente no mundo”, afirma Heloísa Macedo, referindo-se ao processo de interação entre os neurônios. Ela salienta que o ideal é diversificar as fontes de leitura, incluindo jornais, livros impressos, Internet etc.
Descompasso da escola

Apesar da grande força da linguagem visual na nossa atualidade, das imagens, da televisão e do cinema, Lino de Macedo, um dos grandes estudiosos brasileiros do desenvolvimento, considera exagerada a afirmação de que o jovem de hoje leia e escreva pouco. “A atividade de leitura no computador é muito exigente, e o jovem faz isso de modo eficiente”, constata o professor, titular do Departamento de Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). “Os jovens são digitais, do mundo da TV, da Internet, do cinema e dos RPGs, ou seja, são alunos digitais, e às vezes a escola é pouco digital, formando um descompasso de interesses de leitura e escrita do aluno e da escola.”

Para ele, num mundo tão marcado pela tecnologia, tão importante como saber ler e escrever na língua portuguesa (no caso dos brasileiros) é a competência de leitura e escrita em ciências. “A tecnologia do mundo atual é baseada no conhecimento científico, e a compreensão dos fenômenos científicos é fundamental.”

Um dos grandes desafios da escola, diz, é transformar a informação (acessível em grandes quantidades) em conhecimento e, muitas vezes, uma maneira de ‘conquistar’ os jovens é justamente pelo mundo da ciência e tecnologia, tão presente no cotidiano de todos.

“Ser analfabeto hoje é estar privado do aspecto mais desenvolvido e mais profundo do conhecimento”, diz Lino de Macedo. “A pessoa que vive somente na oralidade está fora da maior parte das coisas do mundo”, diz ele, lembrando que atualmente mesmo os concursos públicos para funções consideradas básicas exigem certo grau de escolaridade.
Pensamento simbólico

Além da inserção social e cultural do indivíduo, o desenvolvimento da leitura e da escrita se mostra capaz de afetar o próprio cérebro. São habilidades que exercem uma função protetora contra doenças degenerativas, como a doença de Alzheimer, ao estimularem a formação de sinapses, a comunicação entre neurônios diferentes. “A pessoa com uma vida cultural mais ativa tem uma maior reserva cognitiva, de forma que desenvolve conexões neurais mais eficientes e menos suscetíveis a lesões. Pode haver ainda o mecanismo de compensação, no qual outras redes neurais assumem a função perdida por dano cerebral”, diz Balthazar.

A escolaridade, afirma o cientista, protege contra doenças cognitivas e, para isso, a leitura e a escrita são fundamentais, pois por si só exigem interpretação, com recurso ao pensamento simbólico.

“A leitura é uma atividade mais abstrata, mais elaborada, porque o que está escrito não é a coisa em si, mas um símbolo, e está diretamente relacionado à busca ativa de significado”.

Da mesma forma, a escrita também é uma função psicológica complexa. “Ao escrever, temos ideias, organizamos o pensamento, sincronizamos o pensamento com a atividade manual.”

A conclusão dos especialistas é que, seja com uma caneta-tinteiro, seja teclando em um computador de última geração, a escrita – assim como a leitura – ocupa um lugar central no mundo de hoje, tanto nas questões objetivas, como emprego e escolaridade, quanto no mundo interno e no cérebro de cada um.